Filigrana em movimento

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O Meu Amante de Domingo
Autora: Alexandra Lucas Coelho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 181
ISBN: 978-989-671-237-2
Ano de publicação: 2014

A protagonista de O Meu Amante de Domingo é uma mulher de 50 anos, loura e ainda mignone, revisora literária que passou a vida a ler, «sem jamais ter escrito». Mora no Alentejo mas vem a Lisboa todos os domingos, no seu jipe Lada Niva de 1994, para nadar vinte piscinas num ginásio e tratar da gata de uma amiga (ausente no Brasil, em pesquisas). Durante um mês, envolve-se com um dramaturgo 16 anos mais novo, a quem ela chama «caubói». Quando a coisa dá para o torto, por razões que só conheceremos quase no final, deixa-se tomar por uma raiva assassina e só pensa em «dar um tiro nos cornos» do «cabrão»; ou esmagar o «filho da puta» com uma pata de elefante indiano. Tripeira de Canidelo, concelho de Vila Nova de Gaia, carrega forte e feio no vernáculo, que «a gente lá em cima não tem a língua presa».
Numa primeira aproximação, é impossível não ficar fascinado por esta narradora, verdadeira força da natureza que vai instaurando, no texto, a liberdade que procura para si mesma. Ferida, ela entrega-se inteira à vingança (mesmo se imaginária), porque nela a «fúria» é mais forte do que o «lamento». Pelo caminho, entregar-se-á a três amantes que representam arquétipos masculinos: o mecânico que escreve SMS com erros ortográficos e «reticências afrodisíacas» (um Sancho Pança); o amigo escritor, «futuro Nobel», calculista e cobarde, vagamente sórdido (um Nosferatu); e o nadador depilado que afinal trabalha para o Mark Zuckerberg do Facebook (um Apolo). São etapas necessárias na construção do apocalipse, embates que antecedem o último duelo, neste western sentimental, divertidíssimo apesar de trágico, em que no fim os caubóis perdem.
Há nisto tudo uma dimensão de puro delírio, de emoções levadas ao extremo, ao paroxismo do exagero total, com a verosimilhança a volatilizar-se (soprada, por uma vuvuzela, para o quinto dos infernos). A chave está, inevitavelmente, na literatura. São duas frases de Balzac a iluminá-la, fazendo com que veja o seu erro, o seu engano. E é Nelson Rodrigues, de cuja biografia (escrita por Ruy Castro) está a fazer a revisão, quem a acompanha no movimento da ira. Dizia o cronista brasileiro que «basta viver a fantasia de matar para esgotar o desejo». No seu caso, a fantasia assume a forma de um livro que começa a escrever, e onde se desdobra numa figura feminina que leva ainda mais longe os impulsos homicidas. Escrito à maneira de Brás Cubas, de além-túmulo, esse meta-romance vacila e naufraga, à medida que se esvai a «energia reversa» da vingança – «negativo da paixão» – de onde irrompeu.
A voz da protagonista de O Meu Amante de Domingo é tão forte, e o desassombro ao falar de sexo tão incomum, que a leitura do romance corre o risco de ficar demasiado presa a essa dimensão. Se Joyce multiplicava o mundo, acrescentando camadas ao seu texto em vez de o rarefazer, como Beckett, então Alexandra neste livro está claramente mais próxima de Joyce, a quem de resto pede emprestado o artifício do fluxo de consciência. Seria uma injustiça que a complexidade formal do livro, e os seus muitos níveis de leitura, ficassem ofuscados pela originalidade de uma personagem sem par na literatura portuguesa recente. Por muito que as cenas de sexo mais explícitas sejam antológicas (e são), a verdadeira beleza desta prosa está, por exemplo, na imagem de uma nespereira “atravessada pelo sol”, cuja sombra é “uma filigrana em movimento, projectada na cal e no anil que os árabes deixaram cá”.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Em trânsito

E a Noite Roda
Autora: Alexandra Lucas Coelho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 246
ISBN: 978-989-671-112-2
Ano de publicação: 2012

Mais do que a história difícil de dois amantes que nunca se chegam verdadeiramente a encontrar, E a Noite Roda, primeiro romance de Alexandra Lucas Coelho, é o relato belo e frágil de como uma extraordinária repórter arrisca trocar o terreno que conhece melhor – a realidade bruta mas concreta de um conflito internacional, testemunhado em Jerusalém, Gaza e Ramallah – pelos domínios muito mais incertos e obscuros da ficção, cartografando o que acontece a dois jornalistas, ela catalã, ele italiano (a viver em Bruxelas), depois de se apaixonarem um pelo outro, precisamente nos dias que antecederam a aguardada morte de Yasser Arafat.
Única narradora, cuja perspectiva das coisas se impõe do princípio ao fim, Ana começa a escrever para que a memória não se perca, para que a história com Léon, entretanto desaparecido, seja preservada, para que «exista». A uni-los estava «o desejo, o romance, o vendaval», uma certa impossibilidade de durar no tempo que os empurra para a experiência absoluta do sexo, forma de iludir a ameaça do vazio. «Fazemos as perguntas dos estranhos sem nunca termos sido estranhos. Há dois diálogos a acontecer ao mesmo tempo. As palavras são as de quem não sabe o suficiente, o silêncio é o de quem sabe demasiado. A nossa intimidade fica a pairar, como se não soubesse para onde ir.» E não sabe mesmo. Daí a fuga permanente, tanto geográfica (reencontros nos lugares mais díspares) como emocional (uma comunicação que se vai esgarçando, entre e-mails e SMS).
Alexandra Lucas Coelho está ela própria em trânsito, percebe-se que experimenta ainda os códigos narrativos, mas a sua linguagem sofisticada, elegante, de um lirismo subtil, é já a de uma grande escritora.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O dedo na ferida

«Sento-me com outra amiga em Lisboa e ela conta-me que recusou idas e vindas e textos por não serem pagos, mas que isso não constituiu problema para quem a convidava, porque havia sempre gente para aceitar — como agora há cronistas a escrever de graça.
Eu vejo duas boas razões para escrever de graça. A primeira é quando alguém próximo nos pede. A segunda é quando reverte a favor de quem precisa. No primeiro caso trata-se de amizade, no segundo de voluntariado. O resto chama-se abuso.
O abuso não só perpetua o estado das coisas como o acentua. Cada vez que alguém acha natural não pagar a quem escreve está a dizer que a literatura é acessória, e a contribuir para que ela desapareça.»

Quem o diz é Alexandra Lucas Coelho, numa crónica exemplar.

Primeiros parágrafos

«Escrevo para acabar com a história, escrevo para que a história comece. Esquece a morte e segue-me.
Sete e meia da manhã em agosto. Gosto do cheiro de jasmim pela manhã no pátio de Karim. Ainda não o conheço, está no Brasil, chega em dezembro: Karim Farah. Nome estranho para um brasileiro, mas o amigo do amigo que nos pôs em contacto disse-me que há milhões de descendentes sírio-libaneses no Brasil. Não sei nada do Brasil, sabemos pouco do Brasil na Catalunha. Por acaso o amigo do meu amigo foi tocar ao Rio de Janeiro, conheceu Karim e ele contou-lhe que tinha uma casa em Damasco onde recebia músicos. Eu andava a estudar cantigas do Al Andaluz, precisava de ver arquivos em Damasco. Escrevi a Karim, respondeu que viesse. Mesmo na sua ausência a casa era minha.
No dia marcado foram buscar-me a Bab Sharqi, o portão oriental da Cidade Velha. Entrámos ao crepúsculo, com o souk a acelerar na cacofonia dos últimos pregões. Tudo foi ficando cada vez mais estreito, até acabar num beco onde se ouvia o eco de cada passo. Ao fundo uma pequena porta abriu um clarão. Achei-me entre laranjeiras, fontes de azulejo e madrepérola. Era o próprio Al Andaluz.»

[in E a noite roda, de Alexandra Lucas Coelho, Tinta da China, 2012]

Lançamento de ‘E a noite roda’


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É logo à noite.

Praça da Liberdade

Tahrir – Os Dias da Revolução
Autora: Alexandra Lucas Coelho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 110
ISBN: 978-989-671-082-8
Ano de publicação: 2011

Num dos primeiros dias de Fevereiro, Alexandra Lucas Coelho estava nos Açores a lançar o seu belíssimo livro de viagens sobre o país dos aztecas (Viva México, Tinta da China). No dia seguinte voltaria para o Rio de Janeiro, onde há vários meses trabalha como correspondente do jornal Público. O Egipto assaltou então os noticiários internacionais e a praça Tahrir, a abarrotar de manifestantes que exigiam a queda de Mubarak, impôs-se de repente como o centro do mundo. Lucas Coelho nem hesitou: pediu férias e meteu-se no primeiro avião para o Cairo. O livro que acaba de publicar é o diário da semana (6 a 14 de Fevereiro de 2011) que passou dentro da revolução egípcia.
Em nota prévia, a autora sublinha que este não é um trabalho jornalístico. Compreende-se o escrúpulo. Se fosse jornalismo puro e duro, teria de haver mais contextualização histórica, análise política, etc. Pelo contrário, ALC assume de que lado está, integra-se na multidão, toma partido. A «centrípeta e pulsante» praça Tahrir é o palco onde encontra pessoas de todos os estratos sociais, de todas as idades, de todos os credos. Elas querem «falar, e falar, e falar». Alexandra ouve-as e depois conta à sua maneira, delicada e atenta, nunca escondendo o entusiasmo por aquele movimento colectivo que tem «o ímpeto do que é sem artifício». No ar, sente-se sempre a euforia própria dos momentos em que um povo toma o seu futuro nas mãos. Desta vez, com a vantagem de não ter ninguém a liderar. Como diz Ahmed, de 24 anos: «Esta revolução é um corpo sem cabeça, porque se tivesse cabeça eles cortavam-na.»
Aos olhos de ALC, certo rapaz «parece uma versão árabe de Vincent Gallo» e um homem de 50 anos tem «corpanzil de Francis Ford Coppola». Já Wael Ghonim parece Wael Ghonim, o executivo da Google que inventou uma desculpa para voltar à pátria, liderou os protestos no Facebook, foi preso e, depois de libertado, chorou convulsivamente na televisão, ao ver as imagens dos que morreram na praça. De Wael, Lucas Coelho só soube à distância; já outro ícone da revolta, Gigi Ibrahim, que apareceu na capa da Time e foi entrevistada por Jon Stewart, passou por um certo nono andar que é um dos lugares centrais deste livro, apartamento de cuja varanda se podia fazer «zoom» sobre a revolução, nomeadamente no dia da festa da vitória, o dia em que a praça (e o país; e o mundo) explodiu de alegria ao saber que Mubarak resignara, dia a que não faltou sequer o encontro com um jovem italiano que sabe cantar a Grândola de cor.
E depois da grande festa? Depois da grande festa, uma lição de civismo. «Raparigas todas cobertas e raparigas de jeans colados, avós e netos, grupos de homens: quando não estão em plena acção, estão a caminho, cabeça levantada, vassoura ao ombro, como uma enxada. A revolução venceu ao fim de 18 dias insones e tensos. E no dia a seguir qual é a tarefa mais importante? Limpar o lixo como quem limpa 30 anos. Onde antes afundávamos os pés em plástico e entulho, agora não há uma beata.»
Dos jovens egípcios que saíram à rua, unidos pelas redes sociais (sobretudo o Facebook, «único lugar livre»), diz Lucas Coelho: «estão a desarmar o Ocidente, comovendo-o». É impossível não estremecer diante de tanta esperança, mesmo se o «epílogo em aberto» já mostra dúvidas e receios sobre o que virá depois. Mas ALC tem razão: por muito que o futuro atraiçoe as promessas da praça Tahrir, nada «eliminará o que aconteceu» ali durante três fervilhantes semanas.

Avaliação: 8/10

[Versão aumentada de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Sábado, 5 de Fevereiro

O voo para o Cairo está atrasado oito horas. No aeroporto de Amesterdão as televisões mostram uma carrinha da polícia egípcia numa corrida louca para atropelar o máximo de gente. Manifestantes contam como foram presos e espancados e levaram choques eléctricos. Imagens de tanques debaixo dos viadutos à volta da praça Tahrir, chuva de pedras em frente do Museu Egípcio, pandeiretas resistindo na noite. E os líderes ocidentais falam em transição, pedem calma, acautelam o futuro, porque sabe-se lá se o partido dos Irmãos Muçulmanos não vai tomar conta de tudo.
Um clássico ocidental: o presente dos outros pode sempre esperar um pouco mais.»

[in Tahrir – Os Dias da Revolução, de Alexandra Lucas Coelho, Tinta da China, 2011]

“E em volta os bairros, como matéria bíblica”

Uma extraordinária crónica de Alexandra Lucas Coelho sobre a catástrofe das enxurradas no Brasil, publicada ontem no jornal O Globo.

Atlântico-Sul

Os textos que Alexandra Lucas Coelho vai escrevendo no Brasil moram aqui (um lugar precioso). Por estes dias, leio e vejo, incrédulo, a reportagem arrepiante das enxurradas que espalharam a morte em Nova Friburgo e Teresópolis.

Um espelho de obsidiana

Viva México
Autora: Alexandra Lucas Coelho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 369
ISBN: 978-989-671-053-8
Ano de publicação: 2010

No verão passado, a jornalista Alexandra Lucas Coelho (ALC), do Público, desembarcou na Cidade do México como quem enfrenta uma página em branco. Três semanas depois estava de regresso à Europa, ao Velho Mundo, com material suficiente para desenvolver os textos publicados no jornal e reuni-los em mais um espantoso livro-reportagem, tão bom como os anteriores Oriente Próximo (2007) e Caderno Afegão (2009). Mas se nesses livros ALC abordava realidades que conhecia bem (Israel, Palestina, Afeganistão), neste assumiu logo na primeira frase a sua virgindade: “Não sei nada do México e tenho uma mochila.” O “não sei nada” é relativo. Na mochila levava alguns livros orientadores (Octavio Paz, J.M.G. Le Clézio, o catálogo de uma exposição no Museu Britânico, uma antologia de poesia azteca organizada por José Agostinho Baptista), além de muitos contactos preciosos conseguidos em Lisboa. Pouca coisa, ainda assim, para quem chega pela primeira vez a um país vinte vezes maior do que Portugal.
Em ano de bicentenário da Independência e centenário da Revolução, com o Campeonato do Mundo de futebol por todo o lado (nas conversas e nos ecrãs gigantes), ALC estava ali para saber que país é aquele, gigantesco e contraditório, agressivo e acolhedor, formoso e horrível, complexo e comovente: «O México dá vontade de chorar, um choro de séculos em que não percebemos porque choramos, se somos nós que choramos, se não seremos nós já eles. Nunca, em lugar algum, me pareceu que tudo coexiste, tempos e espaços, cimento e natureza, homens e animais, até aceitarmos que o nosso próprio corpo faz parte daquela amálgama acre, ligeiramente ácida, de pele suada com muito chile
A viagem começa na Cidade do México, o monstro urbano, a cidade que não acaba. Numa escavação arqueológica, evoca-se o momento fundador em que Cortés subjugou Moctezuma, precipitando o declínio azteca: «Este Novo Mundo começa no extermínio, e isso há-de significar qualquer coisa. No tempo indígena significa que o extermínio histórico faz parte do presente.» A violência sente-se no ar, é uma espécie de vibração que tolda a paisagem. Mas a beleza também irrompe quando menos se espera. Um jardim, dois vulcões, um céu de cinema, cactos na berma da estrada, a Casa Azul de Frida Kahlo em Coyoacán (onde ALC se demora em páginas magníficas). E vejam como a Cidade do México mostra o seu lado escuro, as suas cicatrizes, no «bairro bravo» de Tepito, berço de pugilistas famosos, esconderijo de traficantes, contrabandistas e outros marginais. A repórter visita museus, perde-se em livrarias, conversa com escritores, mas o que lhe interessa é a a pulsação frenética das ruas. E as ruas agradecem, oferecendo-lhe histórias daquelas que não vêm ter connosco (é preciso ir ter com elas).
Depois da capital, entramos de chofre no epicentro da violência associada ao narcotráfico (Ciudad Juárez), onde se escancaram as portas do inferno, a morte anda à solta e o capitalismo exibe a sua face mais odiosa (travellings de lixo e pobreza extrema, entre as maquiladoras que alimentam a globalização do baixo custo). Descemos então até paragens mais acolhedoras (Oaxaca), cruzamo-nos com os muxes de Juchitán («A mulher está aqui, o homem está ali, e o muxe está no meio»), ouvimos o medo dos imigrantes clandestinos de vários países da América Central em trânsito para os EUA (à espera em Ixtepec), trepamos as serras para chegar a San Cristobal de las Casas (no coração de Chiapas, encruzilhada do zapatismo) e fechamos o périplo no Yucatán, a península que é mais do que a pontinha do México em que se amontoam, em resorts todos iguais, os turistas da praia e do bilhete-postal.
Os lugares são importantes, claro, mas o que fica na memória são as pessoas que se cruzam no caminho de ALC e com as quais ela se demora, em longas sessões de platica (a conversa à mexicana, sem pressas). As pessoas que procura e as pessoas que vai encontrando por acaso. Os artistas, os padres, os antropólogos, os conhecidos que indicam outros conhecidos que também conhecem não sei quem, o casal que inventou uma «utopia a dois» no meio da natureza deslumbrante e agreste, um taxista chamado Adolfo ou as raparigas da banda Batallones Femininos, que dizem coisas como esta: «Quando te sentes mal, vomitas e sentes-te melhor. O rap é esse vómito.»
Alexandra Lucas Coelho sabe contar histórias, encadeá-las, fazer os saltos de uma para outra no momento certo. A escrita é rápida, muito nítida, às vezes lírica, sempre de uma extraordinária atenção aos detalhes e capaz de maravilhosos achados verbais. Por exemplo, certa mulher de 76 anos «parece uma rapariga que simplesmente envelheceu». E vejam este parágrafo: «Como se os deuses quisessem provar que um museu só volta à vida quando eles decidem, a estação das chuvas está a cair no pátio toda de uma vez. A água desaba em lençóis e acendem-se relâmpagos que depois ribombam. Começa a subir um cheiro intenso a terra. As árvores brilham. As copas agitam-se. O céu ruge. Os turistas correm.» Mais à frente, um mineral – a obsidiana – transforma-se em arte poética: «Afiada, corta. Polida, faz de espelho. Nela se miraram imperadores, perscrutando o futuro. Pode servir para tudo e para nada, só a acumular energia séculos fora.»
Se tivesse que resumir numa frase a experiência de ler Viva México, diria que esta é uma prosa que não descreve, ilumina. E assim a viagem de quem narra torna-se, quase sem darmos por isso, a viagem de quem lê. Sorte a nossa.

Avaliação: 9/10

[Versão ampliada de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Santa Teresa e arredores

Imperdível, a série de reportagens mexicanas de Alexandra Lucas Coelho, que o Público está a publicar esta semana. A sequência iniciou-se domingo, na revista Pública, com um texto brutal, mergulho da jornalista na violência desmesurada de Ciudad Juarez (o molde para a Santa Teresa de Roberto Bolaño, em 2666). Ou muito me engano ou estes belíssimos textos reaparecerão em livro, um dia destes, com chancela da Tinta da China. E cá estarei para os reler.

Água na boca

«Em primeira mão: o próximo volume da colecção de viagens da tinta-da-china será o “Caderno afegão”, de Alexandra Lucas Coelho», revela o Carlos Vaz Marques no seu Twitter.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges