O fim das Quasi

Acabei de saber, pelo Twitter do Carlos Vaz Marques, que as Quasi Edições declararam falência. Lamento muito. Com altos e baixos, o projecto de Jorge Reis-Sá (e de valter hugo mãe, na fase inicial) foi importantíssimo na revelação de novos poetas. Pode dizer-se que o catálogo é desequilibrado, e é, mas no meio de livros fraquinhos encontrámos sempre boas surpresas (Rui Cóias, Tiago Araújo, Paulo Tavares, António Gregório) e algumas revelações fundamentais (casos de Ana Paula Inácio, Rui Lage e, já este ano, Nuno Rocha Morais), além de uma excelente escolha de poesia brasileira (Murilo Mendes, Manoel de Barros, Carlos Nejar, Eucanaã Ferraz, etc.).
Também por ter diversificado a sua actividade, entrando no nicho das publicações para jornais e abrindo uma loja ambiciosa em Famalicão, as Quasi pareciam o exemplo perfeito de pequena editora capaz de se aguentar num mercado difícil. Pelos vistos, não era bem assim. Ou então a crise veio na pior altura e certos investimentos tornaram-se demasiado pesados. Não sei. Só sei que é pena que um projecto destes desapareça. E é um sinal preocupante do que pode vir a acontecer ao meio editorial português, cada vez mais confinado a uma lógica de grandes concentrações empresariais e cada vez com menos espaço para projectos alternativos.



Comentários

19 Responses to “O fim das Quasi”

  1. RF on Outubro 19th, 2009 22:48

    Pois, a “loja ambiciosa” (que mais parecia a versão techno de um salão SM)… Acho que a Quasi parecia mais preocupada em ter fotos da loja na “Cláudia” do que em pô-la a vender… livros. A crise chegou mas foi à Câmara de Famalicão, que lhes comprava grande parte do stock, porque de resto, como justificar a falência de uma editora que até vanity press tinha (e que cobrava bem alto aos tans… aos “autores”)? Muito luxo em casa de dinheiro emprestado dá nisto. Amen.

  2. Gerana Damulakis on Outubro 20th, 2009 0:19

    José Mário: tem Bolaño e a melancolia no Leitora.

  3. ideias on Outubro 20th, 2009 1:21

    Top das deias mais estafúrdias no mundo da edição portuguesa dos últimmos 3 anos:

    1. Byblos
    2. Uma livraria arrojada de editora em plena… Famalicão.

    É preciso dizer mais?

  4. Paulo Alves on Outubro 20th, 2009 4:11

    não diria chocado mas muito admirado. fixei-me na frase do RF até melhor justificação: “Muito luxo em casa de dinheiro emprestado dá nisto”.

  5. Carlos Teixeira Luis on Outubro 20th, 2009 10:43

    Eu faço parte dos autores fraquinhos editado pelo Atelier de Produção Editorial, chancela da Quasi. Fui muito bem tratado, não posso dizer outra coisa. E gostava dos livros da Quasi, fez-me ler Daniel Faria, Sebastião Alba, etc. Tenho pena que seja assim. Fica na “história” o que se fez, que não foi tão mau assim. Dêem-lhes um enterro digno, pelo menos. Um abraço a todos.

  6. R.Joanna on Outubro 20th, 2009 11:44

    É verdadeiramente uma pena.

    Como escreveu Yourcenar, “Dias há em que (…) digo para comigo que é demasiado tarde, e que o homem e o mundo já foram.”

  7. salamandrine on Outubro 20th, 2009 13:16

    tanta farpa pronta é mesmo coisa de gente pequenina.
    as Quasi tinham e têm uma grande importância na edição de poesia “nova” em Portugal.
    nem que fosse só por isso merecem respeito. e ficamos com certeza mais pobres sem eles.

  8. Roberto on Outubro 20th, 2009 16:50

    a Quasi caiu muito depois da saída do valter hugo mãe, deixando de se fazer as coisas por gosto, e apenas com um intuito comercial.
    Poesia portuguesa nova foi coisa que acabou e o jorge reis-sá só lançava aqueles autores que lhe davam um retorno certo, como o Rui Lage (por ser presidente da Fundaçao Eugenio de Andrade), Franscisco José Viegas (por ser figura pública e da tv), José Luís Peixoto (aproveitando a embalagem dos romances), e pouco mais.

    Por outro lado, houve mt investimento (avultadas quantias) em produtos de rentabilidade certa, que afinal nao eram assim tão certos… e esta loja de Famalicão nunca fez sentido nenhum…

    Jorge Reis-Sá precisou de valter hugo mãe, poeta que lhe escreveu premonitoriamente um poema chamado “o funeral de jorge reis-sá”.
    Sinto pena pela editora, mas mais pena pelo seu início brilhante e que era rentável, apostando em jovens de muito valor….

    é caso para dizer:

    quem tudo quer…

  9. Luís Fonseca on Outubro 20th, 2009 19:04

    Agora vamos todos chorar. Todos choramos, na morte, apesar de em vida quase nada termos feito pelo defunto.

    E se tivéssemos feito uma campanha de marketing pelo Nuno Rocha Morais? Se calhar, até nos tinha dado mais gozo, porque não era uma campanha importada.

  10. Jonas on Outubro 20th, 2009 19:39

    Sobre a editora: lamento, espero que alguém absorva o melhor das Quasi e lhe dê continuidade. Sobre a loja: o chão metálico e ruidoso não era o mais cómodo para o ouvido, mas passado algum tempo a abstracção abreviava o incómodo. Deixei alguns livros de poesia ligeiramente salientes para uma visita seguinte, mas este é o tempo em que as incertezas são mais regulares do que as certezas. Entre outros, consegui um exemplar de Nuvens & Labirintos, pacientemente acomodado sob A Tarde de Um Fauno, à espera da minha oportunidade.

  11. Quasi falência « Livros [s]em Critério on Outubro 20th, 2009 20:07

    […] Uma das piores notícias dos últimos dias: as Quasi estão em processo de falência. Como disse o José Mário Silva, tinham uma excelente colecção de poesia brasileira (ele esqueceu-se, espero eu, de falar da Ana […]

  12. Pedro Marta on Outubro 20th, 2009 23:06

    a proxima é a cosmorama. por falta de dinheiro não entregaram o prémio guilherme de faria este ano.

  13. jorge melícias on Outubro 21st, 2009 9:05

    sr. Marta

    Imagino que tenha sido um dos concorrentes ao Prémio Guilherme de Faria. Lamento, mas a Cosmorama não entrega nada, edita, quando a qualidade assim o justifica, o original vencedor. Tente daqui a dois anos ou não tente.

  14. Mário Azevedo on Outubro 21st, 2009 22:37

    Trabalhei nas Quasi mais de seis anos e saí de lá em Fevereiro. Era um projecto maravilhoso que com muita tristeza minha acabou. Mas eu só vim aqui para dizer uma coisa. É absolutamente falso o que RF disse. A C.M. de Famalicão não comprava absolutamente nada às Quasi. Havia até, nos últimos anos, uma relação de conflitualidade entre a câmara e as Quasi. A Câmara apenas apoiou a editora nos primeiros anos, ainda antes de eu ir para lá trabalhar. Façam lá as contas e vejam há quantos anos isso vai. Irrita-me a forma como as pessoas gostam de espalhar veneno através de boatos falsos.

  15. Joana Serrado on Outubro 27th, 2009 1:47

    Graças `a Quasi e ao Prémio Daniel Faria (aliás, mais `a Quasi, porque apenas ganhei a Menção honrosa) publiquei o meu primeiro livro, Tratado de Botânica. (Recordo os dois versos que o JRS me “tirou” e o carinho e dedicação da difícil paginação que o Mário dedicou ao meu livro).
    Este livro esteve distribuido em todo o sítio, e recebi mails de leitoras do Faro a Braga. A aposta que a Quasi fez, em especial, na pessoa de Jorge Reis Sá, fez com que a minha Botânica esteja a ser traduzida para neerlandês, e fez com que na Holanda me atribuissem o meu segundo prémio (monetário e publicação) : um livro com poemas em português e neerlandês. E o júri disse: o factor decisivo foi o livro, e a chancela da Quasi. Desse livro nasceu uma instalação poético-filosófica. E uma fundação luso-neerlandes, que subsidiou em parte o evento. E mais uma vez, no projecto, o papel da botânica e da Quasi.

    Tudo porque a Quasi tinha uma politíca de investimento e arrojo. A casa da Quasi é produto desse arrojo.

    Estou de luto, como muitos jovens autores estão. Não é só uma editora que desaparece, é a minha obra.

  16. cristy* on Outubro 27th, 2009 12:04

    E os livros, que vão fazer aos livros? Tenho algumas obras de poesia editados pela Quasi, mas há outros títulos que gostava de adquirir. Pena que a editora tenha fechado! É um vazio que fica!

  17. Bruno Antunes on Outubro 30th, 2009 10:50

    Pois sim, tal como o Mário também trabalhei nas Quasi, foi apenas um ano é certo, mas um ano que enriqueceu o meu saber. Para aqueles que não sabem do que estão a falar, é preferivel manterem-se no seu silêncio do que passarem pela figura de ignorante. Enfim…

  18. Domingos da Mota on Novembro 5th, 2009 22:50

    Como lamento a falência da Quasi, uma porta aberta para novos (e velhos) poetas.

  19. Carlos on Novembro 15th, 2009 12:41

    I loved Quasi because of the fact that they had “guts”. They dared to dream, they had wild ambitions. They gave big opportunities to young poets and, in my humble opinion, created a new foundation for the interest (of the public) in Portuguese poetry.

    But there are of course important questions that need to be asked. The most simple question is of course:
    1) Why did they go down? I read somewhere that it was because of their shop in Famalicao. On another site it was because of the economic crisis. But could the reason that they stopped not be a bit more sophisticated? (I’m talking about the real facts that have led to bankruptcy)
    2) If we look at the people in charge – and the obvious changes through the years – what did they do well and what did go wrong? I’m talking here about the vision of a company. About maybe someway, somehow “losing” the mission they had. Did they continue focussing on the core business? (Or did they get overambitious?)

    And we can of course come up with many more questions. These questions are not to search for a soul that we can blame – that’s so easy – but the answers to these questions are interesting because they could prevent new people making the same mistakes. To me it seemed that Portuguese poetry was again “hot”.

    By the way, this is a great website. Keep up the good work.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges