Três poemas de Mariana Ianelli
Contornada a margem fina
Do esquecimento,
Uma nova capital aparecerá
Sobre a antiga,
Novas mulheres que não tenham conhecido
A barbárie que escandaliza e mata um filho,
Ou o desespero do auto-sacrifício.
“Qualquer saudade vivida pelo corpo
Possui as etapas da sua própria superação”
– Aprendemos isso.
O que de nós foi roubado
Mas antes resplandecia,
O que foi interrompido em mim,
Instinto de luta,
Retornará mais ardente, mais firme
Para as mãos de quem eu nunca vi,
Alguém sentenciado a cumprir
As mesmas lamentações
Que no passado eram minhas,
Os mesmos versos noturnos
Que abalaram a minha inteligência
E me arrastaram contigo para o fim.
***
O inferno esteja contigo
No dia em que teu pai morrer
Sob o aplauso de gente bastarda como tu;
Que a impiedade do tempo te faça mais cansado
Do que um camelo magro ao qual se cortam as patas.
As meninas que tu desencantaste no auge da ternura
Vão batizar tua cabeça animalesca (já separada do corpo)
Na intenção de que venhas a nascer um homem, e não uma farsa,
Em qualquer outra era distante e num país de outras raças.
Que a providência se feche à tua passagem
E cada mínimo fato da rotina trabalhe para a tua solidão.
Não suportarás a vida aferrolhando tua garganta.
Quem não te conheceu e nem mesmo soube do teu fim
Perceberá o sopro do vento quando a terra te engolir.
***
Para além do muro de pedra
Os espinhos foram tolhidos,
A cor púrpura assumiu as veredas
Do antigo solo de urtigas.
Na sétima vez em que o corpo se ergueu,
A grande planície do horizonte exibiu sua serventia.
[in Passagens, Iluminuras, São Paulo, 2003]
Comentários
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