A invenção do Brasil

«Uma obra de fôlego, que refigura uma vasta erudição, combina narrativa histórica e arte poética, elaboração wagneriana e aura profética.» Foi assim que o júri da primeira edição do Prémio LeYa, presidido por Manuel Alegre, justificou em Outubro a atribuição dos 100 mil euros – valor só igualado, no mundo lusófono, pelo Prémio Camões (que distingue toda uma obra e não apenas um livro) – ao jornalista brasileiro Murilo Carvalho, autor de O Rastro do Jaguar, considerado o melhor dos 448 romances concorrentes.
No dia do anúncio, feito durante a Feira de Frankfurt, Murilo Carvalho, 60 anos, encontrava-se no coração da Amazónia a filmar um documentário. «Foi uma surpresa enorme», confessa. «Eu só consegui falar ao telefone por estar perto de um quartel do exército, mas havia pouca rede e levei algum tempo a perceber o que me diziam.»
O Rastro do Jaguar é o seu primeiro romance e o regresso à literatura (na juventude publicou dois volumes de contos, ambos premiados), após um longo período dedicado à realização de programas televisivos, ao trabalho como guionista de cinema e à escrita de livros de reportagem («sobre as lutas entre índios e poceiros, conflitos pela posse da terra, esse tipo de temas»).
Fruto de quatro anos de pesquisa intensiva, o livro estava numa espécie de impasse, muito por culpa da sua extensão: «Uma das editoras que contactei respondeu-me que preferia não publicar um romance tão grande; era mais seguro apostar em três livros de 200 páginas do que num só com quase 600.» Por isso, ao ver o anúncio do Prémio LeYa no jornal, nem hesitou.
A ideia para o romance nasceu da leitura das obras do naturalista francês Auguste de Saint’Hilaire, que viajou pelo Brasil no início do século XIX e deixou minuciosas descrições da flora tropical. Num dos livros, Saint’Hilaire revelava a intenção de levar consigo para a Europa um índio aimoré adulto, bem como um índio guarani ainda criança, destinado a um general de Napoleão. «Ele trouxe os índios até ao Rio de Janeiro, mas o governo brasileiro não autorizou o embarque. Ninguém sabe o que aconteceu a esses dois. Então, eu decidi imaginar que eles chegavam mesmo a França. Ou seja, pus-me a ficcionar as suas vidas, mantendo os nomes verdadeiros: Firmiano (o aimoré) e Pierre (o guarani).»
Um dos objectivos de Murilo foi justamente explorar as questões identitárias dos povos indígenas, massacrados por uma política colonial que os conduziu ao extermínio, ou quase. «Quis sobretudo prestar homenagem à cultura guarani, à sua cosmogonia assente no poder da palavra, à sua religiosidade complexa e aos seus mitos, como o da procura da Terra Sem Males.»
Além das pequenas guerras de resistência dos indígenas, há outro conflito militar que ocupa um lugar central na estrutura do livro: a guerra do Paraguai. «Infelizmente, a história da América do Sul, contada em ficção, quase não existe. E eu pretendi lembrar esse momento dramático que moldou os países do extremo sul do continente: o Uruguai; a Argentina, ainda em formação como país; o Brasil, à beira do fim do império; e o Paraguai, que viu a sua população masculina dizimada (e ainda não se recompôs, século e meio depois). Estas nações formam hoje o Mercosul. Constituímos uma comunidade internacional. Temos um passaporte comum. E nascemos todos daquela guerra. Uma guerra que eu tentei descrever, para a entender melhor.»
O rigor histórico transformou-se numa obsessão para Murilo Carvalho, enquanto preparava o romance. Por isso visitou, um a um, todos os lugares referidos. «Cada casa, cada rua, cada descrição geográfica é absolutamente real. Andei por aqueles sítios, filmei muito, li tudo o que encontrei sobre os vários temas, desde relatórios militares a descrições das batalhas, passando por textos de filósofos e versos de poetas sobre a condição indígena.» Nos pântanos do Paraguai, encontrou ainda rastos da destruição e até balas, marcas do horror que o ajudaram na hora de escrever.
Para Murilo Carvalho, este romance impôs-se pela «necessidade de reflectir sobre a História do meu país», algo que os documentários não lhe davam, «porque só permitem mostrar a realidade como ela é», em bruto, sem o lastro de um pensamento mais elaborado. «Em minha opinião, a literatura deve abarcar os muitos aspectos de uma época, focando tanto os movimentos individuais como os colectivos. Eu não gosto dos romances demasiado intimistas, que ficam navegando apenas pelo interior das personagens.» Precisamente o tipo de ficção que domina, segundo Murilo, o panorama «muito pobre» da literatura brasileira contemporânea. «Os jovens autores estão todos voltados para si mesmos. É a literatura dos gabinetes de S. Paulo, da violência urbana. E o resto do país como que desaparece.»
Talvez por isso, embora aprecie alguns escritores mais recentes (como Luiz Ruffato, Cristovão Tezza ou Caio Fernando Abreu), as referências maiores estão lá para trás: «Há o Guimarães Rosa, claro. Eu gasto os livros dele, de tanto ler. E depois alguns nomes menos conhecidos fora do Brasil, como Autran Dourado ou Adonias Filho, autor de Memórias de Lázaro, um livro maravilhoso.» Não que o seu estilo se assemelhe ao destes escritores: «Eu escrevo de forma muito clara, muito cinematográfica. E se há alguma herança é mais dos delírios de Joseph Conrad e Richard Wagner.» A música de Wagner, explicitamente evocada no livro, foi mesmo essencial no processo de criação. «Passei o tempo todo a ouvir o Tannhäuser, com as partituras na mão, procurando compreender tanto as ideias musicais como a busca dos mitos.»
Com a folga financeira permitida pelo prémio, o objectivo é agora dedicar-se mais à literatura, mas sem abdicar do trabalho que vem fazendo. No horizonte, há vários projectos de documentários, um deles sobre a exploração sexual de crianças nas estradas brasileiras. E o próximo romance, Memórias de Isabel, já está escrito. «É sobre o período da ditadura, reflectindo um pouco da minha experiência na época. Passa-se durante uma semana, uma parte na Bahia, outra parte em S. Paulo, em torno da construção de uma grande barragem no sertão e do assassinato de Vladimir Herzog, um grande amigo e jornalista. Foi com o impacto da sua morte que a ditadura começou a cair.»
O Prémio LeYa será oficialmente entregue a Murilo Carvalho no dia 6 de Abril, no Hotel Pestana Palace, em Lisboa, pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. Já esta semana, foi aberto o concurso para a segunda edição do prémio, cujo regulamento pode ser consultado aqui. O prazo para a entrega de originais termina a 15 de Junho.

[Texto publicado no suplemento Actual do semanário Expresso]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges