Carlos Fuentes sobre Albert Camus

«Hay una tensión permanente, nos advierte Camus, entre lo inevitable y lo injustificable. Es posible que el fin justifique los medios, ¿pero quién justifica el fin mismo? Esta gran cuestión política no la resuelve Camus. La plantea. Lo hace, claro, a partir de su condición de escritor-periodista, ensayista, novelista, autor dramático. Capturado —como todos— entre la voluntad de ser moral y todo lo que le impide serlo. Entre las ganas de ser dichoso y la imposibilidad de acceder a una dicha plena. Camus recibió el Premio Nobel de Literatura en 1957, a los 44 años, como si Estocolmo previese, apresurada, la breve vida del escritor. Porque su distancia de lo que entonces pasaba por ortodoxia (de derecha o de izquierda) le valió toda suerte de epítetos. Boy scout, moral de la Cruz Roja, escritor edificante, santo sin Dios, experto en coartadas, traficante de amigo, ahora enemigo, Sartre: “Camus escribe demasiado bien”. Camus respondería que no se gana la justicia condenando a varias generaciones a la injusticia. Que existen la belleza y los humillados: ¿cómo serle fiel a ambos? Que más vale no agradar que doblegarse para quedar bien. Que la fama es un entierro prematuro porque niega el futuro y el derecho que todos tenemos de cambiar. Que no importa el tiempo que nos conceda la vida, sino cómo empleamos el tiempo. Y que no nos podemos separar de la historia, pero la podemos enfrentar críticamente. Muy discutida fue la posición de Camus respecto a su patria natal, Argelia. El autor se ganó severos ataques por recordar que Argelia no era sólo musulmana, que no debía ceder ante los fanáticos y que al cabo era necesario vivir juntos y en paz o morir juntos y en guerra, acentuando la soledad de argelinos y franceses, así como la desgracia de ambos.
Superada por la historia tal disyuntiva, cabría hoy hacer la misma pregunta a israelíes y palestinos, pues la oportunidad de convivir, entender y abandonar el odio y la violencia son opciones constantes de la historia y la historia, nos recordó Albert Camus, es la tensión entre lo inevitable y lo insustituible.»

Hoje, em artigo de opinião no Babelia, do El País.

Sobre ‘Os Justos’

«Em Fevereiro de 1905, em Moscovo, um grupo de terroristas, pertencendo ao partido socialista revolucionário, organiza um atentado à bomba contra o Grão-Duque Serge, tio do Czar. Este atentado e as circunstâncias singulares que o precederam e seguiram constituem o tema de Os Justos. Tão extraordinárias que possam parecer, de facto, algumas das situações desta peça, não obstante, elas são históricas. Isto não quer dizer, aliás vê-lo-emos, que Os Justos seja uma peça histórica. Mas todos os personagens existiram realmente e comportaram-se como o descrevo. Tratei apenas de tornar verosímil aquilo que já era verdade.
Até mantive ao herói de Os Justos, Kaliayev, o nome que foi realmente seu. Não o fiz por falta de imaginação, mas por respeito e admiração pelos homens e mulheres que na mais impiedosa das tarefas, não puderam ficar curados do seu coração. Foram feitos progressos desde então, é verdade, e o ódio que pesava sobre estas almas excepcionais como um sofrimento intolerável tornou-se um sistema confortável. Mais uma razão para evocar estas grandes sombras, a sua justa revolta, a sua fraternidade difícil, os esforços desmedidos que fizeram para concordarem com o homicídio – e para deste modo afirmar onde está a nossa fidelidade.»
Albert Camus

O Dia Camus no CCB

O Centro Cultural de Belém acolhe hoje uma homenagem a Albert Camus, a pretexto dos 50 anos da sua morte. Eis o programa (todas as iniciativas decorrem na Sala Almada Negreiros, com entrada livre):

15h00 – “Camus e Sartre: evocação de uma amizade”: leitura de um artigo de Sartre, publicado depois da morte de Camus, por António Mega Ferreira

15h15 – O Estrangeiro (1942) – Excertos do livro, lidos por Pedro Lamares

15h45 – O Mito de Sísifo (1942) – Leitura de O Homem Absurdo,
O Donjuanismo e O Mito de Sísifo, por António Mega Ferreira

17h15 – O Exílio e o Reino (1957) – Leitura de Jonas, por Nuno Carinhas

17h45 – Intervalo

18h – Les Justes (1949) – Projecção do filme realizado a partir da encenação
de Guy-Pierre Couleau, Athénée, Théâtre Louis-Jouvet, Paris 2007

Gonçalo M. Tavares sobre Albert Camus

Para um hors-série dedicado a Albert Camus, nos 50 anos da sua morte, a revista Télérama encomendou um texto ao escritor português Gonçalo M. Tavares. A prosa, intitulada A mãe e os três filhos, foi traduzida por Dominique Nédellec, que dela diz ser «uma espécie de alegoria camusiana muito violenta e estranha». O número especial da revista pode ser encomendado aqui, por 7,90€.

O ano Camus

Fez ontem 50 anos que morreu Albert Camus. Por cá, a efeméride passou praticamente despercebida, mas em França não se fala noutra coisa, com o nome do autor de O Estrangeiro a servir de mote quer a intelectuais de todos os quadrantes, quer aos oportunismos retóricos de Sarkozy. Para Grégoire Leménager, do Nouvel Obs (revista que dedica esta semana ao autor nascido na Argélia um dossier especial), 2010 está condenado a ser um ano camusiano, porque, cinco décadas após a sua morte, Camus «conhece uma apoteose que, para um escritor, vale todos os panteões do mundo». Isto é, em vez de jazer nas bibliotecas, voltou a invadir as livrarias. E a ser discutido, levado à cena, homenageado, citado, etc. Como todas as beatificações literárias, esta também terá os seus aspectos perversos, os seus abusos e apropriações ilegítimas. Mas se houver mais gente a (re)descobrir um autor que parecia um pouco esquecido, o burburinho não terá sido em vão.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges