Livros do ano

Chega-se a Dezembro e começam a surgir as listas dos “melhores entre os melhores de 2007″. O Times Literary Supplement, por exemplo, pediu a 35 escritores que resumissem, num parágrafo ou dois, as suas escolhas.

Eis o veredicto de dez desses autores (provavelmente os mais conhecidos do público português): 

 George Steiner

George Steiner. O papa da cultura livresca ocidental, que proferiu uma conferência na Gulbenkian há poucas semanas, destacou três títulos: Nemesis, de Max Hastings (Harper), uma abordagem histórica da batalha pelo Japão, na II Guerra Mundial; o romance The Indian Clerk, de David Leavitt (Bloomsbury); e Strophen für Übermorgen, de Durs Grünbein (Suhrkamp), “a major collection” que ilustra “the range, the civility, the acute political and aesthetic independence of a profoundly persuasive, though often ironic, voice”.

Julian Barnes

Julian Barnes. O escritor inglês, que também esteve em Portugal recentemente (a promover o romance Arthur & George, editado pela ASA), volta a revelar a sua francofilia. Além de That Sweet Enemy, de Robert e Isabelle Tombs (Heinemann), espécie de tratado sobre a rivalidade entre Inglaterra e França, escrito a quatro mãos por um casal cujos elementos nasceram em lados separados do canal da Mancha, a sua preferência recaiu em The Discovery of France, de Graham Robb (Picador), que explica “how the nation was created only by destroying or homogenizing those aberrant regions, whose singularities, once supressed, were then celebrated as typically french”. A redescoberta de Irène Némirovski, iniciada com Suite Française e prosseguida este ano com a publicação do romance David Golder (Vintage), também foi sublinhada pelo autor de O Papagaio de Flaubert.

Seamus Heaney

Seamus Heaney. O poeta irlandês, Prémio Nobel da Literatura em 1995, exultou com The Letters of Ted Hughes (Faber and Faber), uma correspondência que é, segundo ele, melhor ainda do que os seus admiradores poderiam esperar. “Rammed with life in every line, spontaneous, sagacious, extravagant, they will not only be the best guide to his life and work, but will provide like Keats’s, in comparison with wich they more than hold their own – an education in the vocation of poetry.” Heaney louva ainda The Táin (Penguin Classics), uma “jubilosa” nova tradução, feita por Ciarán Carson, do épico The Cattle Raid of Cooley, originalmente escrito em Irlandês Antigo.   

Alberto Manguel  

Alberto Manguel. O ensaísta, conhecido sobretudo por Uma História da Leitura (Presença), inclinou-se para dois livros de poesia de autores canadianos: The Door, da também romancista Margaret Atwood (McClelland & Stewart), “written in a sparse, elegiac tone that combines illuminating intelligence with caustic humour”; e The Blue Hour of the Day, de Lorna Crozier (McClelland & Stewart), uma antologia de oito dos seus livros anteriores. Dos muitos romances “excelentes” lidos em 2007, Manguel deixa registo de três: Tasmon, de Thorsten Palzhoff (Steidl); La Femme qui lisait trop, de Bahiyyih Nakhjavani (Actes Sud); e Nada, de Carmen Laforet (Harvil Secker).

Joyce Carol Oates

Joyce Carol Oates. A autora de Blonde, eterna candidata ao Nobel, fez uma lista com dez títulos. Os principais: The Reluctant Fundamentalist, de Mohsin Hamid (Hamish Hamilton, editado em Portugal pela Civilização), que recomenda com “muito entusiasmo”; Born Standing Up, as memórias de Steve Martin (Simon and Schuster); Prime Green, de Robert Stone (Harper Perennial); Old Heart, do poeta Stanley Plumly (Norton); a biografia literária Bernard Malamud: A writer’s life, de Philip Davis (Oxford); e o romance On Chesil Beach, de Ian McEwan (Picador, editado por cá pela Gradiva), um “tour de force of impassioned brevity”.

 Michel Tournier

Michel Tournier. Talvez inesperadamente, se tivermos em conta a forma como a inteligentsia francesa costuma receber os livros de Amélie Nothomb, o escritor francês, que pertence ao comité de leitura da Gallimard e à Academia Goncourt, assume uma única escolha: Ni d’Eve, ni d’Adam (Albin Michel), o 16.º romance da autora belga. A 5 de Novembro, quando ficou decidido o vencedor do Goncourt deste ano (Alabama Song, de Gilles Leroy), Tournier votou em Nothomb, “but unfortunately I was the only one to do so”. E votou, entre outras coisas, por ter considerado o livro “both funny and gripping because it is so brutally truthfull and utterly unexpected”.

 Nadine Gordimer

Nadine Gordimer. A Nobel sul-africana dividiu as águas. Ficção: Exit Ghost, de Philip Roth (Houghton Mifflin), “a noble revelation of the cruel vulnerability of the body we live in without choice”. Não-ficção: Camus at “Combat”: Writing 1944-47, textos dispersos de Albert Camus, editados por Jacqueline Lévi-Valensi (Princeton), “every line totally charged with extraordinary synthesis of passionate conviction and objectivity in intellectual force”.

 Marjorie Perloff

Marjorie Perloff. A professora emérita de Literatura Comparada em Stanford, conhecida pelos seus trabalhos no campo da crítica de poesia, sente uma “nova esperança” em relação a uma “avant-garde writing that also speaks to a larger audience”. E em que é que assenta a ”nova esperança”? Em dois “dazzling books”: o livro de poemas Souls of the Labadie Tract, de Susan Howe (New Directions); e Today I Did Nothing: The Selected writings (Overlook Duckworth), do inclassificável russo Daniil Kharms (que a Assírio & Alvim editou este ano, em tradução de Filipe e Nina Guerra). 

Ali Smith

Ali Smith. A escritora escocesa elege duas autoras britânicas: Nicola Barker, por Darkmans (Fourth Estate), finalista do Man Booker Prize deste ano; e Jeanette Winterson, por The Stone Gods (Hamish Hamilton), “a blend of wit, yearning and grief whose rolling, open structure argues optimism in the face of grave loss”. Smith elogia ainda duas pequenas editoras: a Hesperus Press e a Pushkin Press.

Clive James

(Foto: Alana Cundy) 

Clive James. Tal como Seamus Heaney, este crítico australiano, que em tempos vimos a apresentar programas televisivos sobre cidades (no People and Arts), põe nos píncaros The Letters of Ted Hughes (Faber and Faber), sobretudo pelo trabalho de edição de Christopher Reid, ao evitar que as cartas fossem “twice as long, and therefore half as good”. A ausência desse trabalho de desbaste é justamente o que faz com que Diaries of Donald Friend (National Library of Australia) fique aquém do que podia ter sido. James destaca ainda The Black Swan (Allen Lane), de Nassim Nicholas Taleb, um teórico da incerteza e consultor financeiro; bem como o livro Qu’est-ce que la France? (Stock/Panama), com as actas de um simpósio organizado pelo “dauntingly brilliant” filósofo Alain Finkielkraut. “The book would be worth buying for a single phrase coined by its editor to define the most widespread of current threats to civilization in the West: ‘la bien-pensance sans pensée.’”

Comentários

13 Responses to “Livros do ano”

  1. Bill on Dezembro 12th, 2007 15:45

    Ótimas dicas para presentes de natal…
    Vou verificar quais são possíveis encontrar do lado de cá do mar.

    [s]s

    • Cláudia M. on Dezembro 12th, 2007 22:16

      Ena, ena. Isto é que é verdadeiro serviço público.

      • Payday Loan on Março 30th, 2008 10:08

        Payday Loan…

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