Joaquim Benite (1943-2012)

Estou demasiado triste para escrever sobre a morte deste homem extraordinário que fez uma coisa extraordinária: inventou um público para o teatro onde o teatro é mais necessário. Isto é, do outro lado do rio, na outra margem, na periferia da grande cidade e dos poderes instituídos. Ele fez outras coisas magníficas, mas só esta chega e sobra para dar a medida da sua importância na cultura portuguesa das últimas décadas. Lembro a voz do Joaquim, grave (de nicotina e vida vivida até ao tutano), lembro o desassombro com que falava das peças, dos actores, do mundo à sua volta. Há quase uma década, escrevi: «É um homem tenaz, obstinado, teimoso, um homem que insiste em tornar real a matéria dos sonhos (…) e ama o teatro da única forma possível: com a inteligência e a sensibilidade, mas também com o sangue, com as vísceras». Foi sempre isso, o Joaquim. As coisas continuarão, porque tudo continua sempre. A Companhia de Teatro de Almada. O Festival. A alegria milagrosa do teatro. Mas vamos sentir tanto a tua falta.



Comentários

2 Responses to “Joaquim Benite (1943-2012)”

  1. Virgílio on Dezembro 6th, 2012 9:44

    Saudações, viu o mail que lhe enviei no dia 16 Nov?
    Cumprimentos,
    V.

  2. M on Dezembro 8th, 2012 15:52

    Que tristeza tão grande. Nâo, não, as coisas , tudo não continuará. Porque cada vez que morre um ser especialíssimo a vida morre. Morre-nos a todos. Vamos morrendo aos bocados. E quando a vida morre, não vale a pena pensar que tudo continuará, porque tudo vai morrendo em cada ser que parte e nos parte. E que aquilo que continuará e surgirá com muito sangue – mas nunca o sangue de quem partiu – é apenas um sucedâneo, um sucedâneo para alimentar a iusão da continuidade. Um sucedâneo para nos dar forças para continuar, quando as forças são cada vez mais ausentes para continuar na ilusão de continuar.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges