Trajectória de uma leitura

2666, lido passo a passo por Paulo Alves.

Sinopse de 2666

«– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo…»

[in Os Passos em Volta, de Herberto Helder, sexta edição, Assírio & Alvim, 1994]

Ontem à noite

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Francisco José Viegas deu as boas-vindas e fez os agradecimentos a todas as pessoas envolvidas na operação 2666

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António-Pedro Vasconcelos leu uma das histórias da «Parte dos Críticos»

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Carla Bolito leu três fragmentos da «Parte de Amalfitano»

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José Eduardo Agualusa leu um fragmento sobre a célula comunista de Brooklyn, extraído da «Parte de Fate»

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Eu falei, em traços gerais, da escrita de Bolaño e daqueles que me parecem ser os três temas centrais de 2666: a Literatura, a violência (ou o Mal) e a loucura

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Soraia Chaves leu, da «Parte dos Crimes», uma passagem que descreve, de forma particularmente gráfica, um dos homicídios cometidos em Santa Teresa

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Carlos Vaz Marques escolheu um excerto da «Parte de Archimboldi», prova provada de que Bolaño foi um dos romancistas que mais desassombradamente escreveu sobre sexo

[Fotografias de Manuel Deniz Silva; excepto a última, que é de João Pereira]

Quando se lê 2666, o tempo fica assim

Jazz

«Conduziu durante duas horas por estradas escuras com a rádio ligada, a ouvir uma emissora de Phoenix que transmitia jazz. Passou por lugares onde havia casas, restaurantes e jardins com flores brancas e carros mal estacionados, mas nos quais não se via luz nenhuma, como se os habitantes tivessem morrido nessa mesma noite e no ar ainda restasse um hálito de sangue. Distinguiu silhuetas de cerros recortadas pelo luar e silhuetas de nuvens baixas que não se moviam ou que, em determinado momento, corriam para oeste como que impelidas por um vento repentino, que levantava poeirada a que os faróis do carro, ou as sombras que os faróis produziam, emprestavam roupagens fabulosas, humanas, como se as poeiradas fossem mendigos ou fantasmas que saltavam junto ao caminho.
Perdeu-se duas vezes. Numa, esteve tentado a voltar para trás, para o restaurante ou para Tucson. Na outra, chegou a uma terra chamada Patagonia onde o rapaz que atendia na bomba de gasolina lhe indicou a maneira mais fácil de chegar a Santa Teresa. Quando saiu de Patagonia viu um cavalo. Quando os faróis do carro o iluminaram o cavalo levantou a cabeça e olhou para ele. Fate parou o carro e esperou. O cavalo era preto e ao fim de pouco tempo mexeu-se e perdeu-se na escuridão. Passou junto a uma meseta, ou pelo menos assim julgou. A meseta era enorme, totalmente plana na parte superior e de uma ponta à outra da base devia medir pelo menos cinco quilómetros. Junto à estrada apareceu um barranco. Saiu, deixou as luzes do carro acesas e urinou longamente respirando o ar fresco da noite. Depois o caminho desceu até uma espécie de vale que lhe pareceu, à primeira vista, gigantesco. Na ponta mais afastada do vale julgou discernir uma luminosidade. Mas podia ser qualquer coisa. Uma caravana de camiões a mover-se com grande lentidão, as primeiras luzes de uma localidade. Ou talvez só o seu desejo de sair daquela escuridão que de alguma maneira lhe fazia lembrar a sua infância e a sua adolescência. Pensou que houve uma altura, entre uma e outra, que chegou a sonhar com aquela paisagem, não tão escura, não tão desértica, mas certamente semelhante.
Ia num autocarro, com a mãe e uma irmã da mãe e faziam uma viagem curta, entre Nova Iorque e uma localidade próxima de Nova Iorque. Ia junto à janela e a paisagem invariavelmente era a mesma, edifícios e auto-estradas, até que de repente apareceu o campo. Nesse momento, ou talvez antes, tinha começado a entardecer e ele olhava para as árvores, um bosque pequeno, mas que aos seus olhos aumentava. E então julgou ver um homem a caminhar à beira do pequeno bosque. Com grandes passadas, como se não quisesse que a noite lhe caísse em cima. Perguntou a si mesmo quem seria aquele homem. Só soube que era um homem e não uma sombra, porque ele tinha uma camisa e mexia os braços ao caminhar. A solidão do homem era tão grande que Fate se lembrava que desejou não continuar a olhar e abraçar a sua mãe, mas em vez disso manteve os olhos abertos até o autocarro deixar o bosque para trás e aparecerem de novo os edifícios, as fábricas, os armazéns que balizavam a estrada.
A solidão do vale que atravessava agora, a sua escuridão, eram maiores. Imaginou-se a si mesmo a caminhar a bom passo pela berma. Sentiu um calafrio. Recordou então o jarrão onde jaziam as cinzas da mãe e a chávena de café da vizinha que não devolvera e que agora estaria infinitamente fria e os vídeos da mãe que já ninguém iria ver nunca mais. Pensou em parar o carro e esperar que amanhecesse. O instinto indicou-lhe que um local com um preto a dormir num carro alugado junto a uma berma não era o mais prudente no Arizona. Mudou de emissora. Uma voz em espanhol começou a contar a história de uma cantora de Gómez Palacio que havia voltado à sua cidade, no estado de Durango, só para se suicidar. Depois ouviu-se a voz de uma mulher que cantava rancheras. Durante um bocado, enquanto conduzia para o vale, esteve a ouvi-la. Depois tentou voltar a sintonizar a emissora de jazz de Phoenix e já não conseguiu encontrá-la.»

[in 2666, de Roberto Bolaño, trad. de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, 2009]

O homem que escreveu 2666

Quando morreu em Julho de 2003, aos 50 anos, vítima de insuficiência hepática, Roberto Bolaño ainda era um dos segredos mais bem guardados da literatura latino-americana. Conhecido apenas por um círculo de happy few, que viam nele um herdeiro legítimo de Borges e Cortázar, lidava bem com o seu relativo anonimato. Para ele, fama e literatura eram «inimigas irreconciliáveis», como escreveu em 2666 (a sua obra-prima, em que trabalhou durante os últimos cinco anos de vida), ignorando que seria precisamente esse monumental romance, um tour de force narrativo com mais de mil páginas, a escancarar-lhe as portas de uma glória póstuma que nunca desejou.
Bolaño já recebera, em vida, alguns elogios importantes (Susan Sontag viu nele «o escritor mais influente e admirado da sua geração no mundo de língua castelhana»), mas foi o surgimento de 2666 nos EUA, no final do ano passado, com uma recepção crítica apoteótica (uma «Bolañomania», como lhe chamou o El País), que o trouxe para a primeira fila do cânone da literatura contemporânea, mesmo ao lado de Philip Roth ou W. G. Sebald. Houve até quem afirmasse que o abalo provocado por Bolaño nas fundações da literatura latino-americana se assemelha, em intensidade, ao que Gabriel García Márquez provocou, há quatro décadas, com Cem Anos de Solidão. Em intensidade, sim, assemelham-se. Mas a natureza dos sismos é muito diferente. Como bem notou Enrique Vila-Matas, a escrita de Bolaño distingue-se por ter sabido romper «com a literatura latino-americana dos galos da Amazónia e das virgens que levitam».
Em vez do realismo mágico, transformado em fórmula exótica e de efeito fácil, o escritor chileno optou por um «realismo visceral», atento ao lado mais negro da realidade, ao apocalipse económico e social do continente, com as suas injustiças e um horror que por vezes ultrapassa a imaginação mais sórdida. Em 2666, por exemplo, Bolaño inspira-se nas centenas de homicídios de mulheres que ocorreram em Ciudad Juárez (cidade mexicana que serve de molde à ficcional Santa Teresa) e faz do minucioso inventário dos crimes – com os corpos atirados para lixeiras ou para baldios atrás das maquiladoras, fábricas que recebem e montam componentes para exportação, pagando salários de miséria a trabalhadores que nem sequer se podem sindicalizar – um dos mais terríveis retratos da lógica devoradora da globalização.
Não há nesta denúncia, porém, a mínima demagogia. À sua maneira, os livros de Bolaño são políticos, porque mostram o estado caótico do mundo e os seus abismos. Nunca são é panfletários. Bolaño não esconde a sua filiação esquerdista, nem a sua simpatia pelos utópicos derrotados pela História, mas recusa-se a encaixar a complexidade do mundo no espartilho da retórica ideológica. O seu único compromisso, radical e excessivo, foi com a literatura. E o modo de vida que escolheu, errático, feito de vagabundagens, de experimentações e de uma espécie de humildade fora do tempo, só faz sentido à luz desse compromisso.


Roberto Bolaño fotografado por Daniel Mordzinski

Nascido em Santiago do Chile, a 28 de Abril de 1953, filho de um camionista (que também praticava boxe) e de uma professora, Bolaño passou a infância enterrado em livros, em parte porque era fininho, disléxico e não se dava bem com as outras crianças. Aos 15 anos, mudou-se com a família para a Cidade do México, onde viveu uma adolescência turbulenta, com muito activismo político e a fundação de um movimento poético, o «infrarrealismo», que evocará mais tarde no romance Os Detectives Selvagens. Em 1973 regressa ao Chile, entusiasmado com o ímpeto revolucionário de Salvador Allende. Quando se dá o golpe de Pinochet, Bolaño é preso por suspeita de «terrorismo», passa uma semana na prisão e só não conhece pior sorte porque dois guardas prisionais, seus antigos colegas de escola, o conseguem tirar de lá. Após nova passagem pelo México, onde cimentou a sua reputação de boémio desbocado e provocador nato, emigra para a Europa em 1977, acabando por se fixar em Espanha, onde ganhava a vida com trabalhos de ocasião. Entre outras coisas, andou nas vindimas, foi vigilante nocturno num parque de campismo e recepcionista, lavou pratos, recolheu lixo. Ofícios que lhe serviram, mais tarde, como preciosa fonte de material para as suas ficções.
Em meados dos anos 80, instalou-se em Blanes, na Costa Brava (Catalunha), onde continuou a ter empregos precários e mal pagos, mas que lhe permitiam escrever à noite. O ponto de viragem neste quotidiano hippie, pobre mas absolutamente livre, dá-se com o nascimento do primeiro filho, em 1990. Consciente das suas obrigações familiares, põe a poesia (até aí o seu principal meio de expressão literária) em segundo plano e dedica-se à ficção como forma de ganhar dinheiro, nomeadamente através do envio de trabalhos para concursos literários regionais.
Embora tenha publicado, em 1984, um pequeno romance (escrito a meias com Antoní Garcia Porta), a verdadeira estreia editorial de Bolaño dá-se apenas em 1993, aos 40 anos, com A Pista de Gelo. Na última década de vida, talvez assombrado pelo declinante estado de saúde, compensa o tempo perdido ao publicar a um ritmo febril. Até 2003, quando o fígado soçobrou antes de o seu nome chegar ao topo da lista de transplantes, surgiram 11 títulos, entre os quais Estrela Distante (de 1996, recentemente reeditado pela Teorema), Os Detectives Selvagens (1998, Teorema), Amuleto (1999), Nocturno Chileno (2000, Gótica) e Putas Asesinas (2001). Esta produção acelerada deveu-se em parte à vontade de deixar uma fonte de sustento para a família (mulher e dois filhos). Também por isso, ao organizar os materiais de 2666, sugeriu ao editor, Jorge Herralde, a publicação de cada uma das suas cinco partes como um livro autónomo. Contudo, quando Ignacio Echevarría, amigo e conselheiro literário, analisou e reviu os textos de Bolaño, após a sua morte, defendeu que «o valor literário da obra» só ficaria defendido com a publicação num único volume. Os herdeiros, mais sensatos e preocupados com a literatura do que os herdeiros de escritores costumam ser, concordaram. E o certo é que os direitos de autor, que entretanto começaram a chegar de todo o mundo, os livraram de vez da perspectiva de apertos económicos que tanto angustiava Bolaño.

Mais impressionante ainda do que a extensão da obra publicada pelo escritor chileno na última década de vida, é a extensão da obra que ficou por publicar. Além dos livros póstumos que já foram dados à estampa (2666; El secreto del mal; La Universidad desconocida; Entre paréntesis e Bolaño por el mismo), há muitos outros em lista de espera, desenterrados de uma espécie de arca pessoana, onde se acumulam dezenas de cadernos com ficções inéditas e diários. Há uns meses, o La Vanguardia noticiou a descoberta, no vasto arquivo que só agora começa a ser devidamente estudado, de dois romances: Diorama e Los sinsabores del verdadero policia o Asesinos de Sonora. Entretanto, o primeiro destes frutos escondidos vai ser publicado no próximo mês de Fevereiro. Trata-se de O Terceiro Reich, que sairá simultaneamente em Espanha, pela Anagrama, e no nosso país, pela Quetzal, editora que antes disso fará chegar às livrarias, no fim da próxima semana [amanhã], a tradução portuguesa de 2666.
Francisco José Viegas, responsável pela Quetzal, tem esperança de que a Bolañomania se estenda até cá e se prolongue com outras obras que tenciona publicar em breve: A Literatura Nazi na América e A Pista de Gelo. «O sonho de qualquer editor é poder juntar as duas coisas: grande literatura, como é Bolaño, e sucesso comercial.» Determinante mesmo foi a paixão pelos livros. 2666, por exemplo, despertou-lhe um «fascínio imediato»: «Quando se começa a ler, damo-nos conta de que é qualquer coisa de novo que está ali, uma espécie de “livro sobre todos os livros”, muito à maneira de Borges, mas rompendo com aquele tom do “mágico latino-americano”. De alguma maneira, se Macondo é o lugar fundador de uma parte dessa literatura, Santa Teresa [a cidade do romance de Bolaño] é o fim de toda a inocência, é a cidade onde o fantástico passa a ser épico.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Dia B

O Dia Bolaño é só amanhã (26/9), mas os primeiros exemplares de 2666 começam a ser vendidos logo à noite, a partir das 23h00, na livraria Ler Devagar (Lx Factory, Alcântara), durante o mais badalado lançamento do ano.

Uma voz

«Não há amizade, disse a voz, não há amor, não há épica, não há poesia lírica que não seja um gorgolejo, ou um gorjeio de egoístas, trinado de batoteiros, borbulhão de traidores, efervescência de arrivistas, garganteio de maricas. Mas tu o que é que tens, sussurrou Amalfitano, contra os homossexuais? Nada, disse a voz. Falo em sentido figurado, explicou a voz. Estamos em Santa Teresa?, perguntou a voz. É esta cidade parte, e não pouco destacável, do estado de Sonora? Sim, respondeu Amalfitano. Então é isso, disse a voz. Uma coisa é ser arrivista, digo eu, para dar um exemplo, disse Amalfitano alisando o cabelo como que em câmara lenta, e outra muito diferente é ser maricas. Falo em sentido figurado, repetiu a voz. Falo para que tu me entendas. Falo como se eu estivesse, e tu estivesses atrás de mim, no ateliê de um pintor ho-mos-se-xu-al. Falo de um ateliê onde o caos é só uma máscara ou uma ligeira fetidez de anestesia. Falo de um ateliê com as luzes apagadas onde o nervo da vontade se desprende do resto do corpo como a língua da serpente se desprende do corpo e repta, automutilada, entre o lixo. Falo das coisas simples da vida. Tu ensinas filosofia?, perguntou a voz. Tu ensinas Wittgenstein?, perguntou a voz. E já te perguntaste se a tua mão é uma mão?, prosseguiu a voz. Já me perguntei, disse Amalfitano. Mas agora tens coisas mais importantes para te interrogares, ou estou enganado?, perguntou a voz. Não, respondeu Amalfitano. Por exemplo: por que não ires a um viveiro e comprar sementes e plantas até talvez uma pequena árvore para plantar no meio do teu jardim das traseiras?, perguntou a voz. Sim, disse Amalfitano. Pensei no meu possível e exequível jardim e nas plantas que preciso de comprar e nas ferramentas para o executar. E também pensaste na tua filha, disse a voz, e nos assassínios que se cometem diariamente nesta cidade, e nas nuvens maricas de Baudelaire (perdão), mas não pensaste seriamente se a tua mão é realmente uma mão. Não é verdade, disse Amalfitano, claro que pensei, claro que pensei. Se tivesses pensado, disse a voz, outro galo cantaria. E Amalfitano ficou em silêncio e sentiu que o silêncio era uma espécie de eugenismo. Viu as horas no relógio. Eram quatro da manhã. Ouviu alguém a ligar o motor de um carro. O carro demorava a pegar. Levantou-se e espreitou à janela. Os carros estacionados em frente da sua casa estavam vazios. Olhou para trás e a seguir pôs a mão no manípulo da porta. A voz disse: cuidado, mas disse isto como se estivesse muito longe, no fundo dum barranco onde espreitavam pedaços de pedras vulcânicas, riolites, andesites, veios de prata e veios de ouro, charcos petrificados cobertos de ovinhos minúsculos, enquanto no céu arroxeado como a pele de uma índia morta à paulada sobrevoavam águias-de-cauda-vermelha. Amalfitano saiu para o alpendre. À esquerda, a uns dez metros de casa, um carro preto acendeu os faróis e arrancou. Ao passar diante do jardim, o motorista inclinou-se e observou Amalfitano sem parar o carro. Era um tipo gordo e de cabelo muito preto, vestido com um fato barato e sem gravata. Quando desapareceu, Amalfitano voltou para casa. Mau aspecto, disse a voz, mal ele passou a porta de entrada. E depois: tens de ter cuidado, camarada, parece-me que aqui há coisas que estão no vermelho vivo.»

[in 2666, de Roberto Bolaño, trad. de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, 2009]

Actrizes giras que lêem clássicos

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Em 1955, Eve Arnold captou esta célebre imagem de Marilyn Monroe a ler as páginas finais do Ulisses, de James Joyce. Na próxima sexta-feira, será a vez de Soraia Chaves desafiar os preconceitos e estereótipos, ao ler uma passagem de 2666 durante o lançamento do romance de Roberto Bolaño, na Livraria Ler Devagar/Lx Factory (a partir das 23h00). Além de uma tiragem especial de 150 exemplares do livro (exemplares únicos, com papel de cores diferentes para cada caderno e uma sobrecapa), haverá «margaritas, acepipes mexicanos, shots de chili con carne, música (uma banda sonora com mariachis, corridos, polcas, boleros)» e mais uns quantos leitores a partilhar com a audiência excertos das cinco partes que compõem 2666.

Força gravítica

Entrar em 2666 é fácil. Difícil é sair.

Exercício de ocultamento

«Toda a obra menor tem um autor secreto e todo o autor secreto é, por definição, um escritor de obras-primas. Quem é que escreveu tal obra menor? Aparentemente um escritor menor. A mulher deste pobre escritor pode testemunhar isso, ela viu-o sentado à mesa, inclinado sobre as páginas em branco, a retorcer-se e a deslizar a sua caneta sobre o papel. Parece uma testemunha irrebatível. Mas o que ela viu é só a parte exterior. A carapaça da literatura. Uma aparência – disse o velho ex-escritor a Archimboldi e Archimboldi lembrou-se de Ansky. – Quem na verdade está a escrever essa obra menor é um escritor secreto que só aceita os ditados de uma obra-prima.
O nosso bom artesão escreve. Está enfronhado naquilo que vai plasmando bem ou mal no papel. A sua mulher, sem que ele o saiba, observa-o. Efectivamente, é ele quem escreve. Mas se a sua mulher tivesse uma visão de raios X aperceber-se-ia de que não assiste propriamente a um exercício de criação literária, mas sim a uma sessão de hipnotismo. No interior do homem que está sentado a escrever não há nada. Nada que seja ele, quero dizer. Quão melhor faria esse pobre homem dedicando-se à leitura. A leitura é prazer e alegria de estar vivo ou tristeza de estar vivo e sobretudo é conhecimento e perguntas. A escrita, em compensação, costuma ser vazio. Nas entranhas do homem que escreve não há nada. Nada, quero dizer, que a sua mulher, num dado momento, possa reconhecer. Escreve por ditado. O seu romance ou poemário, decentes, decentezinhos, saem não por um exercício de estilo ou vontade, como o pobre desgraçado julga, mas sim graças a um exercício de ocultamento. É necessário que haja muitos livros, muitos pinheiros encantadores, para que escondam de olhares avessos o livro que realmente importa, a maldita gruta da nossa desgraça, a flor mágica do Inverno!
Desculpe as metáforas. Às vezes excito-me e fico romântico. Mas escute. Toda a obra que não seja uma obra-prima é, como lhe dizer, uma peça de uma vasta camuflagem. Você foi soldado, calculo, e já sabe ao que me refiro. Todo o livro que não seja uma obra-prima é carne para canhão, infantaria esforçada, peça sacrificável dado que reproduz, de múltiplas maneiras, o esquema da obra-prima. Quando compreendi esta verdade deixei de escrever. A minha mente, porém, não deixou de funcionar. Pelo contrário, ao não escrever
funcionava melhor. Perguntei-me: porque é que uma obra-prima precisa de estar oculta?, que estranhas forças a arrastam para o segredo e o mistério?
Já sabia que escrever era inútil. Ou que só valia a pena se uma pessoa estiver disposta a escrever uma obra-prima. A maior parte dos escritores engana-se ou brinca. Talvez enganar-se e brincar seja a mesma coisa, as duas faces da mesma moeda. Na realidade, nunca deixamos de ser crianças, crianças monstruosas cheias de dói-dóis e de varizes e de tumores e de manchas na pele, mas crianças afinal, isto é, nunca deixamos de nos agarrar ferreamente à vida dado que somos vida. Também se poderia dizer: somos teatro, somos música. De igual maneira, pouco são os escritores que renunciam. Brincamos a julgarmo-nos imortais. Enganamo-nos no
julgamento das nossas próprias obras e no julgamento sempre impreciso das obras dos outros. Vemo-nos no Nobel, dizem os escritores, como quem diz: vemo-nos no Inferno.»

[in 2666, de Roberto Bolaño, págs. 901-902, trad. de Cristina Rodríguez e Artur Guerra, Quetzal, 2009]

Pequeno desabafo, dez segundos após a conclusão de 2666 (os primeiros nove segundos foram de silencioso êxtase)

Bolaño, Bolaño, Bolaño: meu filho da puta, meu cabrão, meu génio.

O paradoxo da página 999

Chegado aqui, começo a achar que 2666, afinal, é um romance demasiado curto.

Setembro de 1939

«Em Setembro começou a guerra. A divisão de Reiter avançou até à fronteira e atravessou-a depois de as divisões panzer e as divisões de infantaria motorizada que abriam o caminho o terem feito. Graças a marchas forçadas entraram no território polaco sem combater e sem tomar muitas precauções: os três regimentos deslocavam-se quase juntos numa atmosfera geral de romaria, como se aqueles homens avançassem para um santuário religioso e não para uma guerra, onde inevitavelmente alguns deles encontrariam a morte.
Atravessaram várias terras, sem as saquear, em perfeita ordem, mas sem qualquer tipo de altivez, sorrindo às crianças e às mulheres novas, e de vez em quando cruzavam-se com soldados de moto que voavam pela estrada, por vezes na direcção leste e outras vezes na direcção oeste, trazendo ordens para a divisão ou trazendo ordens para o estado-maior do corpo. Deixaram a artilharia para trás. Às vezes, ao passar por uma lomba, olhavam para leste, para onde eles supunham que estava a frente, e não viam nada, só uma paisagem adormecida com os últimos esplendores do Verão. Para oeste, pelo contrário, conseguiam avistar a poeira da artilharia do regimento e da divisão que se esforçava por alcançá-los.
Ao terceiro dia de viagem, o regimento de Hans desviou-se por outra estrada de terra. Pouco antes do anoitecer chegaram a um rio. Por detrás do rio erguia-se um bosque de pinheiros e álamos e atrás do bosque, disseram-lhes, havia uma aldeia onde um grupo de polacos se havia entrincheirado. Montaram as metralhadoras e os morteiros e lançaram foguetes, mas ninguém respondeu. Duas companhias de assalto atravessaram o rio depois da meia-noite. No bosque, Hans e os seus camaradas ouviram piar um mocho. Quando saíram para o outro lado descobriram, como um vulto negro incrustado ou embutido na escuridão, a aldeia. As duas companhias dividiram-se em vários pelotões e prosseguiram o seu avanço. A cinquenta metros da primeira casa, o capitão deu a ordem e todos desataram a correr em direcção à aldeia e alguns até pareceram surpreendidos quando se aperceberam de que estava vazia. No dia seguinte, o regimento prosseguiu o avanço para leste, por três caminhos diferentes, em paralelo à rota principal que o grosso da divisão seguia.»

[in 2666, de Roberto Bolaño, trad. de Cristina Rodríguez e Artur Guerra, Quetzal, 2009]

Mar interminável

Na página 642 de 2666, lê-se:

«Viver neste deserto, pensou Lalo Cura enquanto o carro conduzido por Epifanio se afastava do descampado, é como viver no mar. A fronteira entre Sonora e o Arizona é um grupo de ilhas fantasmagóricas ou encantadas. As cidades e as aldeias são barcos. O deserto é um mar interminável. Este é um bom sítio para os peixes, sobretudo para os peixes que vivem nas fossas mais profundas, não para os homens.»

O deserto é um mar interminável, sim. Como o próprio livro que o descreve.

Personagem literária do ano

Benno von Archimboldi (isto é, Hans Reiter), o imaginário grande escritor alemão do pós-guerra, em 2666.

Medos

Entre a página 439 e a 441 de 2666, durante o diálogo entre um inspector da polícia e a directora de um manicómio, Roberto Bolaño enumera trinta tipos diferentes de medo. São eles:

Sacrofobia – medo ou aversão ao sagrado, aos objectos sagrados
Gefirofobia – medo de atravessar pontes
Claustrofobia – medo dos espaços fechados
Agorafobia – medo dos espaços abertos
Necrofobia – medo dos mortos
Hematofobia – medo do sangue
Pecatofobia – medo de cometer pecados
Clinofobia – medo das camas
Tricofobia – medo do cabelo
Verbofobia – medo das palavras
Vestiofobia – medo da roupa
Iatrofobia – medo dos médicos
Ginefobia – medo da mulher
Ombrofobia – medo da chuva
Talassofobia – medo do mar
Antofobia – medo das flores
Dendrofobia – medo das árvores
Optofobia – medo de abrir os olhos
Pedifobia – medo das crianças
Balistofobia – medo das balas
Tropofobia – medo de mudar de situação ou lugar
Agirofobia – medo das ruas ou de atrevessar uma rua
Cromofobia – medo de certas cores
Nictofobia – medo da noite
Ergofobia – medo do trabalho
Decidofobia – medo de tomar decisões
Antropofobia – medo das pessoas
Astrofobia – medo dos fenómenos meteorológicos
Pantofobia – medo de tudo
Fobofobia – medo dos próprios medos

«Se você tivesse de ter um dos dois [pantofobia ou fobofobia], qual escolheria?», pergunta a directora do manicómio. O polícia opta pela fobofobia: «Entre ter medo de tudo e ter medo do meu próprio medo, escolho este último, não se esqueça que sou polícia e se eu tivesse medo de tudo não poderia trabalhar.» Ao que a directora replica: «Mas se tiver medo dos seus medos a sua vida pode transformar-se numa observação constante do medo, e se estes se activarem, o que se produz é um sistema que se alimenta a si mesmo, um enredo do qual lhe será difícil escapar».
Há ainda um outro tipo de medo, digo eu. A 2666fobia: medo de não acabar um certo livro de Roberto Bolaño.

O deserto de Sonora aqui tão perto

Ainda antes de chegar às livrarias, o 2666 de Roberto Bolaño chega à blogosfera portuguesa, com um relógio em contagem decrescente para o lançamento (previsto para as 00h00 de 26 de Setembro).
Além de assinalar referências ao romance e a Bolaño na imprensa e na Internet (tanto as que já foram feitas como as que forem surgindo), o blogue acompanhará em tempo real o hype em torno do livro.

Francisco José Viegas sobre 2666

Não há nada mais reconfortante do que ver um editor verdadeiramente entusiasmado com as obras que edita. Veja-se o que diz Francisco José Viegas sobre a obra-prima de Roberto Bolaño que a sua editora, a Quetzal, vai lançar a 26 de Setembro:

«[2666] é um romance grandioso, maior do que o Ulysses [de James Joyce], uma espécie de narrativa de Borges em ponto grande, que junta literatura e violência de uma forma inédita, ininterrupta, ultrapassando o puro fantástico da literatura latino-americana»

Pode parecer exagero, mas quem tenha lido Os Detectives Selvagens sabe que provavelmente não é. Viegas revela ainda que a Quetzal vai continuar a publicar Bolaño. Em Fevereiro de 2010 surgirá, em simultâneo com a edição espanhola, o inédito O Terceiro Reich, seguindo-se A Literatura Nazi na América, Amuleto, A Pista de Gelo e Putas Assassinas.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges