O adeus de Albert Cossery

Cossery por PV

Por Pedro Vieira.

Sobre Cossery

«Il y a encore quelques jours, on le croisait dans les rues du quartier de Saint-Germain-des-Prés, à Paris. La silhouette de plus en plus maigre, la démarche de plus en plus lente, mais toujours habillé comme un seigneur, pochette colorée à la veste, tête droite, oeil espiègle.
Il n’avait jamais interrompu son “Cossery Tour”, commencé il y a plus de soixante ans, cette promenade d’avant sieste qui le menait de l’une à l’autre des terrasses de café du quartier, entre Dalloyau (ex-Pons), la brasserie Lipp, Le Café de Flore et Le Chai de l’Abbaye, pour y mater le ciel et les jolies filles. Il retournait ensuite à La Louisiane, le modeste hôtel de la rue de Seine où il avait élu domicile depuis toutes ces longues années. C’est là, dans sa petite chambre surencombrée par le temps, qu’Albert Cossery s’est éteint tranquillement, dimanche 22 juin, à l’âge de 94 ans.»

Este é o início do texto necrológico que Marion Van Renterghem publicou hoje, no Le Monde, sobre Albert Cossery. A continuação pode ler-se aqui e não resisto a transcrever o final:

«Les dix dernières années de sa vie, donc, Albert Cossery n’écrivait plus, ne parlait plus. Il ne faisait que penser, rêver, observer, faire la sieste et déambuler dans les rues de Saint-Germain-des-Prés, de sa démarche désarticulée, souvent au bras d’une jeune amie blonde. Etre vivant le réjouissait, son propre silence le comblait, il était heureux. On lui avait demandé un jour s’il s’ennuyait. Du temps où il parlait encore, il avait répondu : “Je ne peux pas m’ennuyer, je suis avec M. Cossery.“»

Albert Cossery (1913-2008)

Albert Cossery

Morreu o escritor da preguiça. Uma preguiça langorosa e magnífica.
Eis os parágrafos finais de dois dos seus sete romances, todos editados pela Antígona:

«Si Khalil ouve esta voz que se ergue na noite. É a voz de um povo que desperta e que cedo vai estrangulá-lo. Cada minuto que passa o separa da sua antiga vida. O futuro está cheio de gritos. O futuro está cheio de revoltas. Como represar este rio transbordante que vai submergir as cidades? Si Khalil imagina a casa desabada sob o pó dos escombros. Vê os livros aparecer por entre os mortos. Pois nem todos serão mortos. É preciso contar com eles, quando se erguerem com os seus rostos sangrentos e os seus olhos de vingança.»

[in A Casa da Morte Certa, trad. de Ana Margarida Paixão, 2001]

«Quando Samantar saiu da gruta, o sol levantava-se por cima do mar, fazendo explodir debaixo dos seus raios mágicos todas as cores da paisagem. O verde dos palmeirais, o ocre das extensões arenosas, o azul do mar, apareciam em todo o esplendor da sua frescura primitiva. Era quase um chamamento sensual, uma exortação ao amor que Samantar sentiu com uma indizível felicidade. Então, fez vaguear o olhar maravilhado por toda aquela beleza cintilante debaixo do sol, como uma oferenda àquele que simplesmente quer viver e que a ambição de um homem quase destruíra.»

[in Uma Ambição no Deserto, trad. de Sarah Adamopoulos, 2002]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges