João Aguiar (1943-2010)

Morreu hoje, vítima de cancro, o escritor João Aguiar. Revelado em 1984, com o romance histórico A Voz dos Deuses, nunca deixou de ter os favores do público (mais do que os favores da crítica). Cruzei-me com ele algumas vezes. Recordo a sua bonomia, uma certa delicadeza galante, os ditos de espírito por entre o fumo do cachimbo.
Há uns 20 anos, a tertúlia de quase imberbes colaboradores do DN Jovem a que eu pertencia costumava gozar com uma frase que Aguiar dissera, creio que numa entrevista: «O objectivo do escritor de ficção é imitar a fogueira à volta da qual os nossos antepassados se reuniam, para ouvir histórias» (cito de memória). Para nós, aquela era uma visão redutora da literatura. A ficção serve para muito mais do que apenas contar histórias perfeitinhas, com princípio, meio e fim.
Entretanto, deixámos de ser imberbes e alguns de nós ainda hoje gozariam com a frase (outros talvez não). A fogueira de Aguiar, essa, apagou-se. E ele já nem teve tempo de concluir um livro que andava a escrever sobre a crise de 1383-1385.



Comentários

6 Responses to “João Aguiar (1943-2010)”

  1. Venâncio on Junho 3rd, 2010 12:18

    Que estejas tranquilo, João.

    Um obrigado eterno pelos teus livros.

    Fernando

  2. MiC on Junho 3rd, 2010 18:44

    Há escritores que a crítica os leva às costas literalmente e cuja qualidade é de toda duvidosa… No João Aguiar era um anónimo para quase todos, mas sem dúvida um dos melhores escritores portugueses do século XXI. Que se aproveite este momento para o valorizar…

  3. fallorca on Junho 3rd, 2010 21:44

    Tem sido uma semana demolidora, rais parta isto!

  4. csd on Junho 4th, 2010 9:14

    Fiquei triste com a notícia.

    Gostava bastante da sua escrita simples mas cativante, aquada para agarrar os leitores principiantes. Foi a sensação que tive ao ler “Uma desa na bruma”, em 2003. Umlivro cujo comentário repostarei no blog, a título de homenagem.

    csd

  5. Carlos Vale Ferra on Junho 4th, 2010 19:32

    Só uma pequena discordância com a critica da então imberbe tertúlia do DN Jovem sobre a relação estabelecida pelo João Aguiar e as histórias à volta da fogueira: tudo o que se conta e narra à volta de uma fogueira pode ser transformado em literatura. A inversa também é verdadeira: tudo o que possamos considerar literatura pode servir para convivermos e comunicarmos à volta fogueira. Isto independentemente da ficção ter princípio meio e fim (o que é uma invitabilidade para todas as existências, não necessariamente uma condição de perfeição)
    Um abraço.
    Carlos Vale Ferraz

  6. Luís Graça on Junho 8th, 2010 21:45

    Esta noite está a ser complicada. Só agora soube da morte do João Aguiar. Há poucas horas soube da morte do António Manuel Couto Viana.

    Com eles partilhei muitos bons momentos.

    Era particularmente agradável fazer companhia ao João Aguiar nas sessões de autógrafos da Feira do Livro. Para observar a delicadeza e o respeito que ele dedicava a todos.

    O António Manuel Couto Viana (que me chamava ternamente ‘Bocaginho’) foi um dos fundadores da Tertúlia Rio de Prata. Nessa e na Tertúlia de Banda Desenhada de Lisboa partilhei muitas horas de convívio e de aprendizagem.

    Não há maneira de me habituar às partidas.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges