O livreiro utópico

Na próxima semana, talvez
Autor: Alberto Nessi
Título original: La prossima settimana, forse
Tradução: Simonetta Neto
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 166
ISBN: 978-972-25-2271-7
Ano de publicação: 2011

Nascido num vale do cantão de Ticino (Suíça), em 1840, Giuseppe Fontana é o arquétipo da figura romanesca. Relojoeiro e operário humanista, desde sempre escandalizado com as injustiças sociais e defensor dos direitos dos trabalhadores, revolucionário nas ideias e nas acções, acabou por vir parar a Lisboa, onde durante o dia trabalhava na Livraria Bertrand do Chiado e à noite mergulhava na boémia ilustre do Cenáculo de Eça e Antero de Quental, o poeta magnético que o descreveu numa penada: «muito alto, muito magro, sempre vestido de preto». José, como lhe chamavam por cá, foi ainda um dos organizadores das Conferências do Casino (1871) e fundador do Partido Socialista Português (1875). A 2 de Setembro de 1876, suicidou-se com um tiro, pondo fim ao suplício da tuberculose.
Eis, em suma, uma daquelas histórias que exigem ser transformadas em literatura. E como nenhum escritor português se chegou à frente, Alberto Nessi, um suíço que mora a dois quilómetros da aldeia onde Fontana nasceu (Cabbio), tomou conta do recado em Na Próxima Semana, Talvez (Bertrand), um romance biográfico de forte pendor poético. Ao longo do relato, sobrepõem-se três planos narrativos: o principal acompanha os últimos cinco anos da vida de Fontana, das Conferências do Casino até ao momento em que decide roubar à doença a decisão de morrer; o segundo consiste nas memórias de infância e juventude, resgate do seu percurso de vida, arrancado às «sombras do passado»; e o último coloca o próprio objecto da história a dirigir-se ao narrador, a partir de um além que tudo abarca.
No fundo, Nessi sabe que nunca alcançamos a verdadeira complexidade de um homem, por muito que o observemos de vários ângulos. Ainda assim, fixa com delicadeza e respeito os belos sonhos e visões de quem tão romanticamente quis mudar o mundo – este mundo que um século e meio depois continua a precisar de ser mudado.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 103 da revista Ler]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges