Maravilhas da paternidade

O vídeo do miúdo de três anos a dizer um poema – e a dizê-lo muito bem, sem aquele ar de papagaio ensinado (ou atracção circense) tão típico da maior parte das proezas infantis documentadas no YouTube – lembrou-me um episódio que ando há muito tempo para contar nesta rubrica em que dou largas à minha faceta de pai babadíssimo.
Quando a Alice tinha três anos (quase a fazer quatro), viu-me certo dia a rabiscar furiosamente um moleskine e perguntou logo: «O que é que estás a fazer, papá?» Expliquei-lhe que era um poema e ela ficou ao meu lado, silenciosa, a ver os traços deixados pela tinta negra da Bic. Na manhã seguinte, apanhei-a deitada no chão do quarto, a rabiscar furiosamente um caderno. A página estava cheia de gatafunhos ilegíveis, mas muito bem ordenados, linha a linha. Pormenor importante: as linhas não chegavam ao fim da página. Foi a minha vez de perguntar: «O que é que estás a fazer, Alice?» E ela, como já terão adivinhado, respondeu: «poemas».
Só isto já merecia ser contado, mas a história não acaba assim. Quando peguei no caderno, apercebi-me de que o primeiro poema tinha apenas duas linhas. E fiz a pergunta óbvia: «Podes dizer-me, Alice, o que está escrito aqui?» Então ela aproximou-se e leu, muito desembaraçada, apontando o seu pequeno dedo aos gatafunhos: «O mar anda / e a água canta».
Eu nem queria acreditar no que tinha ouvido. Pedi-lhe que repetisse. O dedinho lá seguiu o primeiro verso, «O mar anda», e depois o segundo, «e a água canta». O espanto, o espanto, o espanto. Fiquei a repetir os dois versos, a apreciar a sua música, a sua ressonância helénica (um vislumbre de Ulisses e as sereias), perplexo com isto de uma criança de três anos ser capaz de criar assim, out of the blue, um dístico que, perdoem-me o exagero, pede meças a muita coisa que se vê para aí publicada.
Agora, se um dia a Alice se tornar poeta e lhe perguntarem quando é que começou a escrever poemas, ela pode responder com a data exacta: 3 de Janeiro de 2009. E acrescentar os dois versos:

O mar anda
e a água canta

O entusiasmo foi tal que a Alice, à noite, teve dificuldade em adormecer. «Estou a pensar nos meus poemas», dizia ela, com os olhos a piscarem de sono. Disse-lhe que dormisse, que sonhasse com palavras e que na manhã seguinte escrevesse mais versos no caderno. E assim aconteceu.
Os dois poemas seguintes, escritos a 4 de Janeiro de 2009, já correspondem mais ao imaginário que se espera de uma criança de três anos. Eis o primeiro:

O vento sopra
as nuvens flutoam [sic]
o sol não brilha
a praia fica lisa.
– Está a chover,
dizem as pessoas.
– É o Outono,
diz o pai.

E agora o terceiro (e último):

A chuva cai.
– Ai, ai,
dizem as girafas.
Pingas, pingas
caem em cima
das girafas.

Depois, como quem deixa um brinquedo de lado, a Alice não escreveu mais poemas. Virou-se para outras coisas, outras actividades. E eu não a incentivei, nem lhe pedi mais versos. O primeiro contacto directo com a poesia foi tão belo e espontâneo que não merecia prolongamentos forçados. O reencontro acontecerá quando tiver de acontecer. E nessa altura ela saberá que o pai não se esqueceu dos seus primeiros poemas, escritos quando ela ainda nem sequer sabia escrever.



Comentários

11 Responses to “Maravilhas da paternidade”

  1. Pedro Pedroso on Agosto 19th, 2010 18:16

    Boa tarde,
    tenho andado atravessado consigo desde que escreveu certas coisas aqui no blog mas senti-me obrigado a comentar este post. Ofereceu-nos um pedacinho maravilhoso da sua paternidade. Senti uma ponta de inveja por ser o José o pai da Alice e dou-lhe os parabéns por educar desta forma a sua filha.
    Cumprimentos.
    Pedro Pedroso

  2. isabel ribeiro on Agosto 19th, 2010 18:16

    que lindo! Eu pintava uma parede da casa com esses poemas. mais nada.

    Bem, por aqui a poesia é pouca. A minha filha com essa idade foi surpreendida, numa brincadeira deliciosa. De marcador verde, bem verde, gatafunhava os livros de Eça, que me são tão queridos. Perante a minha pergunta óbvia, respondeu: – Estou a dar “autógafos”. A mãe sempre os pediu!!!

  3. Uma Senhora de Idade Que Passou Por Aqui on Agosto 19th, 2010 18:25

    Uma bela história de infância para a Alice (e os pais) lembrarem para toda a vida :)
    De apreciar também o discreto respeito pelo ritmo da Alice: a não-insistência na continuidade da “produção poética” – a meu ver, tão importante na vida da menina como a atenção demonstrada pelos primeiros poemas.

  4. csd on Agosto 19th, 2010 18:42

    na história da humanidade, a poesia, a música e o canto surgem antes da invenção da escrita…

    csd

  5. João Delicado on Agosto 19th, 2010 21:31

    Tão tão bonito.
    Tão tão simples.
    Obrigado!

  6. Eduardo F. on Agosto 19th, 2010 22:05

    “Somos todos pais da Alice”.

    Obrigado, Alice.

  7. Teresa on Agosto 19th, 2010 23:45

    Lindo! muito lindo!

  8. dora on Agosto 20th, 2010 0:46

    ♥ !

  9. João André on Agosto 20th, 2010 7:13

    Zé Mário, a história em si é um poema. Merece realmente ser sempre lembrada. Essas são, de facto, maravilhas da paternidade.

  10. leal maria on Agosto 20th, 2010 20:00

    Um ínfimo resquício dessa ternurenta inocência é o que peço, quando a Alice regressar à poesia.

  11. Jonas on Agosto 21st, 2010 1:01

    Out of the “bluetiful”.
    Muito e bem.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges