Quatro poemas de A. M. Pires Cabral

A GAVETA DO FUNDO

A gaveta do fundo: onde guardava
brasas e jóias de família –
ou seja, reservas de calor
para os dias do frio que aí vêm.

A gaveta do fundo:
forçada a fechadura, saqueada,
desmantelada em tábuas e ferragens.

Dada a beber às altas labaredas
que, bebendo, multiplicam a sede,
em vez de a extinguir.

***

PUNHAL EXCELENTE

Já quase não há, o punhal excelente
com que a mim próprio me esventrei algumas vezes
para melhor me desentranhar em versos –

– esse lícitos salpicos de lama,
essas coisas à toa, hossanas, ambições,
promessas, juras, astutas
ingenuidades: toda essa merda que há
dentro do poeta e com que ele gosta
de borrifar os outros. Para que
não se fiquem a rir.

E eis que agoniza: o gume rombo,
manchas inamovíveis de ferrugem,
incapaz de incisões, definitivamente
inoperacional o punhal excelente.

Paz ao seu aço.

***

NORA

I

Muito tilintou esta nora.

Isso foi no tempo em que musgos,
heras, caracóis, lagartixas e ferrugem
não se tinham ainda sentado em cima dela.

Agora já não tilinta.
Secou-se-lhe o tilintar, que por sinal
era o som mais húmido do campo,
o mais quebradiço, mas também
mais apto a fecundar.

II

Mas não se extraviou nos complicados
trilhos do tempo:
limitou-se a migrar para dentro de mim.
Guardei-o num baú de que só eu tenho a chave
e donde às vezes o tiro para ouvir de novo
os pingos de prata derretida
caindo insistentes sobre a tarde esguia

que, aproximando-se do fim,
ficava de repente mais sonora
de pássaros e brisas, e de risos
e ralhos vindos da horta.

[in Gaveta do Fundo, de A. M. Pires Cabral, Tinta da China, 2013]

A enleia invisível

Os Anjos Nus
Autor: A. M. Pires Cabral
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 268
ISBN: 978-972-795-331-8
Ano de publicação: 2012

Na «memória justificativa» de Os Anjos Nus, A. M. Pires Cabral explica que só dois dos oito contos são inéditos, tendo sido os outros recuperados de minúsculas edições (cada uma com circulação mais restrita do que a anterior) e do suplemento de Natal do Jornal do Fundão. Ao ler os textos, em que reconhecemos a perfeição de estilo característica dos clássicos, agiganta-se o espanto: como puderam andar estas prosas tão afastadas de olhos que as mereçam, apodrecendo dentro de caixotes num armazém? É um mistério. Mas, lá diz o ditado, antes tarde do que nunca.
Os contos, «vagamente inspirados em acontecimentos verídicos» (mas prontos a questionar a sua própria veracidade), têm a uni-los uma mesma geografia: as paisagens de Trás-os-Montes, onde desfilam as vidas e as tragédias de pessoas apertadas «contra os muros da pobreza», presas à terra em que nasceram por uma «enleia invisível». Num cenário de romarias, falsos milagres e cultos a santinhas (sempre em ânsias de converter a Rússia), há abundância de padres e dos homens que nas aldeias os antagonizavam: médicos, farmacêuticos ou professores com costela jacobina e aversão a «sotainas retrógradas».
Pires Cabral é particularmente eficaz no modo como desvenda os rígidos códigos sociais em acção, seja no luto das viúvas «de um marido vivo» (os homens que emigravam), seja no castigo das infidelidades amorosas, afrontas «lavadas com sangue» ou resolvidas pela ingestão de veneno do escaravelho. Subjacente a tudo, a ideia de que mesmo agindo mal se podem fazer boas coisas e de que não vale a pena insistir no escudo do racionalismo, porque há sempre «uma porta das traseiras por onde entram coisas irracionais como a fé, a crendice, o palpite».
Vilar Frio e O salvo-conduto são histórias exemplares, escritas com garbo e verve camiliana, mas o ponto mais alto do livro é o último texto, O Diário de C*, espantosa exegese do tosco diário de um namoro vulgar, supostamente encontrado numa Agenda Grandella de 1914. Depois de descrever em pormenor o próprio objecto («híbrido de almanaque e agenda»), o narrador assume «uma agridoce nostalgia por tudo quanto foi» e mergulha na «sintaxe tortuosa» de C*, analisando a fundo as suas breves entradas, lendo nas entrelinhas, criando hipóteses, supondo aquilo que não se pode saber. Trata-se aqui de exumar a memória de duas pessoas naufragadas no mar do olvido, não «à maneira do sociólogo que friamente observa e deduz, mas como quem ama e desculpa e quer compreender». Belo desígnio, cumprido com um zelo todo feito de «compaixão e teimosia».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 117 da revista Ler]

Primeiros parágrafos

«Sabia-se na terra que a Menina Florinda falava com as imagens da igreja. Havia muito quem tivesse ouvido. Nem ela se escondia de ninguém para o fazer: fazia-o com a maior das naturalidades. E o que dizia? Coisas geralmente amistosas, do género “ora vamos lá então acender esta velinha” ou “passaste bem a noite, Santa Catarina?”
Já isto, por si só, era caso para estranhezas. Mas alguns asseveravam que, quando estava mal-disposta, a Menina Florinda não se limitava a falar com elas, também ralhava. E era ainda fama que não só falava e ralhava, como, umas vezes por outras, em momentos de impaciência extrema, exacerbada pelas instabilidades da menopausa, lhes dava estaladas exactamente como fazia na catequese aos meninos mal comportados ou distraídos ou incapazes de papaguear a salve-rainha de fio a pavio. Mas isso já era claramente do domínio da fábula e não merecia crédito, nem de resto interessa muito a esta história verídica. Nunca ninguém viu.»

[in Os Anjos Nus, de A. M. Pires Cabral, Cotovia, 2012]

A. M. Pires Cabral e San Juan de la Cruz numa rua de Segóvia

História de uma descoberta literária, contada no blogue da Cotovia.

A perfeição da cobra

Cobra d’Água
Autor: A. M. Pires Cabral
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 75
ISBN: 978-972-795-324-0
Ano de publicação: 2011

Como noutros dos seus livros de poesia, A. M. Pires Cabral reúne em Cobra-d’Água um considerável bestiário: cães, rãs, vacas, ratos, vermes, andorinhas. E até uma metafórica toupeira que esbraceja na calçada «como um náufrago». Os bichos servem de medida para o homem porque se contentam com a «quantidade de dias» que lhes foram atribuídos – ao contrário de nós, seres pensantes, capazes de implorar um «para além do fim», mesmo se à custa de uma «triste figura». É a «perfeição da cobra», porém, que o poeta inveja: «Quisera ser como a cobra. / Quando, como ela, começasse / a ficar grande demais por dentro, / em vez de me oprimir para continuar a caber, / poder despir a pele, // como quem descalça com alívio / sapatos que lhe entalavam os pés, // sabendo que outra pele está a caminho, / onde caberá sem constrição alguma / o novo volume que foi tomando o corpo».
Este desconforto com o próprio corpo, simultaneamente físico e mental, talvez irredimível, é a «chaga» que o poeta – «jacobino» com «defeito de fabrico», iluminado por um «extenso pessimismo» – anda há décadas a «coçar». Pires Cabral assume-se como alguém que faz perguntas «de trazer por casa» (as importantes foram-lhe escondidas, «como de uma criança o frasco da compota») e precisa que lhe expliquem «as coisas vertiginosas», agora que já vê «túnel ao fundo da luz». Os poemas oscilam entre a elegia dos tempos perdidos (ou desfeitos «em fumo») e a autodepreciação, entre a ligeireza da sarabanda e a solenidade do requiem, entre a ironia agreste de supostas «bagatelas cediças» e a evocação das «coisas graves que mais valera omitir» (como a morte). Em última análise, é sempre da morte que se fala, essa «grande boca universal / semelhante a uma fornalha / que queima tudo o que se põe lá dentro». Porque nada lhe resiste, nem sequer o Seringador, com a sua omnisciência de almanaque: «Mas vem um dia / em que de súbito perdeste a validade. / E morres a menos sábia das mortes. / E eu queimo-te no lume às primeiras horas / de alguma fria madrugada de Janeiro».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 109 da revista Ler]

Implorar a Deus que ponha termo ao Verão

A.M. Pires Cabral sobre Rilke.

Dois poemas de A. M. Pires Cabral

DEFEITO DE FABRICO

Quando nasci, trazia de origem
um farol que despejava luz a jorros
sobre o que quer que fosse,
mormente sobre as dobras
pérfidas da noite.

Mas, por estranho que pareça,
também os faróis estão sujeitos
às leis da erosão,

e o meu farol deliu-se. Hoje não é
mais do que um triste farolim de bicicleta
que apenas me alumia dois palmos de noite.

Amanhã estará reduzido
a uma simples lanterna de bolso
com que mal poderei reconhecer
o lugar onde estou.

Até que um dia será, está bom de ver,
o mais fiável cúmplice da noite –

– da noite que devia dissipar,
e não fundir-se nela.

Defeito de fabrico.
Mas a garantia caducou e o fabricante
nega-se a ressarcir-me do escuro.

***

UMA TOUPEIRA NA CALÇADA

Vi uma toupeira na calçada.

As toupeiras não se dão bem em calçadas
– elas que têm no solo arável o seu habitat –
mas aquelas estava ali inexplicavelmente.

Uma aventura que acabou mal,
pensei para comigo.

A toupeira extraviada na calçada
esbracejava (se assim se pode dizer)
como um náufrago que não tem bóia nem tábua.

Tentava refugiar-se na terra
a que pertencia. Mas, desfavorável,
a pedra não se deixava fender das suas unhas,
tal como a água se não deixa nadar
do desespero do náufrago
que não tem tábua nem bóia.

Estava-se mesmo a ver como a coisa ia acabar.

Enquanto tivesse forças, a toupeira,
embora perplexa daquele lugar hostil,
continuaria sempre a esbracejar,
arranhando em vão a pedra da calçada.
Depois, algum gato havia de passar por ali
(há sempre um gato que passa ‘por ali’)
e daria o remate apropriado
a esta história sem história.
No fim de contas, uma toupeira é um rato,
não é verdade? (Pergunta o gato.)

Meditando na sorte da toupeira,
enquanto o gato ainda anda por longe,
ocorreu-me então que a calçada
podia muito bem ser um espelho
e a toupeira naufragada
a nossa imagem reflectida nele.

Toupeira em calçada todos nós.

[in Cobra-d’Água, Cotovia, 2011]

Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco para A. M. Pires Cabral

Atribuído pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão e pela Associação Portuguesa de Escritores, o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, no valor de 7500 euros, distingue este ano – e muito bem – O Porco de Erimanto e outras fábulas, de A. M. Pires Cabral, livro publicado na Cotovia (a minha recensão pode ser lida aqui).
O júri, composto por Afonso Cruz, José António Gomes, Serafina Martins e Fernando Miguel Bernardes, decidiu por unanimidade e «valorizou a arquitectura dos enredos, a capacidade de jogar com a perspectiva do narrador, a diversidade dos registos linguísticos (do erudito ao mais coloquial e até ao escatológico) e o trabalho de apuro estilístico do texto».

A cada um sua moléstia

O Porco de Erimanto e outras fábulas
Autor: A. M. Pires Cabral
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 260
ISBN: 978-972-795-299-1
Ano de publicação: 2010

Há livros, como o mais recente volume de contos de A.M. Pires Cabral, que merecem ter duas vidas. Nada do outro mundo, se considerarmos que a primeira não chegou propriamente a existir. Publicado em 1985 por uma «editora efémera» (Nova Nórdica), O homem que vendeu a cabeça nem sequer entrou nos circuitos comerciais: «a tiragem de 2500 exemplares deve ter apodrecido nalgum armazém, sido guilhotinada ou vendida a peso», explica o autor. Passado um quarto de século, eis que o livro renasce, substancialmente revisto e aumentado (mais três contos), com novo título e chancela de uma editora nada efémera (Cotovia).
Feliz ressurreição, diga-se, porque o autor de O Cónego (e de uma extensa obra poética) está entre os melhores prosadores portugueses em actividade. Como Agustina Bessa-Luís ou Mário de Carvalho, Pires Cabral explora até ao limite a riqueza da língua, a sua plasticidade sintáctica, o seu vocabulário. E faz de cada conto, para lá da narração em si mesma, um primor de linguagem. As histórias, essas, são ora divertidas, ora cruéis, ora divertidas e cruéis. Pires Cabral gosta de multiplicar narradores e pontos de vista, de construir os textos como caixas chinesas e de manobrar ostensivamente os cordéis das suas personagens, sujeitas ao mau génio de um deus ex machina que só as quer ver em estado de angústia e sofrimento.
Por causa de um buraco na parede, o hóspede de uma pensão barata alucina com o que se passa no quarto ao lado. Há quem ofereça cedo demais a cabeça à ciência, quem se transforme no seu objecto de estudo (o javali mítico dos trabalhos de Hércules), quem lute com a própria sombra ou com um cancro tão íntimo que até tem nome de gente (Desidério) e por isso se torna difícil de eliminar. A atmosfera geral é de insânia, mas uma insânia mais vezes cómica do que trágica. Se virmos bem, todos os protagonistas enlouquecem ou são vítimas da loucura alheia (que às vezes é só uma forma de maldade). E quando não ficam doidos, adoecem. «A cada um sua moléstia», preconiza uma das personagens, defensora do «carácter saudável da doença», esse tributo «a pagar à mecânica da carne». Noutra história, sugere-se que «um coração doente é o melhor tesouro que um homem pode ambicionar», porque nos oferece o consolo de um fim rápido. A morte está sempre a rondar este livro, sem descanso, nos seus mil disfarces. Por isso, mesmo quando o tom de Pires Cabral é assumidamente jocoso, quase zombeteiro, apetece-nos tudo menos rir.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 93 da revista Ler]

Prémio Luís Miguel Nava para A. M. Pires Cabral

O júri do Prémio Luís Miguel Nava acaba de me enviar o seguinte comunicado:

«O Prémio de Poesia Luís Miguel Nava 2009, agora bienal e referente aos livros de poesia publicados em 2007 e 2008, foi atribuído ao livro As Têmporas da Cinza, de A. M. Pires Cabral, publicado pelas Edições Cotovia.
No valor de cinco mil euros, o prémio, que, nas anteriores atribuições, foi concedido aos poetas Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Echevarría, António Franco Alexandre, Armando Silva Carvalho, Manuel Gusmão, Fernando Guimarães, Manuel António Pina, Luís Quintais, António Ramos Rosa e Pedro Tamen, correspondeu à decisão unânime de um júri constituído, como habitualmente, por quatro membros da direcção da Fundação Luís Miguel Nava, Carlos Mendes de Sousa, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz e Luís Quintais, e um elemento convidado, desta vez o poeta e crítico António Carlos Cortez.
A limpidez e a precisão da escrita de A. M. Pires Cabral, a sua penetrante e austera visão dum mundo cuja expressão encontra numa espécie de imitação da terra o modelo para uma linguagem poética de invulgar intensidade, fazem deste autor um dos casos mais representativos da nossa melhor poesia contemporânea.»

O escritor pinta

Durante o mês de Maio, A. M. Pires Cabral expôs 20 aguarelas em Macedo de Cavaleiros, como documenta esta reportagem do site Notícias do Nordeste.

Um poema de A. M. Pires Cabral

A MOSCA DO SERVIÇO DE URGÊNCIA

A velha está sentada na sala de espera.
Chegou amparada pela filha, que a depositou ali
enquanto trata dos papéis. A aflição
deve ter sido tão súbita e imperiosa
que a velha vem descomposta,
não houve tempo para atender a pudores.
Perdeu algures um chinelo.

Está sentada, muito branca, e parece
mascar as dores com as gengivas nuas.

Tem a morte pousada na cara, sob a forma
de uma mosca insistente e de ar atarefado.
Não tem forças para a sacudir.
A mosca aproxima-se da boca, depois parece
interessar-se pelo nariz. Delicia-se
com o muco ao canto do olho, como a criança
que come a ocultas um gelado interdito.
É como se estivesse em casa e percorresse
os aposentos ao sabor dos afazeres.
Cansada do rosto, levanta voo
e vai pousar, desta feita, numa mão.
Mas breve volta atrás, como se se tivesse
esquecido ali de alguma coisa,
e demora-se um pouco a tentar lembrar o quê.

Esfrega uma na outra as patas dianteiras,
celebrando a vitória que logo virá.

A velha já nem se dá conta
desse penúltimo escárnio da morte.
Está visivelmente madura para ela,
pronta a entregar-lhe os destroços do corpo.

Consumada a posse daquele território,
a mosca vai no seu voo fortuito
em busca de mais carne a requerer.
Há dezenas de doentes na sala.
Apalpa-os um por um, como se faz aos figos,
para saber qual deve ser comido
em primeiro lugar.

O mais certo é que acabe – mais dia, menos dia –
por devorá-los todos.

[in As Têmporas da Cinza, Cotovia, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges