A camisola de Schlee

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Os fios do acaso que levam duas pessoas a encontrar-se num dado lugar, num dado momento, são insondáveis. Quando me sentei numa esplanada em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, no recinto da maior feira do livro a céu aberto do continente americano, não imaginei que aquele escritor septuagenário de sorriso aberto e longo cabelo grisalho pelos ombros – Aldyr Garcia Schlee, apresentado ali mesmo pelo nosso editor comum (Alfredo Aquino, da ARdoTEmpo) – se converteria, poucos dias depois, num velho amigo. Mas foi isso que aconteceu.
Logo naquela primeira tarde, à sombra dos jacarandás e ipês floridos, a dois passos das barraquinhas com livros pendurados por cordéis, não falámos de literatura mas de futebol. Acompanhado pela mulher, Marlene, tão fanática pelo jogo quanto ele e capaz de recordar, com minúcia, factos ou lugares perdidos no tempo, Aldyr apresentou-me enciclopedicamente o mundo das grandes equipas brasileiras, sem esquecer as mais antigas, algumas das quais relegadas para divisões secundárias, como o time de que é torcedor: o Grêmio Esportivo Brasil, de Pelotas, já perto da fronteira com o Uruguai.
Estava dado o mote. Primeiro em Porto Alegre, depois nos três dias que passámos juntos em São Paulo, falámos bastante dos seus «contos gardelianos» (Os limites do impossível) e do imponente romance, com mais de 500 páginas, que escreveu sobre a vida extraordinária do General Fructuoso Rivera (Don Frutos), mas os olhos deste homem que tem exactamente o dobro da minha idade, embora não se note (conversou sempre tu cá tu lá, com aquela intimidade dos colegas de liceu que se reencontram muitos anos depois), os olhos deste homem ganhavam outro brilho ao resgatar da memória certos estádios, os nomes dos craques e o que eles faziam dentro de campo, o clamor das arquibancadas.
Por trás desta paixão, esconde-se uma história incrível que logo veio à tona. Além de escritor, Schlee já foi muitas coisas: desenhista, homem da imprensa, professor universitário. O primeiro momento de glória, porém, aconteceu quando tinha apenas 19 anos. Em 1953, para apagar de vez o trauma provocado pela derrota na final do Campeonato do Mundo de 1950, frente ao Uruguai, no Maracanã, um jornal carioca decidiu lançar um concurso para mudar o equipamento da selecção nacional brasileira, uma vez que o branco parecia ser funesto. Das centenas de candidaturas recebidas, a escolha recaiu na proposta de um tal Aldyr Garcia Schlee. Ou seja, a célebre canarinha (camisola amarela e calção azul), um dos maiores ícones do desporto mundial, é nem mais nem menos do que uma criação do meu companheiro de tournée literária.
Já em São Paulo, antes de visitarmos o MASP (com os seus Van Gogh, Renoir, Modigliani, Velázquez, Turner e outras maravilhas da pintura europeia), fomos ao Museu do Futebol, instalado por baixo do Estádio Pacaembu. Logo à entrada, uma imagem de Barbosa ainda desperta comentários ressentidos nos visitantes. Ele é o mais odiado dos guarda-redes (no Brasil diz-se goleiro), o bode expiatório da Copa perdida no Maracanã. Aldyr ri-se deste ódio que persiste há mais de meio século. Até porque ele, ó ironia, torce desde sempre pelo Uruguai (país que quase vê das janelas da sua casa-biblioteca e cujos principais escritores vem traduzindo para português). Quando Ghiggia marcou o 2-1 fatal, ele estava num cinema em Montevideu. Lembra-se de o filme ser interrompido e de ouvir, emocionado, o hino uruguaio. Como se lembra de quase tudo o que as fotografias, filmes e hologramas do museu documentam. A história do Brasil reflectida no verde da relva.
Talvez para selar uma viagem feliz e uma amizade inesperada, o nosso editor encontrou uma camisola da canarinha, em algodão, modelo de 1954 (sem as modernices estéticas e têxteis da Nike, que Schlee detesta). É para ela que olho agora, já deste lado do Atlântico. A gola verde, o emblema grandão, junto ao qual a firme caligrafia de Aldyr evoca «Pelé & cia». Depois arrumo-a no saco e vou ler Don Frutos.

[Texto publicado no n.º 97 da revista Ler]

Parabéns, Schlee

Na recente viagem ao Brasil, conheci um homem extraordinário, para além de notável escritor e caloroso companheiro de lides literárias: Aldyr Garcia Schlee. Durante quatro dias, contou-me dezenas de histórias fascinantes sobre o Rio Grande do Sul, o Uruguai, a fronteira, os seus antepassados alemães, o Brasil do séc. XIX e o futebol do séc. XX.
Agora, fiquei a saber que ganhou o Prémio Facto Literário 2010, atribuído durante a Feira do Livro de Porto Alegre, ultrapassando uma outra candidata de peso: Lya Luft.
Vai daqui um abraço transatlântico de felicitações, caro Schlee.

‘La Folie et l’Amour’

Um belíssimo conto inédito do escritor brasileiro Aldyr Garcia Schlee.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges