O que nos dizem as casas

arquitectura

A Arquitectura da Felicidade
Autor: Alain de Botton
Título original: The Architecture of Happiness
Tradução: Lucília Filipe
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 307
ISBN: 978-972-203-932-1
Ano de publicação: 2013

Nas margens de um lago na Irlanda do Norte, em 1767, o visconde Bangor e sua mulher, Lady Anne Bligh, decidiram construir uma casa grande, digna do seu estatuto. O problema é que não chegavam a acordo sobre o estilo arquitectónico a adoptar em Castle Ward. O visconde era um classicista: queria «janelas salientes, colunas embutidas, proporções palladianas e janelas encimadas por frontões triangulares com mísula». Já Lady Anne admirava o estilo gótico: «telhados com ameias e pináculos, janelas ogivais e quadrifólios». Para sair do impasse, o arquitecto do casal sugeriu uma solução de «engenho salomónico»: dividir a casa ao meio. E assim surgiu a estranha quimera que ainda hoje pode ser vista em Stragford Lough: fachada em puro estilo clássico; alçado das traseiras a lembrar um palácio medieval (compromisso que se prolonga no interior).
Esta é uma das dezenas de histórias curiosas a que Alain de Botton recorre para ilustrar, em texto e imagens, a sua abordagem à evolução da arquitectura, sempre do ponto de vista do filósofo que procura entender de que modo as construções humanas reflectem e condicionam conceitos abstractos difíceis de definir, como a «beleza» e a «felicidade». Todos procuramos moldar os lugares em que vivemos, mas o contrário também acontece: «Uma sala feia pode cristalizar qualquer suspeita isolada sobre a imperfeição da vida, enquanto um cenário iluminado pelo sol com ladrilhos de calcário cor de mel pode dar apoio ao que de mais esperançoso existe em nós.» Em última análise, resume Alain de Botton, «a tarefa da arquitectura é fazer-nos ver quem podíamos idealmente ser». Em muitos casos, a beleza do espaço em que vivemos empurra-nos para o aperfeiçoamento ético. Mas nem sempre. As casas belas não nos tornam necessariamente melhores, porque «a arquitectura pode muito bem conter mensagens morais, mas simplesmente não tem qualquer poder para as fazer cumprir». No fundo, os falhanços da arquitectura expressam a «mesma tendência que, noutras áreas, nos levarão a casar com a pessoa errada, a escolher profissões inadequadas e a marcar férias malsucedidas: a tendência para não entender quem somos e o que irá satisfazer-nos».
John Ruskin escreveu que esperamos pelo menos duas coisas das construções humanas: que nos abriguem e que «nos falem». É justamente esta eloquência da arquitectura que Alain de Botton procura entender e descodificar, percorrendo o mundo e os séculos para «ouvir» o que as casas têm para dizer e o modo como falam «de democracia ou de aristocracia, de simplicidade ou de arrogância, de bom acolhimento ou de ameaça, de uma simpatia pelo futuro ou de uma nostalgia do passado». Pelo caminho, estabelece nexos surpreendentes (por vezes com quadros ou obras literárias), detém-se na psicologia do gosto e no utilitarismo dos engenheiros, enumera os princípios da ordem arquitectónica e reincide numa embirração mal escondida para com Le Corbusier.
Alain de Botton é eficaz a narrar factos invulgares (o obelisco de nove metros mandado erguer por uma condessa, em memória de um porco «ao qual não hesitou chamar verdadeiro amigo»; ou a aldeia holandesa falsa construída no Japão, com tulipas, canais e moinhos de vento), mas muitas das ligações que estabelece são superficiais, frívolas ou simplesmente arbitrárias – veja-se a comparação forçadíssima entre os caixilhos de uma janela e uma bailarina de Degas. Apesar de um estilo solene (por vezes a resvalar para o pomposo) e demasiado reiterativo, o livro funciona bem como introdução ligeira à arquitectura. Já como teorização filosófica, que devia ser o ponto forte do autor, deixa bastante a desejar.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Diz Alain de Botton:

«The nirvana would be if the questions raised by Oprah Winfrey would be answered by the faculty at Harvard»

O escritor do Terminal 5

Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow
Autor: Alain de Botton
Título original: A Week at the Airport – A Heathrow Diary
Tradução: Manuel Cabral
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 143
ISBN: 978-972-20-4002-0
Ano de publicação: 2011

Em A Arte de Viajar (2002), Alain de Botton reuniu uma série de ensaios sobre a experiência da viagem tal como foi vivida por vários artistas – de Baudelaire a Van Gogh, de Flaubert a Hopper –, quase sempre em irónica sobreposição com as suas próprias deambulações pelo mundo. Uma Semana no Aeroporto, pelo contrário, aborda o que acontece imediatamente antes, ou imediatamente depois, desse tempo suspenso em que nos deslocamos para outra geografia – neste caso dentro da fuselagem de um avião, lá nas alturas da estratosfera.
Convidado pela empresa que gere o aeroporto de Heathrow para ser «escritor-residente» durante uma semana, com acesso a todas as áreas e o compromisso de redigir um livro in loco, numa secretária instalada a meio do novo Terminal 5, de Botton acabou por aceitar a «invulgar oferta», assegurando que lhe deram liberdade total para criticar o que lhe apetecesse. Muito ao seu estilo (bem humorado, elegante, puxando ao erudito), o autor descreve os vários espaços deste paradigma do «não-lugar»: o quarto de hotel com ementas líricas, comparadas provocatoriamente aos haikai de Bashô; as pistas; os hangares; a «sala multifés»; o lounge de luxo; o controlo de segurança; a fábrica de catering (sem janelas); os 17 quilómetros de tapetes rolantes para o transporte de malas; o serviço de imigração; os locais onde os passageiros reencontram a família ou se despedem.
Enquanto reportagem, é um trabalho algo previsível, que não coloca nada em causa. Enquanto trabalho literário, pode dizer-se que não desonra. Fica porém uns bons furos abaixo do que Alain de Botton já fez noutros livros.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A fetichização dos escritores (pelos leitores)

No The Observer, o escritor Alain de Botton reflecte sobre essa estranha necessidade que tanta gente demonstra de conhecer, em carne e osso, os seus autores preferidos:

«Since 2 April, when my new book came out, I’ve hardly spent more than two days at home at a stretch. I’ve been to Australia, Singapore, Hong Kong, Canada, the US, France, Italy and the Netherlands – all in the name of promoting my book. The audiences have been terrific, so I don’t want to sound ungrateful, but it does seem bizarre how much people want to see authors in the flesh. The decline in the oral tradition stemmed from a sensible realisation that you didn’t really need a person to be singing his poem to you around the campfire. You could just read his book. But this insight, greatly facilitated by the invention of printing, is in danger of being lost.
People today want to witness authors in front of them and find their books to be far more desirable if they carry a signature on them. Only psycho-analysis and ethnography seem capable of explaining a phenomenon like the modern literary festival, behind which there seems to lie an archaic suspicion of printing and a desire to see that the words on the page were truly put there by a human, whose hand one wants to physically witness moving across paper.»

O artigo completo pode ser lido aqui.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges