O LeV, visto por Alexandra Lucas Coelho

Da reportagem sobre os quatro dias que a jornalista passou no encontro Literatura em Viagem (texto publicado na edição de hoje do suplemento P2, do Público; ver aqui), destaco as suas «notas do meu caderno»:

«Carlos Vale Ferraz a dizer que a amargura faz má literatura e o que há na guerra é a vida. Cândida Pinto a contar como viu um par de noivos atravessar três barreiras de segurança para umas núpcias no Hotel Palestina em Bagdad. João Pedro Marques a distinguir a História fria (que explica mas não mostra) e a História quente (que mostra mas não explica). Lourenço Mutarelli, esse lacónico paulistano que entre Beja e Nova Iorque prefere Beja, a explicar como o avião é demasiado rápido para a alma. Nuno Silveira Ramos, crescido em Angola, a contar como se sentiu português e orgulhoso em Malaca, onde os ranchos folclóricos cantavam Ó Malhão Malhão em português arcaico. Júlio Moreira a dizer que escrever é eficaz para a memória, como sabem todos os cábulas. Arthur Dapieve a falar do garoto preto rico raptado pelo garoto branco do morro no Rio. José Fanha a recitar o poema de António Lobo Antunes sobre os homens maricas quando estão com gripe. Filomena Marona Beja a mostrar como a partir da palavra zimbro se viaja à serra da Estrela no século XIX. Joaquim Magalhães de Castro a falar dos pioneiros portugueses nesse tecto do mundo que são os Himalaias. Cristina Carvalho a descrever os bosques da Lapónia onde os adultos ficam crianças. Helder Macedo a inventar a realidade do homem que atravessa o deserto num blindado sem uma única janela. valter hugo mãe à espera de coisas esdrúxulas num patamar de Paços de Ferreira, onde a dona Alice tinha sido amiga de infância de uma santa. Mempo Giardinelli a dizer que a escrita é uma luta contra a realidade, exactamente o contrário do que acredito.
Eu acredito que a realidade, como o mundo, não acaba. A escrita será real ou não será. E nenhum momento em todo o LeV me comoveu como a intervenção do arquitecto Alexandre Alves Costa, que trouxe quatro viagens em texto e imagem, para dizer aquilo que no passado continua a ser agora. Uma delas foi a que fez aos bairros de lata em que viviam os emigrantes portugueses em Paris, em 1965. Eu nunca tinha visto aquela lama, aquele frio. E não me vou esquecer.»

A este excelente resumo do LeV falta só, por razões que se compreendem, uma nota sobre a magnífica intervenção da própria Alexandra Lucas Coelho, que, numa mesa dominada pelo bom humor e desassombro de José Rentes de Carvalho, lembrou um dia quase infinito que passou em Cabul, cheio de encontros luminosos com pessoas luminosas, prova de que a viagem pode dilatar o tempo; isto é, fazer com o que o nosso tempo seja invadido, aumentado, iluminado pelo tempo do lugar onde se chega, desde que se tenha, é claro, disponibilidade para esse contágio.



Comentários

One Response to “O LeV, visto por Alexandra Lucas Coelho”

  1. Inês e Mafalda on Abril 23rd, 2010 11:35

    “valter hugo mãe à espera de coisas esdrúxulas num patamar de Paços de Ferreira, onde a dona Alice tinha sido amiga de infância de uma santa. ”

    A “intervenção” do valter foi um momento particularmente interessante e divertido.

    A minha nota sobre isso aqui: http://inesemafaldaconversasperdidas.blogspot.com/2010/04/lev-2010-valter-hugo-mae-o-nabo.html ( caso queira espreitar )

    Boas leituras

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges