António Manuel Couto Viana (1923-2010)

Politicamente, não podia estar mais distante deste escritor. Nunca consegui, aliás, ler os seus textos de pendor mais direitista e patrioteiro. Mas, para lá do António Manuel Couto Viana com cheiro a mofo, havia um poeta e ficcionista que me surpreendeu várias vezes com a sua verve, o seu arrojo, a sua ironia. É esse artista desconcertante e difícil de arrumar no cenário da literatura portuguesa que recordo no momento da sua morte.
Sendo hoje o Dia de Camões, resgato um soneto que Couto Viana escreveu sobre o autor de Os Lusíadas:

CAMÕES

Em que ano subi esta colina,
Repousei nesta gruta e respirei
Brandas auras? Da pátria e do meu rei,
Aqui, sublime, sublimei a sina?

Que fama do meu vulto peregrina
Na voz destas paragens, e da lei
Da morte me liberta? Onde enlacei
A amizade do jau e o amor de Dina?

Deixei sinais na areia, no arvoredo?
Quem me ocultou de mim como um segredo?
– Até o longínquo China navegou…

Aqui cheguei? Daqui parti? E quando?
Quem salvou do naufrágio miserando
Aquele que não sei se fui, mas sou?



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges