Wisława Szymborska (1923-2012)

Prémio Nobel da Literatura em 1996, a poeta polaca Wisława Szymborska morreu ontem, em Cracóvia, de cancro. Como lembra o obituário do The Guardian, o comité da Academia Sueca chamou-lhe o «Mozart da poesia», mas com «alguma coisa da fúria de Beethoven». No discurso de aceitação do Nobel, disse: «Na linguagem da poesia, em que cada palavra é pesada, nada é usual ou normal. Nem a simples pedra, ou a simples nuvem que paira por cima dela. Nem o simples dia ou a noite que vem depois. E sobretudo, nem a simples existência, nem a existência de seja quem for neste mundo.»
A sua poesia era directa, olhava de frente para as coisas, para os gestos quotidianos, para a beleza escondida nas brechas da realidade – nunca esquecendo que a poesia é um «corrimão providencial» a que se agarram muito poucos (uma resoluta minoria), mas que ainda assim vale a pena desenhá-lo no ar, a esse corrimão, com palavras.

ALGUNS GOSTAM DE POESIA

Alguns —
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve,
e os próprios poetas
serão talvez dois em mil.

Gostam —
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia —
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

(Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves para a antologia Alguns gostam de poesia, com poemas de Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, edição Cavalo de Ferro, 2004)



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges