Pré-publicação: ‘O Terceiro Reich’ (Roberto Bolaño)

«Tomámos o pequeno-almoço no Bar La Sirena. Ingeborg comeu um english breakfast que consistia numa chávena de chá com leite, um prato com um ovo estrelado, duas fatias de bacon, uma dose de feijão-verde e um tomate grelhado, tudo por 350 pesetas, bastante mais barato do que no hotel. Na parede, por detrás do balcão, há uma sereia de madeira com o cabelo ruivo e a pele dourada. No tecto ainda estão penduradas umas velhas redes de pescar. Quanto ao resto, é tudo diferente. O empregado de mesa e a mulher que atende ao balcão são jovens. Há dez anos trabalhavam aqui um velho e uma velha, morenos e enrugados, que costumavam conversar com os meus pais. Não me atrevi a perguntar por eles. Para quê? Os de agora falam catalão.
Encontrámos Charly e Hanna no sítio combinado, perto das “gaivotas”. Estavam a dormir. Depois de estendermos as nossas esteiras junto deles, acordámo-los. Hanna abriu logo os olhos, mas Charly grunhiu qualquer coisa ininteligível e continuou a dormir. Hanna explicou que ele tinha passado muito mal a noite. Quando Charly bebia, segundo Hanna, não conhecia limites e abusava da sua resistência física e da sua saúde. Contou-nos que às oito da manhã, quase sem ter dormido, saiu para fazer windsurf. Com efeito, a prancha estava ali, ao pé das costas de Charly. Depois Hanna comparou o seu creme bronzeador com o de Ingeborg e ao fim de um bocado, ambas estendidas de costas para o Sol, mudaram a conversa para um tipo de Oberhausen, um administrativo que, segundo parecia, tinha intenções sérias relativamente a Hanna, embora esta só “o apreciasse como amigo”. Desinteressei-me do que diziam e dediquei os minutos seguintes a observar as “gaivotas”, que tanta inquietação me haviam causado na noite anterior.
Não eram muitas as que se encontravam na praia; na sua maioria já estavam alugadas e deslizavam lentas e vacilantes por um mar calmo e de um azul intenso. É claro que nas “gaivotas” que ainda não tinham sido alugadas não se notava nada de inquietante; velhas, de um modelo superado até pelas “gaivotas” de outros postos, o sol parecia reverberar sobre as suas superfícies gretadas onde a tinta se descascava inexoravelmente. Uma corda, presa por uns quantos paus enterrados na areia, separava os banhistas da zona reservada às “gaivotas”; a corda erguia-se apenas a uns trinta centímetros do chão e nalguns sítios os paus tinham-se inclinado e estavam prestes a tombar de vez. À beira-mar distingui o encarregado: ajudava um grupo de clientes a fazer-se ao mar, atento a que a “gaivota” não batesse na cabeça de algumas das inúmeras crianças que chapinhavam em volta; os clientes, seriam uns seis, todos em cima da “gaivota”, com sacos de plástico onde possivelmente levavam sandes e latas de cerveja, faziam gestos de despedida para a praia ou batiam palmas de regozijo. Depois de a “gaivota” ter atravessado a zona das crianças, o encarregado saiu da água e começou a avançar na nossa direcção.
– Coitadinho – ouvi Hanna dizer.
Perguntei a quem é que se referia; Ingeborg e Hanna fizeram sinal para observar disfarçadamente. O encarregado era moreno, tinha o cabelo comprido e uma aparência musculosa, mas o mais notável da sua pessoa, acima de tudo, eram as queimaduras – quero dizer, queimaduras de fogo, não de sol – que lhe cobriam a maior parte da cara, do pescoço e do peito, e que eram visíveis sem rebuço, escuras e rugosas, como carne grelhada ou chapas de um avião sinistrado.
Por instantes, devo admitir, senti-me como que hipnotizado, até que me apercebi de que ele também olhava para nós e que no seu gesto abundava a indiferença, uma espécie de frieza que imediatamente achei repulsiva.
A partir de então evitei olhar para ele.
Hanna disse que se suicidaria se ficasse assim, desfigurada pelo fogo. Hanna é uma rapariga bonita, tem os olhos azuis e o cabelo castanho-claro e os seus seios – nem Hanna nem Ingeborg usam a parte superior do biquíni – são grandes e bem-feitos, mas sem muito esforço imaginei-a queimada, a dar gritos e a andar de trás para a frente no seu quarto do hotel. (Porquê, precisamente, no quarto do hotel?)
– Talvez seja uma marca de nascença – disse Ingeborg.
– É possível, vêem-se coisas muito estranhas – concordou Hanna. – Charly conheceu em Itália uma mulher que nasceu sem mãos.
– A sério?
– Juro-te. Pergunta-lhe. Foram para a cama os dois.
Hanna e Ingeborg riram-se. Às vezes não compreendo como é que Ingeborg consegue achar graça a afirmações dessas.
– Talvez a mãe tenha tomado algum produto químico quando estava grávida.
Não soube se Ingeborg falava da mulher sem mãos ou do encarregado das “gaivotas”. De qualquer modo tentei corrigir o seu erro. Ninguém nasce assim, com a pele tão martirizada. Ora bem, não havia dúvida de que as queimaduras não eram recentes. Provavelmente datavam de há uns cinco anos, julgando mais até pela atitude do pobre tipo (eu não olhava para ele) acostumado a despertar a curiosidade e o interesse próprio dos monstros e dos mutilados, os olhares de repulsa involuntária, a piedade pela grande desgraça. Perder um braço ou uma perna é perder uma parte de si mesmo, mas sofrer tais queimaduras é transformar-se, converter-se noutro.
Quando Charly, por fim, acordou, Hanna disse que achava o encarregado atraente. Musculoso! Charly riu-se e fomos todos para a água.»

[Início do terceiro capítulo do romance póstumo de Bolaño (Quetzal), nas livrarias a partir de sexta-feira]



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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges