A tragédia madeirense (por Paulo Moura)

O que faz de Paulo Moura o melhor repórter português no activo não é apenas a sua destreza em situações de catástrofe, o seu olhar cirúrgico, a atenção aos mínimos detalhes. Tudo isso ajuda muito, mas não chega. O que faz dele o melhor repórter português no activo é o facto de escrever como um escritor, nunca deixando de ser jornalista. Mais um exemplo da sua mestria pode ser lido na edição de hoje do Público, numa peça sobre as enxurradas que destruíram tudo à sua passagem, sábado, na ilha da Madeira. Atentem bem na forma como ele conclui o texto:

«Na cidade, a chuva parou e as pessoas vieram ao centro ver os estragos, como se fosse um espectáculo que um dia descreverão aos netos. Há muita gente, mas um estranho silêncio. Há zonas alagadas e outras em que a lama solidificou, deixando automóveis incrustados até ao tejadilho à maneira dos fósseis, em posições desgovernadas de quem tivesse participado numa dança louca. Dir-se-ia que andou tudo a voar.
Nas ribeiras ainda corre uma água castanha, rápida e rumorejante. Um som estridente, semelhante a uma gargalhada. Ao fundo, o mar espera, cúmplice. De certos sítios, agora calmos, ninguém se aproxima, com medo, como se ali tivesse rugido uma fera.
O Largo do Pelourinho ainda está alagado e da esplanada de um café apenas emergem os tampos das mesas, onde foi servido um sinistro repasto de pedras e lama. A um nível mais elevado fica a Praça da Autonomia, obra de regime, cercada de água por todos os lados.»

Finda a leitura, aquele som estridente da ribeira em fúria, «semelhante a uma gargalhada», perseguiu-me durante uns minutos. Para dizer a verdade, ainda o oiço.



Comentários

2 Responses to “A tragédia madeirense (por Paulo Moura)”

  1. Venâncio on Fevereiro 22nd, 2010 15:36

    Já quando li a colectânea “Grande Reportagem” (Oficina do livro, 2006) notei, e pude assinalar, a imensa desenvoltura, e o lirismo descritivo, de Paulo Moura. E algumas crónicas no P2 do Público eram brilhantes.

    Belo apontamento, Zé Mário. Que bom sermos contemporâneos de gente assim.

  2. Luís Graça on Fevereiro 23rd, 2010 3:59

    Vale sempre a pena ler o Paulo Moura. E ainda não li o livro dele sobre a conquista de Lisboa aos mouros. Já o elogiei a uma amiga, na sua presença.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges