Pré-publicação: ‘Enciclopédia da Estória Universal’

Chega amanhã às livrarias o novo livro de Afonso Cruz, artista mais do que versátil e capaz de jogar simultaneamente em vários tabuleiros (literatura, música, ilustração). A sua Enciclopédia da Estória Universal, editada pela Quetzal, é uma obra difícil de classificar, um engenhoso e divertidíssimo exercício borgesiano, ao mesmo tempo erudito e lúdico. Deixo-vos aqui seis das muitas dezenas de “entradas”:

ESTE LADO DO ESPELHO
– Levo uma vida normal, Sr. Dr., ando nua pelas ruas, voo de prédio em prédio, as pessoas à minha frente mudam de cara constantemente, mas à noite, Sr. Dr., à noite sonho que me levanto às oito da manhã, saio de casa e vou trabalhar durante oito horas. Tenho uma hora de almoço, como à pressa (por vezes em pé), saio às seis e vou para casa de carro, sempre em filas, vejo televisão e, depois, acordo com suores frios. É horrível, Sr. Dr., isto acontece-me todos os dias, há anos, dum modo absurdamente repetitivo, e isto não vai lá com comprimidos.
– Isso é uma situação normalíssima, minha cara senhora, normalíssima. Nem imagina a quantidade de pessoas que têm esse sonho. Aliás, poderemos mesmo afirmar que esse é o único sonho normal. A senhora vir até aqui queixar-se de coisa tão banal, só prova que está de saúde. No outro dia – nem lhe devia estar a dizer isto – apareceu-me aqui um maluquinho, um caso perdido, que sonhava que trabalhava por conta própria, ficava em casa a maior parte dos dias e viajava muito com subsídios ou lá o que era aquilo. Quando ele me disse isto, transformei-me logo numa porta de mogno e mandei-o sair.
(Agnese Guzman, A Borboleta Taoísta)

INFINITOS
Nicolau de Cusa disse que uma circunferência infinita é uma recta; Dovev Rosenkrantz disse que um homem infinito é aquele que não tem parte de fora; Miroslav Bursa disse que uma casa infinita é uma igreja; Teodoro de Reims dizia que uma bebedeira infinita não dá ressaca; Deus determinou que a justiça eterna é o tempo que os tribunais terrestres levam a despachar os processos; e Malgorzata Zajac disse que uma língua infinita é da porteira do meu prédio.

(DO) LABIRINTO DA VIDA
– Tudo o que é vivo tem um ligeiro cheiro a morto – exclamou Marija de Breslov, parteira de Wilhelm Möller, enquanto lhe cortava o cordão umbilical. Admoestada pelo pai da criança sobre a rudeza da frase, respondeu: – Quando nasce uma criança, Sr. coronel, abre-se uma cova. O cordão umbilical é o que nos liga à origem e não nos deixa perder num labirinto, liga-nos à matriz. É o fio de Ariadne que nos cortam para sermos abandonados à mercê do monstro de Minos, à vida labiríntica. Esse cordão, o umbilical, vai para o lixo e é substituído por outro que começa nas minhas mãos de parteira e termina nas do meu marido. Ele é coveiro.

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Ilustração para a capa de ‘Enciclopédia da Estória Universal’

NEOLIBERALISMO E A MODA
«O grande defeito da direita é esse neoliberalismo animal, que considero uma forma de estar aberrante. O grande defeito da esquerda é essa mania de usar casaco com cotoveleiras.»
(Samuel Lieber, Imagiologia do Estadista)

NOTA PASTORAL
«Uma nuvem é uma maneira mais volátil de dizer rio. Os Abokowo, da bacia amazónica, chamam às nuvens rios-pássaros e dizem que cada rio tem seis margens: a esquerda, a direita, a nascente, a foz, o leito e o céu. Já os Ubitatã, do Sudoeste africano, crêem, muito justamente, que as árvores bebem o mar. Chupam-no de longe e transformam cada golo em nuvem que pastoreiam como se apascentam ovelhas e depois fazem-nas chover conforme a sua sede. Por isso é que não há nuvens no deserto. Nenhuma árvore com bom senso mandaria para lá os seus rebanhos de água.»
(Eugène Faucher, As Margens dos Céus)

PESSIMISMO
Há principalmente duas coisas que se perdem com a idade: a visão e o optimismo. Mas para a primeira existem óculos.
(Malgorzata Zajac, Fragmentos do Espanto)



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges