A imprensa de referência e o Nobel de Literatura

Todos os anos, no dia seguinte à atribuição do Nobel de Literatura, faço um pequeno exercício na banca dos jornais: «Ora deixa cá ver quem é que chamou o escritor nobelizado para a primeira página e quem é que o ignorou.»
Escusado será dizer que o Correio da Manhã, por exemplo, nunca faz qualquer referência. Ainda se o escritor fosse um assassino, um pedófilo ou um ponta-de-lança do Benfica, talvez se arranjasse um espacinho. Agora alguém que escreve livros, essas coisas aborrecidas, é óbvio que nunca terá lugar numa capa tablóide.
Durante muito tempo, verifiquei uma espécie de lei universal que permitia separar os jornais de referência do resto da imprensa. Os jornais de referência são os que fazem chamada de capa com o Prémio Nobel de Literatura ou com os grandes escritores, quando morrem. Há uns anos, para minha tristeza, o Diário de Notícias começou a esquecer o Nobel literário. O Público, esse, nunca falhava.
Ora neste ano da graça de 2011, para meu grande espanto, aconteceu o contrário: Tomas Tranströmer está na capa do DN (com foto e tudo; embora para isso contribua, estou certo, o facto de o poeta sueco ter escrito sobre Lisboa), mas nem sombra dele na capa que o Público dedica quase na íntegra a Steve Jobs. Não deixa de ser sintomático (e preocupante).



Comentários

2 Responses to “A imprensa de referência e o Nobel de Literatura”

  1. otto von krinkelstein on Outubro 7th, 2011 15:55

    quando leio a expressão “imprensa de referência” apetece-me logo sacar da pistolo

  2. Luís Costa on Outubro 12th, 2011 16:20

    A poesia não é uma coisa popular, nem comercial, nem politicamente correcta ( já Ruy Belo o dizia . E é bom que seja assim ) vem dos lugares fronteiriços, dos lugares habitados por seres estranhos e híbridos. Por isso raramente os poetas são reconhecidos em Estocolmo. Mas na era da banalidade o que se há-de esperar? Como Breton dizia: ” Continuo sem me inteirar do que possa de haver de comum entre a poesia e a literatura. A poesia é domínio reservado e é inútil pretender prostituí-la. ” Tranströmer é um dos poetas maravilhosos desse domínio reservado…

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges