Primeiros parágrafos

«Mesmo sentado num daqueles bancos altos de lanchonete, com a barriga colada no balcão, o marido, de quase dois metros, tem as pernas semidobradas e os pés bem plantados no chão. Além do tamanho acima da média, após seis anos de casado, está mais corpulento do que sempre foi. Tem braços mais pesados, um pescoço mais grosso e seu olhar ganhou maior lentidão.
Enquanto mastiga, suas têmporas afundam, estufam, e nós saltam nos encaixes do maxilar. Está na segunda lata de refrigerante, com o fôlego natural em dois canudos. Antes de cada mordida no x-tudo que pediu, ele enfia a bisnaga vermelha por entre as camadas de pão-alface-tomate-maionese-ovo-baconbife-tomate-alface-pão, e aperta-o com vontade, sem tocar na outra bisnaga, amarela, à sua frente no balcão. Ao cravar os dentes no pão, faz o molho brotar do recheio, devolvido, amolecendo o guardanapo de papel e caindo no prato em gotas consistentes.
A esposa, embora ainda jovem, possui a beleza diferente da mulher que amadurece muito cedo. Com a bolsa junto ao corpo, o tórax espigado, firme sob o tecido da blusa, ela espera a família terminar o café da manhã. Jamais comeria ali. Pediu apenas um café bem preto, que adoçou artificialmente, numa dose arbitrária e preestabelecida. Só que nem o café está bebendo. Viu xícaras, pires e colherinhas sendo escaldados na água, brotando do vapor diante de seus olhos, mas para ela nada torna as condições sanitárias do lugar menos suspeitas. Faz então a pequena xícara branca evoluir em seus dedos compridos, só para ocupar as mãos.»

[in Outra Vida, de Rodrigo Lacerda, Quetzal, 2011]



Comentários

One Response to “Primeiros parágrafos”

  1. M. P. on Janeiro 9th, 2012 19:09

    “ela espera a família terminar o café”

    Em português seria “ela espera que a família acabe ou temine o café, ou equivalente.

    Pergunto-me se um escritor norte-americano escrevesse uma frase com esse desvio do inglês de Inglaterra, não seria logo corrigido pelo editor?

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges