“Escrever é como cuidar de um bonsai”

Estreia na próxima quinta-feira, no Corte Inglés (Lisboa), a adaptação cinematográfica de Bonsai, uma novela do escritor chileno Alejandro Zambra, realizada por Cristián Jiménez. O livro foi editado em Portugal pela Teorema, em 2008, e sobre ele escrevi aqui.

A minúscula árvore da ficção

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Bonsai
Autor: Alejandro Zambra
Título original: Bonsái
Tradução: Jorge Fallorca
Editora: Teorema
N.º de páginas: 79
ISBN: 978-972-695-749-2
Ano de publicação: 2008

Poeta e professor universitário, Alejandro Zambra (n. 1975) começou por destacar-se enquanto crítico, com presença regular na imprensa chilena e alguns textos assinados no suplemento Babelia do El País. Publicada em Espanha pela Anagrama, depois do famoso editor Jorge Herralde ter sentido “um arrepio na coluna vertebral” ao descobrir este compatriota de Roberto Bolaño, a narrativa Bonsai (a que se poderia chamar com propriedade um romance-miniatura) recebeu o Prémio da Crítica Literária para o melhor romance chileno de 2006.
Um dia, Júlio e Emília dormem juntos “acidentalmente” e mergulham numa quase banal história de amor, em que “há mais omissões do que mentiras, e menos omissões que verdades, dessas verdades que se chamam absolutas e que costumam ser incómodas”. A única bizarria a que se entregam é o uso da literatura como preliminar erótico, com leituras em voz alta antes do sexo, até ao dia em que um conto de Macedonio Fernández coloca um grão de angústia na engrenagem, que nem Proust conseguirá desbloquear. Logo depois, separam-se e seguem caminhos divergentes.
É no vazio deixado por esta história interrompida – primeiro pela distância (Emília muda-se para Madrid); depois pela morte (quando ela se atira para a linha do metro) – que cresce a minúscula árvore da ficção. Há personagens que se cruzam com Júlio (uma amante, um escritor), pequenos ramos logo cerceados pela tesoura de podar. E há enredos paralelos que o narrador contém, com paciência e invisíveis redes de arame, para que não alastrem para lá do vaso em que tudo assenta, o “vaso apropriado” cuja escolha “é quase uma forma de arte só por si”.
Através de Júlio, Zambra diz que “cuidar de um bonsai é como escrever” e que “escrever é como cuidar de um bonsai”. Tudo se joga na delicada simetria destas duas frases.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso; em cuja versão de papel aparecem atribuídas ao livro três estrelas (em cinco), quando na realidade deveriam ser quatro]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges