Metempsicoses

As Reencarnações de Pitágoras
Autor: Afonso Cruz
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 115
ISBN: 978-989-665-015-5
Ano de publicação: 2015

Tal como a obra literária de Gonçalo M. Tavares, também a de Afonso Cruz tem várias frentes, ou ramos autónomos. Um dos mais profícuos tem sido, desde 2009, o projecto da Enciclopédia da Estória Universal, conjunto de volumes supostamente organizados por um fictício Théophile Morel. A ideia inicial da série consistia em juntar, por ordem alfabética, entradas sobre os mais variados tópicos (filosóficos ou históricos, científicos ou míticos), todas elas fantásticas, falsificadas, ou mal atribuídas. Estávamos no terreno da literatura enquanto jogo e «grande burla», em que o leitor, o burlado, está consciente dos engenhosos enganos e deixa-se enredar nos labirintos da ficção, à maneira do que acontece em muitos livros de Borges, mencionado por Morel, no comentário ao primeiro volume, como exemplo de toda uma escola de escritores «embusteiros e mistificadores».
Se os volumes seguintes mantiveram os princípios estruturais – como a ordem alfabética e as citações de autores imaginários, muitos dos quais aparecem, enquanto personagens, nos romances autónomos de Afonso Cruz –, o certo é que a Enciclopédia tem vindo a perder consistência. O segundo tomo (Recolha de Alexandria, 2012) e o terceiro (Arquivos de Dresner, 2013) revelavam menos rasgo do que o volume inicial, mas eram ainda belíssimas colecções de pequenas narrativas eruditas, saídas da imaginação algo selvagem de um leitor omnívoro, que imaginamos a devorar bibliotecas inteiras e a recombiná-las num acto de suprema liberdade criativa. Já o quarto volume, Mar (2014), se revelou mais problemático, não apenas por se circunscrever a um só tema, anunciado no título, mas porque inclui textos de maior dimensão (duas novelas curtas). No fundo, funciona como uma recolha de contos, alguns deles com interligações, quase todos bastante conseguidos. Nada temos contra o livro enquanto objecto literário que vale por si mesmo (embora não esteja entre os melhores de Afonso Cruz), mas inclui-lo na série da Enciclopédia pareceu algo forçado.
O mesmo se passa com este quinto volume, servido por belas ilustrações de Susa Monteiro. Não se discute o conceito, um «resumo poético de algumas das transmigrações que Pitágoras viveu ao longo dos séculos, desde a Mesopotâmia aos dias de hoje», mas o seu confinamento temático. Se excluirmos o facto de os textos, curtíssimos, surgirem em ordem alfabética, não há nada que justifique a inclusão na Enciclopédia – a não ser, talvez, o compromisso assumido com a editora de publicar um volume por ano. Além disso, o próprio elemento unificador, ou seja, o exercício de invenção de vidas passadas e futuras para o matemático grego que acreditava na reencarnação da alma, parece algo gratuito. É um pretexto como qualquer outro para criar uma galeria de personagens, mas sente-se que essas personagens seriam as mesmas, existiriam sempre, mesmo se o pretexto fosse diferente.
Num escritor tão talentoso e brilhante, fica a ideia de que Afonso Cruz baixou a guarda e cedeu à facilidade. A própria escrita revela mais oscilações qualitativas do que é hábito no autor. Ainda assim, o livro vale por algumas vinhetas perfeitas. Um exemplo: a história de Malgorzata Jajac, presença assídua nos outros volumes da Enciclopédia, autora que «escrevia terramotos» e cujas frases, de tão altas, se tornavam «para quem as lê, vertigem numa folha de papel». Ou esse Ioane Dolidze que «pretendia crucificar a Humanidade sem usar madeira e pregos». Como? Dizendo aos homens para «caminharem na direcção uns dos outros de braços abertos, crucificados na promessa de um abraço».

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Depois de perder tudo

guarda_chuvas

Para Onde Vão os Guarda-Chuvas
Autor: Afonso Cruz
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 620
ISBN: 978-989-687-163-5
Ano de publicação: 2013

Afonso Cruz pertence a uma casta rara de ficcionistas: os que acreditam genuinamente no poder da efabulação literária. Se isto já era notório nos seus quatro romances anteriores (sobretudo em A Boneca de Kokoschka, o seu melhor livro), mais evidente se torna ao concluirmos a leitura deste volumoso Para Onde Vão os Guarda-Chuvas. O escritor está agora no auge das suas capacidades narrativas e serve-se delas para criar um Oriente inventado, onde as histórias brotam debaixo das pedras e se entrelaçam com extraordinária coesão, como num tapete em que «o primeiro ponto não está separado do último, e se alguém mexer num deles mexe inevitavelmente nos outros».
O tapete, com os seus padrões e simetrias, com as tramas de fios de várias cores, é a metáfora mais óbvia que atravessa o romance. Ou não fosse o próprio protagonista, Fazal Elahi, um homem que enriqueceu à custa da sua fábrica de tapetes. Embora seja reconhecido pela sociedade em que se insere, num país nunca nomeado mas que supomos vizinho da Índia e do Irão, Elahi sonha ser invisível, confundir-se com a paisagem, não se distinguir de uma parede. Os modos extravagantes da mulher, Bibi, causam-lhe por isso um embaraço que persiste até ser substituído pela dor e pela humilhação, quando ela foge com outro homem. Para trás ficam as memórias de um corpo, entranhadas na casa, e um filho: pequeno diabo insolente e bravio que o pai, na impotência do seu amor extremo, não consegue educar.
Quando Salim é abatido durante uma rusga por militares americanos, ao abrir uma porta no momento errado, cria-se um vazio na vida de Fazal. De repente, ele sente que tudo se apaga, até a razão de existir. Espalha cartazes pela cidade, oferecendo toda a sua fortuna «a quem souber consolar-me pela perda do meu filho», mas apesar da interminável fila de pessoas à sua porta, ninguém lhe apresenta uma ideia que o afaste da tristeza infinita. Até que surge um hindu com a solução que parece um paradoxo: se foram americanos cristãos que lhe mataram o filho, ele deve adoptar um rapaz cristão e americano. Eis o centro do livro: a descoberta e difícil integração da criança, Isa, que há-de quebrar simbolicamente o ciclo do ódio. Ele é uma espécie de negativo de Salim, mas, por ínvios caminhos, talvez condenado à mesma sorte. Afinal de contas, no equilíbrio «desequilibrado» do universo, a felicidade e a tragédia «andam sempre de mãos dadas», e o «nó impossível de desatar» entre Bem e Mal leva a que as boas notícias sejam sempre prenúncio de uma desgraça.
A esta história principal, com epicentro na casa de Elahi, Afonso Cruz justapõe um sem número de outros episódios: relatos de lendas antigas e misérias contemporâneas; parábolas; milagres falsos; discussões teológicas; epifanias líricas; uma «descoberta do século» que se perde no incêndio de um hotel; lutas de galos; a imagem tremenda de homens que se fecham em gaiolas, todos nus e acocorados, ao sol, a acumular violência no corpo. E personagens de todo o tipo: um contrabandista russo que um dia quis fabricar «mesquitas voadoras»; dervixes que «recolhem e preservam sabedoria»; um hindu obstinado que se converte ao islamismo por amor; até figuras que vêm de outros livros do autor (como Isaac Dresner ou Gunnar Helveg).
Sendo esta uma estrutura bastante sólida, embora tendendo para uma certa lentidão narrativa, há artifícios que não passam disso mesmo: de artifícios. É o caso da ilustração de algumas cenas com fotografias de peças de xadrez ou da repetição de uma palavra («desculpe…») que forma «uma espécie de corda» através de várias páginas. Igualmente dispensável é a história infantil ilustrada que abre o livro. Trata-se de um acrescento inorgânico, que apenas relembra aos mais distraídos o talento de Afonso Cruz como ilustrador. O único apêndice relevante é o livro dentro do livro oferecido no final: os notáveis Fragmentos Persas, de autor anónimo do século I depois da Hégira, alguns dos quais já conhecíamos dos três volumes da Enciclopédia da Estória Universal.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Apenas seres humanos

cultivo

O cultivo de flores de plástico
Autor: Afonso Cruz
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 102
ISBN: 978-989-672-187-9
Ano de publicação: 2013

Numa didascália desta sua primeira peça de teatro, Afonso Cruz sugere que uma personagem tem «palavras desmedidas na boca» e «hálito de mar e de vodka». São indicações talvez pouco úteis para um encenador, mas que permitem desde logo estabelecer a atmosfera em que decorre esta aproximação aos problemas (mas também às inesperadas alegrias) de quem vive na rua, mais concretamente quatro sem-abrigo que beberam a «poção de invisibilidade» da miséria e por isso se tranformam em «fantasmas numa cidade assombrada».
Em nove cenas de assinalável economia dramática, Afonso Cruz oferece-nos retratos muito nítidos das personagens: Couraçado Korzhev, um russo que guarda mapas num saco, conchas no bolso e uma nostalgia alimentada a álcool; Jorge, um homem que um dia se fartou da hipocrisia, mandou a ordem social dar uma curva e vive em função dessa desistência (embora insista em espalhar actos aleatórios de bondade); Lili, sempre à procura das fechaduras onde entrem as chaves que lhe sobraram do tempo em que tinha um tecto; e uma «senhora de fato», disposta a fingir que finge a pobreza absoluta em que o desemprego a lançou.
Em diálogos precisos, líricos mas nunca sentimentais, estas pessoas perdidas de si mesmas, e das suas memórias, encontram-se e criam, do nada, um nexo forte e uma razão para continuar em frente. Nesta sociedade em que «é tudo plástico», até a felicidade, e se substitui «o próprio plástico por plástico», ainda há quem tenha as mãos a cheirar a flores, mesmo se roubadas no cemitério. E quem fale – lá está – com palavras desmedidas: «A pensar em nós, ninguém faz campanhas contra o abandono. Somos apenas seres humanos.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Primeiros parágrafos

«(…) Claro que eu, como leitor incansável, tinha as minhas ambições. Também queria escrever um livro. Sentava-me frequentemente em frente de uma máquina de escrever e escrevia coisas que deitava fora. Raramente ia além da segunda página. Cheguei mesmo a pensar escrever um livro só com inícios. Inícios de romances. Sempre gostei dos primeiros parágrafos dos livros e até achei que poderia ser uma boa ideia: um livro feito de inúmeros livros que não acabavam, um livro feito de começos. No fundo, um livro como a nossa vida. Sabemos mais ou menos como começou, mas não fazemos ideia de como acaba. Seria mais realista se escrevêssemos a vida só com primeiros parágrafos, pois os finais, no que respeita a nós mesmos, são uma fantasia.»

[in Enciclopédia da Estória Universal – Arquivos de Dresner, de Afonso Cruz, Alfaguara, 2013]

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Prémio da União Europeia para Afonso Cruz

Afonso Cruz acaba de ser galardoado, na Feira do Livro de Frankfurt, com o Prémio da União Europeia para a Literatura, atribuído ao romance A Boneca de Kokoschka (Quetzal, 2010), escolhido entre centenas de obras dos «mais promissores talentos europeus na área da literatura». O prémio consiste na nomeação de um Embaixador para a literatura e na eleição de um jovem talento de cada um dos 12 países participantes. A cerimónia de entrega está marcada para 22 de Novembro, em Bruxelas.

O infinito em verbetes

Enciclopédia da Estória Universal – Recolha de Alexandria
Autor: Afonso Cruz
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 111
ISBN: 978-989-672-134-3
Ano de publicação: 2012

Nas últimas páginas do primeiro volume da sua Enciclopédia de Estória Universal (Quetzal, 2009), Afonso Cruz acrescentou um comentário às dezenas de entradas, feito por Théophile Morel – apenas mais um entre os muitos escritores fictícios e avatares livrescos que a obra reunia, compondo uma razoável bibliografia imaginária. Explicava Morel que «nada neste livro pode ser considerado um facto objectivo e tudo, ou quase tudo, (…) é pura invenção», um jogo que imita os «esquemas» e «logros» típicos de certos «burlões», como Jorge Luis Borges e Milorad Pavic. Agora, no segundo volume (com o subtítulo Recolha de Alexandria), Morel assina um texto introdutório em que narra a forma como descobriu uma edição da mítica enciclopédia, há mais de quarenta anos, e oferece-nos uma preciosa chave de leitura: «Uma das mais densas entradas desta recolha passeia-se à volta de um prédio que, alegadamente, teria sido capaz de conter, em cada um dos seus apartamentos, cidades inteiras, e, nessas cidades, existiriam outros prédios, também estes capazes de conter apartamentos cheios de cidades. Não sei se o autor – ou autores – desta entrada o fez de propósito, mas esta maneira de colocar o infinito dentro de coisas finitas é precisamente o mecanismo da Enciclopédia
As «coisas finitas» são os verbetes, compostos por citações apócrifas de autores reais e inventados, na sua grande maioria já conhecidos do primeiro volume (Tal Azizi, Ari Caldeira, Masamitsu Ito, Samuel Lieber, Malgorzata Zajac) e também de outras ficções de Afonso Cruz, como os romances A Boneca de Kokoschka (Gunnar Helveg, Agnese Guzman, Moisés Kupka) e O Pintor Debaixo do Lava-Loiças (Wilhelm e Frantiska Möller). À medida que cria vasos comunicantes entre os seus livros, Afonso Cruz vai dando forma a um universo literário em expansão, aparentemente caótico na sua exuberância erudita e omnívora, mas de uma consistência e coesão admiráveis.
O mecanismo da Enciclopédia não se distingue do mecanismo da restante obra, todo ele feito de desdobramentos, ecos, perspectivas multiplicadas. O resto é pura imaginação à solta. Parábolas, histórias exemplares, caricaturas, pastiches, exercícios de ironia. A escrita, muito plástica, adapta-se camaleonicamente à natureza dos episódios, mais solenes ou mais pícaros, mais fantasiosos ou mais líricos. E o humor continua afiadíssimo: «Antigamente os sábios acreditavam que o seu pior inimigo estava dentro deles. Tinham razão, toda a razão, mas agora temos antibióticos. E nos casos mais complicados, cirurgias.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 115 da revista Ler]

Jerusalém no meio do Alentejo

Jesus Cristo bebia cerveja
Autor: Afonso Cruz
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 248
ISBN: 978-989-672-133-6
Ano de publicação: 2012

As primeiras páginas de Jesus Cristo bebia cerveja parecem indiciar uma brusca mudança de rumo na obra ficcional de Afonso Cruz. Em vez de uma fantasia erudita borgesiana (como a que encontramos nos dois volumes da Enciclopédia da Estória Universal), de uma complexa estrutura narrativa (A Boneca de Kokoschka) ou de uma sofisticada biografia imaginária (O Pintor Debaixo do Lava-Loiça), eis uma abertura quase neo-realista. No Alentejo profundo, parado no tempo, passa uma patrulha da GNR; uma velha urina na rua, agarrada à neta; ouvem-se histórias de infidelidades e de suicidas que se atiram para dentro de um poço.
Gradualmente, porém, vamos compreendendo que o autor decidiu apenas transpor para uma paisagem que conhece bem (pois vive num monte alentejano) os seus temas habituais, as suas idiossincrasias estilísticas e a sua mundividência. Afonso Cruz pode ter pedido o cenário de empréstimo a Manuel da Fonseca, mas tudo o resto é fruto da sua exuberante imaginação. A começar pela figura de uma milionária inglesa que comprou a aldeia inteira e a restaurou, mulher de porte aristocrático que dorme numa cama com um dossel esculpido na ossada de um cachalote. Ao acordar, Miss Whittemore «bebe um chá de jasmim-pérola importado de Singapura, com duas gotas de leite: uma gota de leite de burra e outra de leite de porca» – e não é essa a maior das suas extravagâncias. Gosta, por exemplo, de discutir tudo e mais alguma coisa, à refeição, com um sábio hindu, um feiticeiro africano e um materialista ateu, contratados especificamente para esse fim.
Esses debates, cujo arco é tão amplo que abrange de uma só vez as premissas do budismo, a cabeça de Berkeley (com «todo o universo» lá dentro) e a importância do ADN (o «ácido impronunciável» que codifica em quatro letras apenas – A, T, C, G – a essência dos seres vivos), levam a narrativa para o território preferido de Afonso Cruz: o das ideias. Aliás, todos os pretextos são bons para evocar pensadores de outros séculos. Assim surge uma parede que se enche subversivamente de versos do epicurista Diógenes de Oenoanda (pintados pela calada, num acto de puro «vandalismo filosófico»), ou até uma mulher que fica sexualmente excitada ao ouvir citações de Nicolau de Cusa.
O materialista ateu, «operário da Ciência» nas suas próprias palavras, é o septuagenário professor Borja, caricatura do sábio ostracizado e algo confuso, incapaz de lidar com o facto de ninguém lhe dar a importância de que se julga merecedor. Quando abandona o seu isolamento, de tremenda solidão e desvario teórico, torna-se o principal impulsionador do projecto que vira do avesso a aldeia. Ao perceber que o grande desgosto da avó de Rosa, a rapariga por quem se apaixonou, é morrer sem ter ido à Terra Santa, engendra uma farsa monumental em que se finge tudo: a aldeia passa a ser Jerusalém; uma barragem, o mar Morto; o bar de strip em forma de avião, uma aeronave capaz de voar; e os habitantes mascarados, judeus ortodoxos com kipah e caracóis nas patilhas. Se a velha Antónia acredita na encenação – durante a qual se defende que Jesus Cristo bebia cerveja, o «pão líquido», acessível a todos, em vez de vinho, a bebida dos ricos e dos romanos, os invasores – isso já é outra história.
Afonso Cruz é quase perfeito na caracterização das personagens (de um PIDE, diz-se que era «um homem baixo, também fisicamente»), na articulação das histórias e na voluptuosidade da escrita, pródiga em aforismos e achados poéticos. O único devaneio meta-literário (a inclusão, num livrinho à parte, do breve western que Rosa cita amiúde) também faz todo o sentido. Lamenta-se apenas que o final algo frouxo, sobre o triste destino da protagonista depois de ir para Lisboa, não esteja à altura do grande romance que “Jesus Cristo bebia cerveja” é.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Seis verbetes de Afonso Cruz

BABEL

A maldição de Babel não foi os homens desentenderem-se por falarem línguas diferentes, mas sim desentenderem-se falando a mesma língua.
(Dovev Rosenkrantz)

***

(A) CONTRADIÇÃO DO SOBREIRO

A vida descreve-se pela contradição do sobreiro: o jovem não tem paciência para esperar meio século para que a árvore cresça e seja adulta. Por isso, não a planta. Quando chega a velho e, finalmente, tem paciência para esperar, planta-a, mas já não tem tempo para a ver crescer.

***

CORVOS

Aos homens que tentavam sedentarizar-se, os Ubitatã cortavam-lhes os pés: «se não caminham, não precisam deles». E davam os pés a comer aos corvos.
O rei da Assíria, Sardanapalo, pelo contrário, cortava os pés dos nómadas para que estes se tornassem sedentários. Depois, dava-os a comer aos corvos.
Em ambos os casos, os corvos é que ficavam a ganhar.

***

LER

Podem não existir livros a mais, mas existe tempo a menos.
(Wilhelm Möller)

***

ÓCIO

O ócio não é o contrário de trabalho. A felicidade é que é o contrário de trabalho.
(Marian Bibin)

***

(RELAÇÃO ENTRE O) TELHADO E A DÚVIDA

Por mais andares que uma casa tenha termina sempre no telhado. É assim a vida do homem: por mais certezas que tenha, termina sempre na dúvida.
(Malgorzata Zajac)

[in Enciclopédia da Estória Universal – Recolha de Alexandria, de Afonso Cruz, Alfaguara, 2012]

As palavras são tudo

O Pintor Debaixo do Lava-Loiças
Autor: Afonso Cruz
Editora: Caminho
N.º de páginas: 175
ISBN: 978-972-21-2418-8
Ano de publicação: 2011

Em 1940, os avós de Afonso Cruz acolheram em casa, na Figueira da Foz, um pintor eslovaco. Temendo as rusgas da polícia política a meio da noite, colocaram-no a dormir por baixo do lava-loiças, atrás da lenha. «Julgo que todos nós, olhando para a vida dos nossos antepassados, encontramos histórias que dariam histórias», lembra Afonso Cruz. Isto é, histórias verdadeiras que se podem transformar em literatura. Neste caso, o acto de coragem dos avós, ao esconderem um refugiado que lhes entrou um dia de rompante na loja de fotografia, levou-o a escrever O Pintor Debaixo do Lava-Loiças, um romance muitíssimo inventivo e bem escrito – digno sucessor do magnífico A Boneca de Kokoschka (Quetzal, 2010).
À partida, o que Afonso Cruz conhecia do pintor eslovaco era quase nada. Tinha um nome (Ivan Sors), o intervalo da sua vida (1895-1950), os quadros que deixou na casa dos protectores figueirenses (uma Crucifixão e um retrato da avó, vestida de minhota), mais uns vagos factos biográficos soltos. Isto deu-lhe toda a liberdade para efabular. Alterado o nome próprio de Sors para Jozef, o pintor transformou-se então num ser absolutamente ficcional, que o romancista pôde moldar à vontade. Por exemplo, fazendo dele o filho de um mordomo demasiado sincero, incapaz de compreender metáforas, e de uma engomadeira apreciadora dos gestos repetidos, das rotinas («os sapatos são bons quando não se sentem»).
Logo na infância, passada na casa do patrão dos pais (o coronel Möller, cuja autoridade não era posta em causa pelo facto de andar com flores no cabelo), Jozef descobre que a sua vocação é «desenhar o mundo». Ele olha para as coisas como se fizesse o pino, pensa através dos traços no papel e gosta de deixar os desenhos inacabados para que eles se abram «para o infinito». Abomina a «dispersão circular» e quer muito crescer para cima, vertical, sem desvios. A natureza não o ajuda, ao colocar-lhe no caminho tentações como a vizinha Frantiska, por quem sente um amor altíssimo, embora «desprovido de corpo». À excepção do momento em que a empurra no baloiço, nunca se tocam. Em vez disso, Jozef procura que a sua sombra beije a sombra da rapariga, contenta-se em encostar os lábios ao pedaço de vidro que ela antes embaciou, entra em êxtase quando consegue respirar ao lado dela, com a mesma cadência.
Depois, sucedem-se episódios. Tragédias familiares. Pessoas que morrem por causa de uma figura de estilo. A I Guerra Mundial, vista de um balão pairando sobre as trincheiras. Um Museu das Coisas Inúteis. Colarinhos assimétricos. Uma orelha arrancada. Cadernos cheios de desenhos (um só com olhos abertos, outro só com olhos fechados). O tempo a transformar tudo em areia. A mãe abandonada num hospício. Ida para os EUA. Regresso à Europa. Uma espécie de cegueira (o olhar ofuscado por sombras). Quase fim da linha em Lisboa, no meio de um «povo fatal».
Afonso Cruz narra tudo isto com vigor e precisão, em capítulos curtos. O estilo é o que já lhe conhecíamos: poético, filosófico, aforístico («Se está esticado é para acusar, se se dobra é para disparar. Eis o indicador»). No manifesto gozo com que trabalha a linguagem, nota-se sobretudo neste autor a convicção de quem acredita firmemente no poder imenso, quase mágico, da literatura: «As palavras são tudo. Olha: a palavra frio desce. A palavra calor sobe. A palavra ninho tem ovos lá dentro e um pássaro a dormir. Há quem não queira que confundamos as palavras com as coisas, que o mapa não é o território, mas as palavras é que são as coisas.»

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 104 da revista Ler]

Os homens escavam para fazer crescer

«Dali de cima viam as trincheiras que pareciam cobras, e de vez em quando morriam dezenas de soldados. Ou centenas. Ou milhares. Dali de cima, sem o cheiro das trincheiras, sem o sangue, sem os gases, sem o fumo e a lama e sem o pó, nada parecia condenável. Eram pontinhos, coisas pequeninas, que apareciam e desapareciam. Aquela era a visão de Deus. Se Ele se baixasse, veria outras coisas.
Ao final do dia foram atacados pela aviação inimiga. Soucek, quando ouviu os motores a aproximarem-se, levantou-se e pulou para fora do balão. O pesado para-quedas abriu de seguida. Sors ficou a vê-lo cair, sem reagir. Quando o avião mais próximo disparou uma primeira rajada sobre o balão, Sors ainda estava agarrado às cordas. O fogo alastrou de imediato e um pedaço de pano a arder passou-lhe pela cara. Sors soltou as cordas onde se agarrava e caiu em direcção ao chão. Abriu o para-quedas com uma calma que não julgava possuir e reparou mais uma vez nas trincheiras lá em baixo, escavadas aos esses como um bêbado.
Os homens escavam para fazer crescer. Desde casas a couves. Tudo nasce de buracos. A criatividade prefere a penumbra do interior dos nossos cérebros. Os fetos preferem o útero. Mas não é só a vida que gosta do invisível, a morte também é feita de coisas que não se veem, de emboscadas, de disfarces. E de buracos como as trincheiras. Esses buracos nunca servirão para fazer alicerces de edifícios. Porém, serviram para Sors sonhar com Františka, com beijos que sabem a janelas embaciadas.»

[in O Pintor Debaixo do Lava-Loiças, de Afonso Cruz, Caminho, 2011]

Um jantar em 2011

Todos os anos, em Dezembro, a revista Time Out Lisboa escolhe uma dúzia de figuras com as quais gostaria de jantar no ano seguinte. É uma forma de destacar nomes que ainda não são muito conhecidos do grande público mas que podem vir a dar cartas nas respectivas áreas de actividade. Este ano, dos 11 escolhidos, um é escritor: Afonso Cruz, autor de Enciclopédia de Estória Universal e de A Boneca de Kokoshka (ambos editados pela Quetzal).

Grande Prémio do Conto APE para Afonso Cruz

O escritor Afonso Cruz (também conhecido pelas suas facetas de músico e ilustrador) acaba de ganhar, com toda justiça, a edição deste ano do Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, promovido pela Associação Portuguesa de Escritores com o apoio da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão. O prémio de 7.500 euros foi atribuído por unanimidade ao livro Enciclopédia da Estória Universal (Quetzal). Do júri fizeram parte Clara Rocha, José António Gomes, José Ribeiro Ferreira e Fernando Miguel Bernardes (coordenador).
Sobre a obra vencedora, destacada no meu balanço de 2009, escrevi o seguinte: «Com a sua inabalável lógica interna e os seus requintes estilísticos, esta Enciclopédia da Estória Universal é para mim o mais divertido, surpreendente e estimulante dos livros de ficção publicados este ano por autores portugueses.» Pelos vistos, não exagerei.

Afonso Cruz no Brasil

A LeYa Brasil vai editar em breve a novela juvenil Os Livros que Devoraram o Meu Pai, de Afonso Cruz, sobre a qual escrevi aqui.

No labirinto da literatura

Os livros que devoraram o meu pai
Autor: Afonso Cruz
Editora: Caminho
N.º de páginas: 128
ISBN: 978-972-21-2095-1
Ano de publicação: 2010

Tal como Elias Bonfim, protagonista de Os livros que devoraram o meu pai, Afonso Cruz acredita que não somos feitos de «a-dê-enes e códigos genéticos, nem de carne e músculos e pele e cérebros», mas sim de histórias. A biologia é importante, claro, mas é a literatura que lhe dá um sentido. E se o primado do literário já regulava a ordem narrativa do livro anterior (Enciclopédia de Estória Universal, 2009), perdura de forma ainda mais explícita nesta engenhosa novela juvenil.
Quando faz 12 anos, Elias Bonfim recebe da avó não apenas a chave do sótão onde está fechada a biblioteca do pai, Vivaldo, mas também a verdade sobre o seu desaparecimento. Funcionário de uma repartição de finanças, ele não morreu de enfarte, como sempre lhe haviam dito. Leitor compulsivo, entrou foi dentro de um livro de onde nunca mais saiu. E é por esse mesmo livro-porta, A Ilha do Dr. Moreau, de H. G. Wells, que o filho, nascido órfão, penetra no labirinto da literatura à procura do progenitor, qual Telémaco seguindo a trajectória paterna (com um cão chamado Argos e tudo), não de ilha em ilha, mas de livro em livro. As pistas, encontra-as Elias em obras e personagens de Stevenson, Dostoievski e Ray Bradbury. Pelo caminho, o rapaz aprende muita coisa – incluindo o significado de palavras difíceis, como «hirsutismo» e «anagnosta» –, mas sobretudo confronta-se com personagens que são paradigmas negativos do género humano, seja por incapacidade de distinguir o bem do mal (Mr. Hyde), seja por não saberem lidar com a sua consciência (Raskolnikov).
O fundo moral desta narrativa iniciática cumpre-se depois na história paralela (a da vida real), em que um colega de escola obeso (Bombo), inventor de parábolas orientais, acaba por ser vítima do «lado escuro» de Elias. A articulação entre estes dois planos do livro, porém, está longe de ser satisfatória. É mesmo o seu calcanhar de Aquiles. Demasiado brusca e simplista, a tragédia de Bombo é a mera demonstração a traço grosso do que a aventura livresca de Elias sugere em filigrana. E torna-se, à sua maneira, o equivalente da raiz descrita na página 87: a parte da árvore que «a impede de voar como os pássaros».

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no número 90 da revista Ler]

Chapéus & Cadeiras

Hats & Chairs, o novo e excelente disco dos The Soaked Lamb (banda de blues de que faz parte Afonso Cruz, autor de Enciclopédia da Estória Universal), é hoje oficialmente lançado em Lisboa, com um concerto gratuito, a partir das 22h00, no Jardim 9 de Abril, às Janelas Verdes, junto ao Museu Nacional de Arte Antiga.
Aproveitem.

Pássaro falhado

«Para uns, a raiz é a parte invisível que permite à árvore crescer. Para mim, a raiz é a parte invisível que a impede de voar como os pássaros. Na verdade, uma árvore é um pássaro falhado.»

[in Os livros que devoraram o meu pai, de Afonso Cruz, Caminho, 2010]

‘Enciclopédia da Estória Universal’ (booktrailer)

Um pequeno filme precioso para um pequeno livro precioso.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges