Viagens em Itália
«Um salto no tempo e eis-me agora com 16/17 anos, em 1955-57, no Liceu já, às voltas com a Filosofia. Gratas voltas porque o Professor se chamava Augusto Abelaira e uma vez numa aula proferiu um nome: Piero della Francesca. Nós «quem?!», ele, sem ligar, prosseguiu falando de Florença («Mas se um dia lá forem, não deixem de ir a Siena»). Itália, outra vez, ali à minha frente. E mais à frente ficaria quando, com 18 anos, já na Faculdade, tendo trocado a Filosofia pela História, li de um folêgo o romance de estreia do meu ex-professor Augusto Abelaira. Chamava-se A Cidade das Flores. Quem diz «flores» diz «fiori», Fiorenza se chamou outrora Florença. A acção passava-se lá, no tempo de Mussolini, mas toda a gente percebeu que era um truque para ludribiar a Censura fascista – a portuguesa, de 1958. A «Cidade das Flores» era Lisboa, no tempo de Salazar.
De qualquer modo, Florença («Não deixem de ir a Siena») ficou-me no ouvido. Até porque, nesta altura, de Itália eu sabia já mais alguma coisa: o rio Arno, para lá das suas margens se passava O Bairro, o romance de Vasco Pratolini, um dos meus livros da vida, como todos os que lemos e amamos na adolescência.
E… Sim, por esta altura também eu já sabia, ou ouvira falar de Miguel Ângelo, Rafael, Botticelli e tutti quanti. Mas, se aos 9 anos a minha Itália era a Embaixada, a sua bandeira e o Torino de Bacigalupo, aos 18 era o Arno, Florença e a tal Siena onde não podia deixar de ir. Não só. Aos 18 anos, a Itália subitamente alargara-se-me para outros insuspeitados territórios. Um filme chamado Guendalina, de um tal Alberto Lattuada, fizera furor em Lisboa entre os adolescentes. Talvez em Itália não se saiba, mas foi graças a ele que em Portugal, desde então e até hoje, se passou a dizer «ciau» (ou «xáu», à portuguesa). Foi o que ficou de Guendalina, só décadas depois ao revê-lo descobri que se passava em Viareggio. Na Toscânia do Arno, Florença e Siena.
O cinema… Sim, o cinema que me trocaria outra vez as voltas, graças a Sentimento (Senso, como dizíamos, porque era mais bonito dizê-lo em italiano). Realizara-o Visconti, e a capital de Itália mudou-se-me outra vez. Agora para Veneza. A Veneza do Risorgimento, quando a Itália – enquanto país, estado, com as fronteiras de hoje – praticamente nasceu. Mas, antes de nascer (ou de Senso chegar ao fim), já eu por Itália chorara as primeiras lágrimas, quando no início do filme, no palco do La Fenice, há aquela cena do Il Trovatore, de Verdi; quem não se comove com ela é desprovido de coração.
(…) Para onde fui, por esta altura, foi para a Guerra Colonial, já feito o curso de História. De Itália nem memória nesse longíquo Moçambique aonde fui parar. Mas… Mas uma noite, numa cidadezinha à beira do Oceano Índico, hoje chamada Pemba, imagine-se só que filme passava no barracão adaptado a cinema – Senso, esse mesmo! As lágrimas, outra vez.
Regresso, sou professor (no mesmo Liceu onde uma dúzia de anos antes, pela primeira vez, ouvira falar de Piero della Francesca, Florença e Siena), a polícia política impede-me de dar aulas ao fim de um ano e em 1968 torno-me jornalista. Para apenas em 1973, no Setembro em que o Chile cai nas mãos de Pinochet, a Itália se me deparar de novo no caminho. Agora para ir lá, em serviço do jornal. «Florença?» – pergunto. Não. Era Milão. Milão do Duomo, da Galeria Vítor Manuel, do La Scala (a que não fui), da Ceia de Cristo (que não vi). Tal como, depois, sempre em serviço, não iria nem veria muita coisa que há em Roma. Onde estive sem ver o Papa, ajoelhando-me, todavia, perante a Pietà e sentando-me na Fontana di Trevi da Dolce Vita, de Fellini – o sagrado e o profano, e também desta simbiose vive a Itália.
Em Assis, sim, descobri Giotto e S. Francisco, como depois me extasiei em Veneza, vendo tudo sem ver nada, não extasiando já quando lá voltei (Ninguém duas vezes – assim intitulei o meu artigo para o jornal). Antes, porém, já me matriculara no Instituto Italiano de Lisboa. «Perché?» – perguntou a professora (Rosella Puppo, de Génova). Respondi-lhe «Per piacere». E era mesmo por prazer que me propusera estudar italiano. Por prazer de ser capaz de proferir duas ou três frases na mais bela língua do Mundo. E o francês? O francês continuava a ser a minha segunda língua, mas o italiano destronara-a no prazer de a ouvir falar. Francesco é mais bonito que François, e S. Francisco – desde que o lera e, pela mão de Giotto, o descobrira em Assis – passara a ser o meu santo. Com Marx e outros incréus ao seu lado no conclave.
Nunca mais voltei a Assis (também de Santa Clara, ou Chiara, que é mais belo de dizer e de ouvir), mas, em 1996, quando da segunda vez aportei a Milão, disse «basta!» e, escapulindo-me do serviço, tomei o comboio para Florença. Florença, enfim, 40 anos depois de Augusto Abelaira dela me ter falado. Mandei-lhe um postal de lá («Levei todo este tempo para aqui chegar, mas, graças a si, cá estou; obrigado»), mas não lhe disse que, à primeira vista – à primeira vista de três horas –, Florença me desiludira.
[in Uma Carta de Amor, de José Manuel Rodrigues da Silva, edição do Festival Sete Sóis Sete Luas, 2005]
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Uma paixão, mais do que por Itália, pela vida, que não posso deixar de partilhar. Embora o meu carinho por Itália seja suspeito, orgulho-me de ler a paixão com que José Manuel Rodrigues da Silva escreve sobre o meu país, mesmo apesar das desilusões que aliás partilho. A minha mãe (Rosella Puppo, professora natural de Génova no texto), teve o imenso prazer de conhecer Rodrigues da Silva. Eu, jovem aspirante a jornalista, infelizmente não o tive, nem pessoalmente nem literariamente. Fico com este texto uma enorme vontade de o fazer, se pessoalmente não o posso, com tristeza, já fazer, literariamente será sem dúvida um prazer.