Quatro derrotas

Os Girassóis Cegos
Autor: Alberto Méndez
Título original: Los Girasoles Ciegos
Tradução: Armando Silva Carvalho
Editora: Sextante
N.º de páginas: 182
ISBN: 978-989-8093-20-2
Ano de publicação: 2009

Ao publicar o primeiro livro em 2004, aos 63 anos, Alberto Méndez, que durante décadas trabalhara em muitas das principais editoras espanholas, como que saiu de um certo limbo auto-imposto. Exigente com a escrita alheia, era ainda mais exigente com os seus próprios textos e por isso tardiamente se aventurou na ficção com Os Girassóis Cegos, um conjunto de quatro relatos sobre a Guerra Civil de Espanha e as suas consequências. Méndez morreria nesse mesmo ano e já não assistiu à consagração da sua obra pela crítica literária e pelos prémios (o da Crítica e o Nacional de Narrativa, ambos atribuídos em 2005).
Em cada um dos contos, de prosa muitíssimo cuidada mas por vezes algo rígida, Méndez mostra como no pós-guerra (1939-42) ainda só se ouvia falar «a língua da espada ou o idioma da ferida». É a essa lógica maniqueísta que as personagens tentam fugir, agarrando-se a ilusões que apenas acentuam o escândalo das suas tragédias. Na primeira história, o capitão Alegría, fascista por convicção e por natureza, entrega-se aos defensores republicanos de Madrid, na véspera da entrada das tropas de Franco na capital, por não querer ser cúmplice de uma «Vitória» (com V maiúsculo) que aspirava sobretudo à aniquilação do inimigo. Incompreendido pelas duas partes, que só vêem uma rendição estúpida ou uma traição cobarde no seu gesto pleno «de subtilezas e matizes morais», Alegría acaba esmagado pela «linguagem dos mortos», como os protagonistas dos outros três contos: o rapaz em fuga pelas montanhas das Astúrias, cuja namorada morre durante o parto e o deixa só, na luta vã para salvar o filho recém-nascido do frio, da fome e dos lobos; o professor de violoncelo Juan Senra, republicano que adia uma condenação à morte, ao transformar em heróica a memória do odioso e assassinado filho do seu juiz; e Ricardo, o homem que vive escondido num armário, até dar em louco com o cerco libidinoso que um diácono começa a fazer à sua mulher, suposta viúva.
Por existirem subtis imbricações entre as quatro histórias, não é exagerado dizer que Alberto Méndez escreveu um romance sobre o lastro mais negro da Guerra Civil: esse sentimento de uma brutal derrota colectiva de que a Espanha, sete décadas depois, ainda não se libertou totalmente.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 79 da revista Ler]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges