Cronologia
09h50 À entrada do miradouro, as pessoas vão-se juntando, com sacos debaixo do braço. Algumas apresentam-se. Primeiras trocas de impressões.
10h01 Chega o proprietário do quiosque, com a chave que abre o portão e permitirá a entrada do Skoda Fabia azul carregado de livros.
10h05 Uns quinhentos livros (mais coisa menos coisa) espalham-se pelo parapeito da pérgula, em pilhas de altura variável. Beneficiadas pela pontualidade, cerca de 40 pessoas aproveitam a primeira escolha. A festa decorre sem problemas, sem discussões, sem balbúrdia. Cada pessoa serve-se à vontade (uns levam cinco livros, outros dez, outros quinze) mas ninguém abusa. Nas palavras de uma leitora, «até parecemos nórdicos».
10h20 Já não há livros (nem um só, para amostra). Há pessoas sentadas nos bancos, a ler. O Bibliotecário de Babel não tem mãos a medir, falando com os seus leitores de carne e osso, leitores que deixaram agora de ser apenas nomes em caixas de comentário. Quem conseguiu livros não se vai logo embora. Há quem aprecie a vista sobre Lisboa, a sombra, o serviço do quiosque. Há quem meta conversa com os outros participantes na festa. O ambiente no miradouro não podia ser melhor.
10h30 Continuam a chegar pessoas. Muitas pessoas. Desânimo nos rostos: «Já não há nada?» Oiço histórias de taxistas ignorantes ou maldosos, que deixaram os seus clientes noutros miradouros. Miradouros sem livros. A quem chegou mais tarde, prometo para as 11h00 a consolação de uma segunda leva, mais pequena, deixada em casa para o caso de haver uma ruptura de stock demasiado rápida. Que foi precisamente o que aconteceu. Aliás, quinze minutos nem sequer entra na categoria do «demasiado rápida». Diria antes que foi uma ruptura de stock instantânea.
11h00 Saio para ir buscar mais livros.
11h10 Regresso com a segunda leva (cento e tal volumes). Os livros desaparecem mal saem dos sacos. Os retardatários não dão a manhã por mal empregue.
11h40 Continuam a chegar pessoas. No parapeito da pérgula, nada de nada. «Paciência», dizem-me, «mas não foi só pelos livros que cá viemos». Ainda bem. Também não foi só pelos livros que eu e o resto dos leitores (mais pontuais) ali fomos.
12h00 Alguém sugere uma ideia: «Da próxima vez, as pessoas podiam trazer de casa os livros que já não querem ou de que já não precisam, juntávamos tudo e depois cada um levava o que lhe apetecesse.» Em vez de uma Grande Oferta de Livros, seria uma Grande Troca de Livros. Porque não?
12h30 Começo a arrumar os sacos e caixas de plástico.
12h40 A Grande Oferta de Livros do Bibliotecário de Babel chega ao fim. Daqui a uns meses há mais. Quando chegar a altura, avisarei.
Comentários
11 Responses to “Cronologia”
- Maravilhas da paternidade em 22 de Maio de 2012
- Com a cabeça debaixo do braço em 22 de Maio de 2012
- Prémio Camões para Dalton Trevisan em 21 de Maio de 2012
- Residências literárias em 21 de Maio de 2012
- Melancólicas criaturas em 20 de Maio de 2012
- Primeiros parágrafos em 20 de Maio de 2012
- Um rato através da anaconda em 20 de Maio de 2012
- Os reflexos do mal em 19 de Maio de 2012
- O que aí vem (Esfera do Caos) em 19 de Maio de 2012
- Camané no ‘Avenida de Poemas’ em 18 de Maio de 2012


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Esta foi uma excelente ideia, e a da troca ainda consegue ser melhor!
Avancem, eu levo muitos, mais do que trarei por falta de espaço, razão pela qual não fui desta vez ao miradouro. Sobrava a festa, uma razão tão boa como a primeira, e que fica como motivo mais que certo para a próxima.
~CC~
Excelente ideia a da troca de livros. Um regresso saudável ao passado – produto por produto. Vou nessa.
Mas se estiverem repetidos nas nossas bibliotecas, por que razão não continuar com a dádiva? Com estas publicações lançadas pelas revistas e imprensa jornalística, a preços tão simbólicos, faz pena deixar os livros no quiosque expostos a todo o tipo de intempéries – incluindo as das emissões do dióxido de carbono-, o que leva a um acumular de livros, caso não exista lá por casa nenhum Leonardo, Firmin ou o rapaz que comia livros…
By the way, já que referi o passado. Sugiro que possamos usar certos produtos como moeda de troca. E haverá um pagamento simbólico do livro levado.
