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Pré-publicação: ‘O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua’

«24.
É possível que alguns leitores se interroguem sobre o que é, ao fim e ao cabo, este livro, e qual a sua relação, se alguma existe, com a literatura. Para dizer a verdade, não sei. Mas o miúdo que pregava pregos numa tábua, ou talvez o autor, quem sabe se eu próprio, já uma vez escreveu que, para ele, a poesia está aquém e além da literatura. E até confessou que de literatura pouco ou nada sabe. Mas sabe de um rio e de uma ria ou, se preferirem, sabe dos rios e dos mares e da influência da lua nas correntes e nas marés e, ao que parece, no fluxo do sangue, sabe do voo e do grito da narceja, que é um alerta e, ao mesmo tempo, um viva à liberdade. E sabe da respiração da terra, que essa, sim, tem a ver com o ritmo e a respiração da escrita. Num certo sentido já fez essa respiração boca a boca quando, na Nicarágua, acompanhado pelo poeta Fernando Silva, que se dizia descendente de portugueses, se sentou no rebordo da cratera do vulcão Santiago e sentiu o bafo que ritmadamente saía das entranhas da terra.
– Parece um boi a respirar – disse o poeta nicaraguense.
O miúdo que tocava música nos dentes achou que o vulcão respirava a um ritmo que era o da sua própria respiração. Dentro da cratera, no meio do fumo, das chamas e das cinzas, voavam centenas de pássaros que ali faziam ninho. A terra respirava pela boca do vulcão Santiago e o miúdo que dedilhava guitarras invisíveis sentiu que estava ali a respirar boca a boca com a própria terra e que assim era o fluxo do seu sangue e só assim poderia ser a cadência das palavras.
A mesma cadência e a mesma respiração que descobriu quando, num daqueles quartos antigos de Coimbra que, em certas noites, parecem directamente poisados sobre a lua, um poeta, ainda jovem, leu, com o seu sotaque da ilha, o poema de Camilo Pessanha “Ao longe os barcos de flores”.
Só, incessante, um som de flauta chora – lia ele como se cada uma daquelas sílabas batesse ao ritmo do seu próprio coração. Era, de certo modo, uma outra forma de respiração da terra e dos rios e dos mares. Então o miúdo percebeu que podia dedilhar nos seus dentes o ritmo com que o poeta lia e que era o da música que estava dentro dos versos de Camilo Pessanha. Uma flauta cantava na voz do poeta da ilha, a flauta de Camilo Pessanha, uma flauta que trazia no bater das sílabas a batida do coração do mundo.
Mais tarde, já no quarto do miúdo que gostava de contar as sílabas pelos dedos, o poeta com ligeiro sotaque da ilha escrevia pela noite fora uns contos que andava então a terminar. O miúdo ouvia o roçagar da caneta no papel e pressentia que naquela grafia havia uma flauta a cantar dentro das sílabas. Era uma liturgia quase mágica, uma escrita nova e dentro dela um mundo novo que nascia. Algo que só muito mais tarde sentiria, mas em sentido inverso, como se um mundo se estivesse a extinguir, quando, pela última vez, visitou Sophia no quarto do hospital. Estava recostada numas almofadas muito brancas, ela própria também de branco, estranhamente esplendorosa e bonita, a princípio abriu muito os olhos, parecia que nos reconhecia e não reconhecia, uma das filhas disse-me: Fala-lhe. Eu falei e então ela murmurou o meu nome e o de minha mulher. Sentei-me ao pé dela e comecei a dizer-lhe um dos seus poemas: Ia e vinha / E a cada coisa perguntava, e então ela terminou: Que nome tinha. Fui dizendo poemas de que me lembrava, dela própria, de outros poetas, sobretudo de Camões, que ela pediu, ela ia repetindo comigo, até que, a certa altura, já não dizia as palavras, só a batida das sílabas, poesia em estado puro, só o ritmo, só a cadência, só a respiração do poema na sua própria respiração.

[O novo livro de Manuel Alegre, editado pela Dom Quixote, chega às livrarias na próxima sexta-feira]



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