Obra de José Saramago vai ser publicada pela Porto Editora

saramago

Foi hoje anunciado que a obra literária de José Saramago passará a fazer parte do catálogo da Porto Editora. No comunicado emitido pelas herdeiras do escritor, Pilar del Río e Violante Saramago Matos, pode ler-se:

«As herdeiras de José Saramago escolheram a Porto Editora para editar e distribuir a obra literária de José Saramago em Portugal e nos demais países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (à exceção do Brasil).
Ao mesmo tempo, a Fundação José Saramago e a Porto Editora vão definir estratégias conjuntas de divulgação da obra do escritor em todo o mundo, com especial atenção à comunidade lusófona.
Para além do facto de a Porto Editora ser uma empresa totalmente portuguesa que se dedica ao livro desde a sua fundação, pesaram nesta escolha duas razões de particular significado afetivo: a de o Prémio Literário José Saramago, que desde 1999 distingue jovens escritores de língua portuguesa, ser promovido pela Fundação Círculo de Leitores (que integra o Grupo Porto Editora desde 2010); e o impulso que o Círculo de Leitores deu à carreira literária de José Saramago com a edição do livro Viagem a Portugal (1981), que veio a permitir que se dedicasse a tempo inteiro à escrita.»

Embora se saiba que outras editoras manifestaram interesse, esta solução é tudo menos surpreendente. Depois da passagem de Mário de Carvalho e do espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen para o grupo Porto Editora, completa-se a sangria dos principais autores da Caminho, ao mesmo tempo que o catálogo literário da PE ganha uma amplitude, densidade e peso institucional que ainda não tinha, apesar do grande crescimento dos últimos anos. Por outro lado, dificilmente outro grupo editorial apresentaria uma estrutura capaz de oferecer as condições de «divulgação da obra do escritor em todo o mundo, com especial atenção à comunidade lusófona» que as herdeiras legitimamente reclamam. A Porto Editora fez o que tinha a fazer: viu a oportunidade de ouro de ganhar um autor gigante (o único Nobel da língua portuguesa) e soube aproveitá-la.
Neste momento, porém, o meu pensamento vai para quem ajudou Saramago a ser Saramago, durante 35 anos de uma frutuosa relação de trabalho que foi sempre muito mais do que uma relação de trabalho. O meu pensamento vai para Zeferino Coelho, editor excelentíssimo que imagino a perguntar-se muitas vezes se a integração da Caminho no grupo LeYa foi o caminho certo ou um erro clamoroso. Não sei o que acharia Saramago de se ver assim transferido, mas sei que nunca se arrependeu de dar a ler os seus livros e de discuti-los desde a primeira hora com Zeferino Coelho, que tratou deles como um pai trata dos filhos.



Comentários

Comments are closed.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges