Haja Esperança!

À porta do hotel, entrámos num táxi amarelo. O motorista levou alguns segundos a perceber para onde queríamos ir e depois lá se fez ao caminho, do Lido para o centro do Funchal. Sem dizermos nada uns aos outros, pensámos que a Esperança talvez conste dos guias turísticos – afinal, trata-se de uma das maiores livrarias do mundo, com uma área superior à de um estádio de futebol e mais de 100 mil exemplares expostos – e por isso os taxistas a incluam nas paragens obrigatórias para quem visita a cidade. Engano nosso, claro. Chegados ao centro, o motorista virou-se para trás, perplexo, como quem perdeu de repente o sinal do GPS. «Acho que é por aqui», murmurou. Mas não era. Lá lhe dissemos para nos deixar perto da Universidade, algo desiludidos por se ter desfeito a inesperada história do taxista que até sabe onde fica uma livraria mítica. O resto do percurso, ao longo da rua dos Ferreiros, fizemo-lo a pé.
Entrar na Esperança é entrar num labirinto. Eu já conhecia fotografias das suas muitas salas forradas de livros até ao tecto, mas deambular por ali é outra coisa. A todo o momento, temos a sensação de que não vamos conseguir, ou querer, sair daquele dédalo de papel. Livraria de fundos no verdadeiro sentido da expressão, a Esperança não obedece às leis da rotatividade vertiginosa, que reduz o tempo de vida das novidades a poucas semanas e expulsa os clássicos para a solidão dos armazéns ou para o pó dos alfarrabistas. Tanto podemos encontrar um romance lançado há poucos dias como aquela antologia poética de um autor obscuro dos anos 70 que julgávamos esgotadíssima. E se a arrumação por ordem alfabética do primeiro nome do autor propicia desafios até a bibliófilos experientes, a melhor estratégia é uma pessoa deixar-se perder entre as estantes, à mercê dos acasos da serendipidade literária. Aqueles que colocam, por exemplo, os Objectos Sexuais no Espaço, de Maria Regina Louro, a poucos metros dos Objectos Sexuais nos Céus, de Paula Kane e Christopher Chandler. Ou As Mãos e as Luvas, de João Gaspar Simões, relativamente perto de A Mão e a Luva, de Machado de Assis.
Na Esperança, os livros não ficam escondidos. Todos mostram a cara, que é como quem diz a capa, de frente para o futuro leitor. Ora isto exige o recurso a um sofisticado aparelho tecnológico chamado mola. Paredes acima, ou nas superfícies laterais das estantes metálicas, os livros sustêm-se – e por vezes parecem levitar – presos por molas que deixam marcas na superfície do papel, discretas «tatuagens» (como lhes chamou Paulo Sérgio BEJu numa das sessões do Festival Literário da Madeira) que passam a ser marcas de água, invisíveis carimbos que assinalam a proveniência. Vejo agora, já em Lisboa, esse vinco no exemplar de Conto é como quem diz (Europress), a narrativa curta publicada por Isabela Figueiredo em 1988, quando ainda assinava Isabel de Almeida Santos, mais de vinte anos antes do Caderno de Memórias Coloniais (Angelus Novus). Também o vejo no Garden Party de Katherine Mansfield (Relógio d’Água, 1985) e na edição brasileira de A Morte do Leão – Histórias de Artistas e Escritores (Companhia das Letras, 1993), um volume com cinco contos de Henry James e um título de mau augúrio para o Sporting Clube de Portugal, que naquela mesmíssima noite jogava em Manchester, contra o poderoso City, a passagem à eliminatória seguinte da Liga Europa.
À saída, ao pagar os livros, reparei num folheto em que dezenas de livreiros prestam homenagem a Jorge Figueira de Sousa, neto do fundador da Esperança e actual gestor deste espaço único. Aos 80 anos, ele continua a defender com unhas e dentes um modelo de livraria que a mera lógica comercial sugere ter os dias contados. O fecho recente da Livraria Portugal, no Chiado, paira ainda na memória como uma ameaça. Resta-nos então esperar que a Esperança se aguente, que a Esperança seja mesmo a última a morrer; ou melhor, que não morra de todo. Na verdade, os maus augúrios nem sempre se cumprem: umas horas após a visita à labiríntica Esperança, contra todas as expectativas (menos as minhas), o Sporting sobreviveu a uma equipa multimilionária e encontrou-se com a glória em Manchester.

[Texto publicado no n.º 112 da revista Ler]



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