Da minha terra, levarei SAL. Não só porque já quase não existe esta actividade nas salinas, que se encontram mortas ou destruídas pela “civilização” (“Há vários milhares de anos caíram aqui as célebres janelas do palácio do Céu. Ficaram intactas as vidraças nos respectivos caixilhos, porque as janelas caíram sobre a relva verdinha. Hoje são as salinas.“, palavras de Mestre Almada que já não fazem sentido), mas também porque os salários (palavra, provavelmente, originária de sal) são cada vez mais exíguos junto da maioria dos portugueses. Quando os há.
Ainda ontem vivi esse drama. Após abandonar o “miradouro dos milagres”, passeámos pela Feira da Ladra, local que não visitava desde tenra idade e que sempre me angustiou. Penso que já percebi porquê. Os rostos amargurados da maioria dos vendedores, associados ao tipo de artigos que esperam vender, a fim de garantirem a sua subsistência, fizeram com que tivesse deixado o local de forma apreensiva e inquietante. Tenciono revisitar o espaço com mais calma e tranquilidade e tentar captar imagens mais reconfortantes.
A visita que se seguiu, à obra de Graça Morais, em Algés, que desde Junho tem vindo a ser consecutivamente adiada, neste périplo de idas a Lx em demanda do “santo graal”, que não sobe à província… completou o extraordinário dia 21 de agosto 2010.
E repete-se aquela sensação de “hoje é o primeio dia do resto da minha vida.”
Obrigada, José Mário.
Numa próxima vez organizo um evento de Bookcrossing e assim os bookcrossers levam os livros que já não querem para se juntar à festa e ao convívio. Assim faremos que a maior biblioteca do mundo – bookcrossing seja um pouco maior e mais feliz!
Obrigada pela partilha e pela simpatia, é bom ainda encontrar pessoas assim…
[...] literário e jornalista José Mário Silva esteve no miradouro a dar livros. Podem ler tudo no http://bibliotecariodebabel.com/ E escreve no seu blogue: “A Grande Oferta de Livros do Bibliotecário de Babel chega ao fim. [...]
Nos tempos que correm, o retorno a uma ideia de partilha sem expectativa de retorno é sempre de louvar. Assim haja multiplicação, pois as boas ideias cada vez menos são vertidas de decretos, e alguns volumes no nosso “skoda” ajudarão também à festa.
Louvável iniciativa, e já agora aproveito para lançar a ideia: e por que não descentralizar as próximas iniciativas.
Há mais distritos em Portugal que com certeza lêem o Bibliotecário de Babel.
Assim de repente lembro-me do fantástico Jardim das Portas do Sol em Santarém, assim como há outros locais no pais bons para essa iniciativa.
Fica a ideia e mais uma vez, Parabéns
Caro José Mário,
Foi por azar que não pude ir, mas não posso deixar de aplaudir e agradecer a iniciativa.
Muito obrigado
Um abraço
Ricardo
Muito boa esta iniciativa!
Da próxima vez quero ver ao vivo… Infelizmente aqui em casa já não cabe mais nada… Mas quem sabe tenho algum para a troca!
Mais uma vez parabéns pela ideia!
Adorava ter ido. Infelizmente estou a 300 quilómetros de Lisboa e não teria como me deslocar.
Gostava muito de ter ido “adoptar” alguns dos seus livros. Invejo o facto de ter tantos livros e de lhe serem oferecidos, porque infelizmente não tenho muitos recursos para ter todos os que queria.
Acho que só quem ama ler compreende este apego à literatura… só tenho duas estantes completas e já me dizem “nunca conseguirás lê-los todos”… com a idade que tenho e com toda a vida que tenho pela frente, tenho a certeza que nunca nenhum livro que colocarei na estante será demais. nem menos valioso.
Parabéns pela grande iniciativa, Portugal precisava de mais coisas destas
Dahram, “bookcrossing” não é bem isso… I’m afraid… Mas se os livros fossem espalhados e escondidos pelos diferentes espaços do Miradouro, quiçá? A acontecer, um cheirinho de “crossover literature” completaria o cenário e há os amantes deste género, que já se considera literário (tudo pelo empurrão de J.K. Rowling com os intermináveis Harry Potters). Recomendo Sandra L. Beckett, académica, estudiosa da matéria, comunicadora brilhante e escritora de qualidade dentro deste género.
Cátia Veloso, envia-me o teu email e conversaremos sobre o assunto. Ando em arrumações de biblioteca, e com estas edições económicas de jornais e revistas, há surpresas.
isaberibeiro@gmail.com