Um poema de Luis Maffei

MARACANÃ, 11,04,2007

Se há,
Fernando,
uma metafísica do pênalti
ignoro.
Sei apenas que a vida é adepta de imitar
em noites assim
este jogo que é perfeito mas por
hediondo gesto: vida, morte,
vida e
a metafísica do pênalti.
E um histérico vazio à roda nossa, a velha
premissa de que tudo está errado salvo
nós, salvo este empuxe teu a me
arrancar do chão na hora do segundo gol
da gente,
salvo isso tudo que nos livra de um país tão
triste quanto um Maracanã de quarta à
noite que não sabe o que é noite ou
equinócio, tampouco a dimensão do
desbarato e somos nós
Fernando
cada vez mais sós.

Mas pouco importe. Este jogo
de novo
(e desta vez com teus braços de outras cores a
tomar em afeição meu Almirante
ou
a mim próprio)
nos fala como somos, súcubos do
pênalti e de sua metafísica, donos do direito de
abraçar a vida, a morte, a morte e
aquilo a que eu, por gana,
sei que posso dar o nome de amizade.

[in Telefunken, Deriva, 2009]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges