Acordo Ortográfico: Brasil + Coimbra

«O mais antigo jornal de Coimbra, O Despertar, adoptou no início do ano a grafia do novo acordo ortográfico que, no dia 1 de Janeiro, entrou em vigor no Brasil, destaca o semanário na primeira página da última edição.
Em declarações à agência Lusa, o director daquele semanário, Linho Vinhal, explicou que, “estando em perspectiva a entrada em vigor do acordo a curto prazo, seria útil e dentro do papel da comunicação social ir habituando os leitores a uma grafia que boa parte das pessoas vai estranhar”.»

Primeiro balanço da entrada em vigor do Acordo Ortográfico no Brasil

O Acordo Ortográfico, que entrou em vigor para os brasileiros na passada quinta-feira (dia 1), não está a causar problemas de maior aos grandes jornais de São Paulo. Ainda sem data certa, o Acordo deve ser aplicado em Portugal em 2010, até ao fim da presidência portuguesa da CPLP.

O lado bom do Acordo

O Acordo Ortográfico de 1990, o tal que aí vem, é uma medida incoerente, oportunista, irresponsável, desnecessária. Os quase 100.000 portugueses que já assinaram um protesto na Net mostram como não é fácil enganar um povo. Simplesmente, o PR não deu ouvidos ao intenso clamor, e o Acordo lá passou. E agora? Choros convulsivos? Uma maciça desobediência civil? Qual! O Acordo contém, por nítida desatenção, um lado espantosamente saudável. Ora vejamos.
Até hoje, o grande critério para a ortografia do português era a etimologia. Escreve-se assim porque a forma original era esta ou aquela. Um segundo critério, menos produtivo, mas não menos eficaz, era a tradição. Escreve-se assim porque já o nosso bisavô o fazia. Estes critérios eram sacrossantos e produziram uma ortografia de desnortear os mais sisudos. Vamos ao dicionário ver onde está o ‘z’ em “vazar” e “extravasar”, ou o ‘u’ em “coscuvilhar” e “burburinho”. Inútil indignar-nos. A ortografia nunca perseguiu a fiel reprodução da fala. Quando calhava, óptimo. Quando não calhava, óptimo na mesma.
Mas o Acordo traz novidade, e das graúdas. Ponhamos por caso “amnistia”, “amnistiar”, “amnistiável”. Assim dizemos e escrevemos nós. Um brasileiro diz e escreve “anistia”, “anistiar”, “anistiável”. A leitura destas realidades foi sempre dúplice. Havia a imarcescível latinidade portuguesa, havia a natural evolução ultramarina. Altas justificações para a crueza dos factos. O mesmo valia para os nossos “subtil”, “súbdito”, “contactar”, “intacto”, etc., e para os brasílicos “sutil”, “súdito”, “contatar”, “intato”. Era a evolução.
O Acordo deixou-se de impressionismos. Muito pós-moderno, ele declarou tais diferenças um reflexo da prolação das elites. Ou mais chãmente: a reprodução das várias “pronúncias cultas locais”.
Mas espera lá: não vinha o mirífico Acordo unificar a escrita da ‘Lusofonia’? Claro. E bem tentou. Só que, no contorcionismo para uniformizar o impossível, rebentaram-lhe as costuras do outro lado. Isto é: o Brasil, cansado de ser ‘evolução’ dos usos portugueses, fez proclamar a igualdade das “pronúncias locais”, reconhecidas a partir de agora como o critério decisivo da grafia.
Isto, senhores, é simplesmente revolucionário. A ortografia deixa de ser ‘arbitrária’, ‘convencional’, para tornar-se, sem meias tintas, o reflexo duma fala efectiva. O que abre perspectivas nunca sonhadas. Podemos agora – libertos da camisa-de-forças da etimologia e da tradição, finalmente donos de nós próprios – dar ao nosso português uma escrita adequada e pedagógica.
Não era essa a intenção? É esse o precioso resultado.

Fernando Venâncio

Vai ser criado um portal da Língua Portuguesa na Internet

O novo ministro da Cultura brasileiro, Juca Ferreira, anunciou a criação, até ao final deste ano, de um “portal da Língua Portuguesa na Internet”. Ferreira anunciou esta medida após uma reunião com o seu homólogo português, José António Pinto Ribeiro, que se encontra de férias no Brasil. “Demos hoje um passo importante, na medida em que os dois ministros concordaram sobre a importância deste portal, cuja criação já foi decidida no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Vamos agora disponibilizar os meios e criar os mecanismos de realização”, afirmou o sucessor de Gilberto Gil. “Estamos totalmente de acordo e empenhados para levar a cabo este projecto de iniciativa brasileira”, garantiu por outro lado Pinto Ribeiro, em declarações à agência Lusa.
Embora esteja há pouco tempo em funções, Juca Ferreira mostrou-se satisfeito com o apoio de Portugal, dizendo mesmo que nunca as relações bilaterais no âmbito da Cultura foram tão intensas como agora: “O ministro português, ao participar hoje numa reunião do Conselho Nacional de Cultura, ressaltou a importância de trabalharmos a Língua Portuguesa como um património comum da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e a possibilidade de transformarmos este desejo em políticas que se reflictam nas acções dos Estados nacionais.” Quanto às resistências que se fizeram sentir, sobretudo em Portugal, ao novo Acordo Ortográfico, relativizou-as: “É natural que existam resistências quanto ao Acordo. Mas as diferenças entre o Português que se fala no Brasil e em Portugal não justificam mantermos a separação e o isolamento, ainda mais num mundo globalizado.”
O projecto do portal da Língua Portuguesa está aberto aos contributos dos oito países da CPLP, de forma a abranger “toda a diversidade do mundo que fala Português”. Terá um custo avaliado em um milhão de euros. Não foi esclarecido, contudo, quem assumirá esta despesa e que tipo de conteúdos serão disponibilizados no futuro site.

Gilberto Gil sobre o Acordo Ortográfico

Gilberto Gil

Em entrevista ao Expresso, feita por Sara Moura e publicada ontem no suplemento Actual, diz o agora ex-ministro da Cultura do Brasil:

Qual a sua opinião acerca do acordo ortográfico?
Costumo dizer que os portugueses são necessariamente mais ciosos da língua do que os povos da colonização e da diáspora, que criaram variações da língua e chegaram quase a produzir outras línguas. Como dizia uma canção brasileira, «o brasileiro já passou para lá do português», nós no Brasil já somos factores dinâmicos de transformação da língua portuguesa, por isso não nos preocupamos tanto com a língua no sentido das suas matrizes, dos seus elementos básicos e históricos. As línguas são organismos vivos, corpos dinâmicos que têm sistemas de absorção e de eliminação e que estão em constante transformação. Os acordos ortográficos deveriam ser perenes e estar submetidos a uma permanente vigília da língua, através de um conselho permanente, com ampla representação de especialistas e também de pessoas comuns. É preciso que todos nós estejamos atentos aos impactos das novas tecnologias na língua, como a Internet. Essa atenção não pode ser dada simplesmente sentado muito formalmente e circunspectamente em torno das mesas. É preciso que as considerações que façamos sobre as línguas sejam leves. A língua é uma coisa séria, mas também não é. A língua é tudo, é todo o arsenal de meios para a comunicação. A língua é muito mais do que uma simples escrita, do que uma maneira de falar. A língua é uma coisa muito grande, muito ampla. A língua inclui o próprio silêncio.

E quanto à petição contra o acordo ortográfico que foi entregue na Assembleia da República Portuguesa?
Quando Portugal diz que estão a propor mais mudanças para Portugal do que para o Brasil, é natural que assim seja. A língua em Portugal é histórica e necessariamente mais rígida do que nas ex-colónias. Muitas das coisas que se cogita fazer agora em Portugal já foram feitas no Brasil e noutros países. Seria, então, mais conveniente a criação de um conselho permanente, o que evitaria que os impactos e os choques das transformações fossem tão grandes. Acho que o acordo não deveria ser só ortográfico mas também fonético, porque os modos escritos são importantes, mas os modos falados talvez sejam mais importantes ainda. É toda uma polémica que compreendo, mas é levada a intensidades extremas que não são necessárias. As pessoas deveriam estar mais calmas em relação ao acordo ortográfico.

(Des)acordo ortográfico

cplp

É daqui a nada: Malaca Casteleiro (membro da Academia de Ciências de Lisboa), Vasco Graça Moura (escritor e eurodeputado), José Eduardo Agualusa (escritor) e Ivo Castro (linguista) discutem a ratificação do famoso e polémico Acordo Ortográfico, na Casa Fernando Pessoa (21h30), com moderação de Carlos Vaz Marques. O editor convidado a falar dos livros alheios é Nelson de Matos.

Sobre o acordo ortográfico

Estou completamente de acordo com o que escreve o Francisco Frazão:

“Em resumo: a não ser para ajudar ao negócio dos senhores editores de livros escolares (aí tanto os portugueses como os brasileiros estão a fazer pela vida), não percebo em que é que o gasto brutal de dinheiro e esforço que este acordo implica vai contribuir para melhorar a comunicação entre os luso-países. (…) Parece-me que a questão-base não é se Portugal é uma colónia linguística do Brasil ou vice-versa: trata-se sim de saber quem é que – ao nível da edição, mais nenhum tráfico para além desse desta vez – vai colonizar África.”

Já agora, vale também a pena ler este post.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges