Quatro poemas de Mariana Ianelli
HERCULANO
Estranha manhã, em Herculano,
Nos entrelaçamos como uma aranha.
Temos todo o tempo e o tempo é curto,
Em um minuto o passado elabora
O museu do futuro.
Podemos ainda amar a casa,
Encher as taças,
Inventar algum desejo pequeno
Com ares de importante.
Qualquer disparate
Nós podíamos, se quiséssemos,
Uma fresta de esquecimento
Onde tudo condensa memória.
Preferimos o momento ele puro, de calcário,
A fina arte da escultura.
Pouco importa a cara sufocada,
O corpo flagrado na posição do susto.
Passará a tempestade de pó,
A febre arreganhada passará, o escuro.
Não passará minha solidão socorrendo a tua.
***
MEMORANDO
Não há grandes notícias.
Uma torre desapareceu,
O inverno expandiu-se
E a esperança ainda rói
O fundo de uma caixa
Procurando saída.
Com esculpido esmero
Vai se acabando uma família.
Um gesto qualquer se repete
No ensaio de ser abolido,
Remediar, abafar, corrigir,
Nada lembra o que antes foi só
Generosidade de coisa viva.
Não convém
O alvoroço dos pássaros,
A revanche da galhardia.
É inútil desafiar o pó
E, contudo, desafia-se.
***
DESCENDÊNCIA
Sou o poema tresmalhado
Que um lobo traz à boca
Como prêmio
De um passeio ao campo.
Vive em mim
O irmão mais velho
Debruçado sobre o chão
Cavando, cavando com as unhas.
Aqui uma cidade se levanta,
Força e música,
Já a prostituta distribui
Os seus encantos.
Uma primeira espada
Delizando
E há o deserto em mim,
Que seca todo pranto.
Morre aqui eternamente
O ladrão do fogo,
Morre Abel, a cada verso
A terra faz ouvir seu sangue.
O animal que há milênios
Me carrega
Tem a marca
Da educação pela sombra.
***
DIANTE DA PAISAGEM
Minha espera mortiça
Dita saudade
Com fogo e buril
Ganha outro nome
E como todos os nomes
Anseia a carne.
Relâmpago
Na madrugada
Sem testemunha
Além dos meus olhos
E uma estampa
De mãos pré-históricas
Num fundo de pedra
Deixa o rastro
No poema
Da seiva que emana
De pai para filho
E me convoca.
Dom de ser o cordeiro
Desgarrado do adeus,
De lançar vida nos baldios,
Perder ruínas,
Bendita vida, trigueira vida
Pasmando o nada.
[in Treva Alvorada, Iluminuras (São Paulo, Brasil), 2010]
Comentários
One Response to “Quatro poemas de Mariana Ianelli”
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 29 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 22 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 16 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 9 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 2 de Dezembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 25 de Novembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 18 de Novembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 11 de Novembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 4 de Novembro de 2016
- Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’ em 28 de Outubro de 2016


Receba por e-mail
Facebook
Twitter
Delicious
DoMelhor
feed RSS
email diário





Biscoito fino!