O dedo na ferida

«Sento-me com outra amiga em Lisboa e ela conta-me que recusou idas e vindas e textos por não serem pagos, mas que isso não constituiu problema para quem a convidava, porque havia sempre gente para aceitar — como agora há cronistas a escrever de graça.
Eu vejo duas boas razões para escrever de graça. A primeira é quando alguém próximo nos pede. A segunda é quando reverte a favor de quem precisa. No primeiro caso trata-se de amizade, no segundo de voluntariado. O resto chama-se abuso.
O abuso não só perpetua o estado das coisas como o acentua. Cada vez que alguém acha natural não pagar a quem escreve está a dizer que a literatura é acessória, e a contribuir para que ela desapareça.»

Quem o diz é Alexandra Lucas Coelho, numa crónica exemplar.



Comentários

5 Responses to “O dedo na ferida”

  1. «Escrever de graça», por Alexandra Lucas Coelho | Caderno da crítica on Março 25th, 2012 9:03

    […] a Alexandra Lucas Coelho a través do Bibliotecário de Babel. Este blogue recupera un fragmento dunha interesante crónica que subscribe a xornalista de […]

  2. Rui Silva on Março 26th, 2012 13:40

    Ou pedir-lhes que croniquem sobre as nunca acessórias “batatas novas, que/ costumam aparecer/ antes da Páscoa”.

  3. Venâncio on Março 27th, 2012 23:24

    Nem mais!

  4. Carriço on Março 28th, 2012 17:58

    O José Mário desculpe o off-topic, mas tem ideia da data prevista de edição (sei que é 2012) da tradução de Gravity’s Rainbow?

    Obrigado e desculpe uma vez mais.

  5. George Sand on Março 28th, 2012 18:35

    Um assunto mais do que pertinente, que se aplica a todas as formas de arte. Não só à literatura.
    O que se passa em relação à música por exemplo, também me parece preocupante.
    Não é só o problema do justo pagamento pela arte e pela cultura. è também o dos direitos de autor.
    Cumps

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges