Apanhar cogumelos

Última pergunta, e última resposta, da entrevista que Manuel Halpern fez a Peter Handke (publicada na edição de hoje do Jornal de Letras):

Então, agora sim, esta é a última pergunta: o que anda a escrever? No que está a trabalhar?
Eu vivo numa grande floresta em França, e esta é a altura dos cogumelos. Por isso, o meu trabalho de momento é andar pela floresta a apanhar cogumelos. Claro que também escrevo. Eu gostava de morrer a escrever. A escrita é o meu país. Mas não o quero estar para aqui a aborrecer com os meus projectos.

Eu não apanho cogumelos. Nem nesta altura do ano, nem em nenhuma outra. Hélas. Também não vivo em França. Hélas. Mas percebo aquilo de «morrer a escrever». Eu não me importava de morrer a escrever, embora preferisse morrer a ler. A leitura é o meu país.



Comentários

3 Responses to “Apanhar cogumelos”

  1. Maria João Freire de Andrade on Novembro 18th, 2009 11:22

    Eu não me importava de morrer a traduzir, mas sim, a morte perfeita seria morrer a ler. Um abraço.

  2. Jonas on Novembro 18th, 2009 12:50

    Com franqueza, isso de morrer a escrever parece uma Lobantunice, uma declaração de amor à pose e à eternidade.
    Não só por isso, mas também pela romântica percepção da morte, em que cavalheiro ou uma dama está com o olhar perdido na meia distância, e a aflição teatral de um segundo desliga a máquina.

    Ora.

    Imaginemos outras circunstâncias… um carro caindo numa ravina, ler ou escrever nessa corrida para a morte continua sendo “glamoroso”?
    Ou no Concord ardendo no ar; sendo rasgado debaixo de uns rodados de um camião; asfixiado no próprio vómito; num voo de cem andares de altura contra o solo de Manhattan; sendo mordido por uma island taipan, ou até algo tão banal quanto uma queda sem aparato mas com as piores consequências.

    A ler ou a escrever?

    Rêveries mórbidas?

  3. No vazio da onda on Novembro 18th, 2009 16:36

    A minha vizinha do 3.º esq. diz que gostava de morrer a rir. Diz ela que assim tinha mais piada.
    Eu talvez optasse por “ler até morrer”. Talvez assim tivesse tempo para ler todos os livros que quero ler.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges