‘Weltliteratur’ na Gulbenkian

Na próxima terça-feira, a Fundação Gulbenkian inaugura uma exposição interessantíssima: ‘Weltliteratur – Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o Mundo!‘, uma espécie de viagem através da literatura portuguesa do século XX, partindo de uma figura central do modernismo (Fernando Pessoa) mas fugindo a sete pés da previsibilidade académica que o respeitinho pelo cânone costuma impor. Pensada pelo professor universitário António M. Feijó (comissário) e desenhada pelos arquitectos Francisco e Manuel Aires Mateus, a mostra organiza-se como um labirinto de referências cruzadas e «nexos» que unem textos de autores diferentes (ou textos e obras visuais: mapas, quadros, esculturas, desenhos, fotografias, filmes).
À entrada, no funil que desemboca na primeira sala, está reproduzido um recado manuscrito da empregada doméstica de Pessoa, com erros ortográficos e tudo, fazendo a ponte entre o mundo da criação artística e a realidade concreta do quotidiano:

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Seguem-se, num percurso circular, onze espaços autónomos que mostram a relação de Pessoa com a sua cidade e a própria ideia de literatura (sala 1), questões de identidade nacional (sala 2) e sexual (sala 3), o fascínio exercido pela figura do imperador Juliano tanto em Pessoa como em Kavafis (sala 5) e aproximações a Teixeira de Pascoaes (sala 6), Camilo Pessanha (sala 7), Mário de Sá-Carneiro (sala 8), Almada Negreiros (sala 9), Vitorino Nemésio (sala 10) e uma espécie de síntese final (sala 11) que pretende sublinhar «como a noção de progresso em arte é impertinente». À saída da última sala, onde Pascoaes é colocado no mesmo patamar de Pessoa (com tudo o que uma tal equivalência sugere), encontramos este excerto de uma entrevista dada pelo escritor de Amarante, em 1950:

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A exposição poderá ser vista até 4 de Janeiro de 2009. Paralelamente, o Auditório 3 da Fundação Gulbenkian acolherá, sempre às 18h00, uma série de conferências livremente inspiradas nos temas da exposição, com destaque para a que será proferida pelo Prémio Nobel da Literatura V. S. Naipaul, a 22 de Novembro. Eis a lista completa:

1 Out. – António M. Feijó, Francisco Aires Mateus e Manuel Aires Mateus
4 Out. – António Coutinho
8 Out. – Eduardo Lourenço
11 Out. – Clara Pinto Correia
15 Out. – Miguel Tamen
21 Out. – D. José Policarpo
5 Nov. – Rui Vieira Nery
12 Nov. – Maria Filomena Mónica
15 Nov. – Rui Ramos
19 Nov. – Eduardo Batarda
22 Nov. – V. S. Naipaul
26 Nov. – Vasco Graça Moura
29 Nov. – José Pacheco Pereira
3 Dez. – Maria Filomena Molder
6 Dez. – Luísa Costa Gomes
10 Dez. – Pedro Mexia
13 Dez. – Frederico Lourenço
17 Dez. – Teresa Beleza



Comentários

7 Responses to “‘Weltliteratur’ na Gulbenkian”

  1. Ciberescritas » Exposição Weltliteratur no Bibliotecário de Babel on Setembro 27th, 2008 20:29

    […] No Bibliotecário de Babel, José Mário Silva desvenda um pouco do que vai ser a exposição Weltliteratur. Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o Mundo!. , comissariada pelo professor universitário António M. Feijó (comissário) e desenhada pelos arquitectos Francisco e Manuel Aires Mateus. O post pode ser lido a partir de aqui. […]

  2. Luís Graça on Setembro 28th, 2008 8:15

    Tive de ler e reler para acreditar, tão fascinante é a proposta.
    A exposição de Pascoaes foi o meu momento mais alto na Gulbenkian, nos últimos anos. Embora a tarde de Steven Saylor, no IV Congresso Internacional sobre o Romance Antigo, também me tenha enchido as medidas, bem recentemente.

    Esta exposição não verei. Devorarei. Peregrinarei. Passearei.

    Não é para ver uma vez. É para ver uma vez e outra. E outra. E outra.

    É uma vez mais a cena clássica de língua na boca entre mim e a Gulbenkian, com a literatura a sorrir de mansinho.

    Vou-me perder e encontrar com muita gente. Os escritores mortos que nunca morrem. E os rostos que descobrirei a descobrirem os escritores mortos que nunca morrem. As frases que trocarei com desconhecidos. Os comentários que ouvirei e me farão pensar em coisas que nunca tinha pensado.

    Que espectacular descoberta, esta exposição.

  3. José Mário Silva on Setembro 28th, 2008 10:17

    É tudo isso que dizes, Luís. E mais não expliquei para não quebrar o encanto da descoberta.

  4. Luís Graça on Setembro 28th, 2008 10:42

    Só tens é de receber um enorme obrigado da minha parte. Estava espectacular. Também gostei muito da tua entrevista à Zadie Smith e não me lembro se já te tinha felicitado.

    Olha, já agora, moralmente devo-te outra coisa, já que foste dos primeiros a falar do meu blogue O Prazer da Mesa.

    Hoje pelas 17 horas (Eurosport) há uma final da Taça do Mundo que vale mesmo a pena espreitares, se puderes. Aquilo é que é jogar. Imagino que já tenhas lido o diálogo pingue-ponguístico que eu e o Saint-Petersburg andamos a manter no blogue da LER, na caixa de comentários do post sobre a capa do Diniz Machado. Por acaso o pessoal continua a apostar em cada nome…

    Ah! do que eu gostava mesmo era de te pagar uma jantarada no “Poleiro” ou no “Trempe”. Mas já estou na fase em que me pagam. Nestas duas últimas sessões da Casa Fernando Pessoa fui alimentado principescamente pelo meu amigo Joaquim Evónio, do site Varanda das Estrelícias (www.joaquimevonio.com).

    De qualquer forma, um copo pago-te sempre, em homenagem. Em local à tua escolha. Pode ser mesmo na Gulbenkian. Pode ser no Old Vic, pode ser no Galeto. Quando calhar. Está prometido. Agora vê lá se não escolhes um whisky de 20 anos, very special reserve.

  5. Bibliotecário de Babel – António M. Feijó: «Nunca se pode comissariar uma exposição como esta de um ponto de vista impessoal» on Outubro 7th, 2008 10:39

    […] Bibliotecário de Babel falou com António M. Feijó, o comissário de ‘Weltliteratur – Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o Mundo!‘ (mostra inaugurada faz hoje uma semana, na sala de exposições temporárias da Fundação […]

  6. dramapessoal on Outubro 7th, 2008 17:37

    Não há qualquer erro ortográfico no recado da Sra. Adelaide.

  7. Bibliotecário de Babel – Novidades Dom Quixote (Novembro) on Outubro 14th, 2008 13:59

    […] Sai de Cena, penúltimo romance de Philip Roth; Sementes Mágicas, de V. S. Naipaul (que profere uma conferência a 22 de Novembro, na Gulbenkian); e Um Homem Muito Procurado, de John Le […]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges