Literatura de aeroporto

Coisas que Nunca Aconteceriam em Tóquio
Autor: Alberto Torres Blandina
Título original: Cosas que nunca ocurrirían en Tokio
Tradução: Francisco Guedes
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 191
ISBN: 978-972-564-929-9
Ano de publicação: 2011

Com as suas zonas de partidas e chegadas, longos corredores, imensas salas de espera, os aeroportos são o apogeu do conceito de «não-lugar», tal como o teorizou Marc Augé. Terra de ninguém entre o local onde se está e o sítio para onde se vai, funcionam como uma suspensão do tempo e da identidade, um território onde, reduzidos à condição de passageiros, de seres em trânsito, podemos presumir vidas imaginárias, para nós mesmos ou para os nossos desconhecidos e absortos companheiros de viagem.
É a este exercício que se entrega, com galopante avidez e criatividade, o protagonista do romance Coisas que Nunca Aconteceriam em Tóquio, de Alberto Torres Blandina. Empregado de limpeza à beira da reforma, Salvador Fuensanta assiste há muitos anos ao fluxo de pessoas num aeroporto e mete conversa com toda a gente, partilhando memórias próprias e histórias alheias – a maioria das quais dignas de um episódio de A Quinta Dimensão. Ele tanto lembra o homem que criou um poeta de culto, finlandês e fictício, como o matemático americano capaz de provar, apoiado em cálculos estatísticos, que um acontecimento improvável lhe roubou literalmente a vida. Perdido no labirinto da sua «incontinência verbal», Salvador alerta para o código que transforma os gestos femininos mais inocentes – abanar-se com um livro, por exemplo – em convites para sessões de sexo no WC, e garante que o Japão na verdade não existe mas que um bizarro Clube dos Desejos Impossíveis é real, por entre dezenas de episódios fragmentados que evocam momentos de tristeza, de abandono, de amnésia, de cegueira amorosa ou de solidão.
Em vez de uma estrutura linear, Blandina construiu um mosaico de linhas narrativas sujeitas a cortes, interrupções, finais em aberto. Contudo, se a ideia geral do livro é consistente, o mesmo não se pode dizer da maioria das histórias de Salvador (ou são artificiosas em excesso, ou demasiado básicas). Quanto ao epílogo redondo, que força até ao limite o jogo entre verdade e ficção, digamos que era desnecessário.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no n.º 101 da revista Ler]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges