Pré-publicação: ‘Amor Livre e outras histórias’ (Ali Smith)

«UM TEXTO POR DIA

Imagine-se a coleção de livros de Melissa distribuída pelo quarto e pela sala de estar quando Melissa está na cama a dormir ou quando está fora todo o dia a trabalhar ou foi passar a noite fora ou o fim de semana. Centenas ali muito quietos nas estantes, de Agee a Yevtushenko (não tem ninguém com Z). Um conjunto significativo de clássicos dos cursos de literatura inglesa e escocesa — Melissa estudou Literatura e Cultura Inglesa dez anos atrás. Há uma grande coleção da mais recente literatura americana, inglesa e europeia; Austen, uma amiga de Melissa que trabalha numa livraria, consegue arranjar-lhe muitas vezes livros com 30% de desconto. Livros e livros, blocos de livros movendo-se infinitesimalmente durante a noite quando os alicerces renovados da casa fazem estremecer todo o prédio. Livros tão apertados uns contra os outros que as capas de vários deles ficam coladas; por exemplo, se Melissa tivesse querido tirar Villette, de Charlotte Brontë (Penguin), para ler outra vez, vê-lo-ia preso, de um lado, a Shirley (Penguin), e do outro, a uma edição de 1933 de Testament of Youth, de Vera Brittain (Gollancz), assinado pela autora e comprado por 50 pence numa feira do livro.
Imagine-se os livros silenciosos no apartamento silencioso, durante a noite, sem se moverem na escuridão, com o nome de Melissa, o sítio onde os comprou e a data escritos em cada um deles entre a primeira página e a capa; imagine-se as lombadas dos livros durante o dia no apartamento silencioso, a amarelecerem, a perderem a cor, a desvanecerem-se ao mesmo tempo que a luz vai percorrendo a sala.

Melissa começou por dizer ao namorado, Frank, para se pôr a andar, estava farta que lhe chamasse Amorzinho, já não conseguia achar graça nenhuma. E no dia seguinte, em vez de ir trabalhar, ficou na cama, com os cobertores puxados até ao pescoço e, quando o aquecimento central se desligou e ficou mais frio, usou o secador de cabelo entre o edredão e o colchão para se aquecer, algo que sempre recusara fazer por causa do aquecimento global e da conta da eletricidade. Depois levantou-se e atirou o secador pela janela; desfez-se no empedrado, quase atingindo o carro do vizinho do lado. Abriu energicamente as janelas para deixar entrar o ar frio. Depois foi atirando para o chão os livros em todo o apartamento. Tudo se passou nesse dia. Preparava-se para desaparecer rapidamente, estava a um passo de partir de vez.
Mais tarde, já ela se fora embora há muito, os menos imaginativos dos seus amigos que repararam que ela deixara de aparecer pensaram que provavelmente tinha decidido tirar algum tempo para si, talvez andasse pelos Estados Unidos de mochila às costas ou coisa do género. Outra pessoa, um colega de trabalho, pensou que podia ter conseguido um emprego novo e mais interessante, certamente melhor do que este de Transferidora de Informação, e o aceitara sem dizer ao antigo patrão, para não ter de o informar oficialmente. Embora nada disso fosse coisa que ela pudesse realmente fazer ou que alguém esperasse dela. Outros amigos e conhecidos ou não deram por nada ou nem sequer tinham ainda sabido, a maior parte deles já não se lembrava dela e os poucos que se lembravam partiam do princípio, de uma maneira geral, de que ela estava onde a tinham visto pela última vez, a fazer o que a tinham visto fazer pela última vez, tal e qual como se parte do princípio de que alguém que se conhece continua a fazer as coisas do costume, a respirar, a andar, a fazer compras, a comer bolachas, até que se vem a saber que a pessoa morreu, morreu há muito tempo e ninguém sabia de nada.
Austen percebeu que alguma coisa não batia certo, porque tinha a chave do apartamento de Melissa e os livros, os livros, seu orgulho e alegria, estavam todos espalhados pelo quarto e pela sala de uma maneira estranha, numa desarrumação completa no chão ou empilhados totalmente ao acaso, enormes buracos nas estantes de todas as paredes e mais livros tombados nas prateleiras, havia até livros espalhados pela casa de banho. Tal como o anúncio de televisão que mostra uma casa assaltada para alertar contra os ladrões e sugerir que se deve deixar sempre uma luz acesa durante a noite para fingir que está alguém em casa, pensou Austen. A luz do apartamento de Melissa estava acesa e, com a janela e os cortinados abertos, adquiria um certo ar sinistro. Não havia ninguém e nada tinha sido mexido, tudo intacto e na mesma ordem de sempre, exceto os livros.
Fechou as janelas por causa do frio e foi ao quadro na cozinha ligar o aquecimento. Sobre a mesa, ao lado de uma garrafa de leite, algumas folhas deixadas ao acaso, rasgadas; do sítio onde estava Austen podia ver, distorcida através do vidro da garrafa, a palavra Introdução. Junto aos seus pés, a capa de um livro de bolso de Kafka (Penguin Modern Classics). Fez chá — com leite azedo —, abriu o caixote do lixo para deitar a saqueta do chá e viu que estava cheio de páginas arrancadas e capas soltas de vários livros. Por trás do caixote do lixo, mais páginas. Continuou o que estava a fazer, sentou-se no sofá e percebeu que tinha posto os pés a descansar, como era inevitável, em cima de uma pilha de livros. Ao seu lado, em cima da almofada, como se ali tivesse aterrado de emergência após um voo com as asas danificadas, estava um exemplar de pernas para o ar de Seeing Things, de Seamus Heaney (Faber and Faber).
No exato momento em que Austen introduzia um dedo no chá para desfazer um coágulo de leite na parte interior da chávena, Melissa estava a sair de um supermercado aberto até às oito, à chuva, a mastigar qualquer coisa que tirava de um pacote, com um livro de bolso na outra mão, e uma senhora de certa idade com uma capa para a chuva a vociferar na direção dela numa exaltação fora do comum e de braços no ar, a chamar a atenção dos rapazes que arrumavam os carrinhos de compras, a dizer-lhes olhem, olhem o que ela fez, nunca em toda a vida dela.

Frank ligou a Austen na noite seguinte. Não gostava particularmente de Austen, mas era amiga de Melissa.
— Ela disse-me para me ir embora, Austen, portanto, olha, ha, ha, eu fui. Acho que está um bocado desvairada. Estou um bocado preocupado com ela — disse Frank. Ainda se sentia satisfeito consigo próprio por ter demonstrado a Melissa, fazendo precisamente o que ela lhe disse, como a sua exigência era absurda.
— Hum. É engraçado, mas eu não estou, acho que não.
— Não estás o quê?
— Preocupada. Pelo menos, acho que não estou. E desvairada como? Como quando entornaste o chocolate quente em cima do Keats e do sofá? — disse Austen.
— Bem, não, realmente não, não no sentido de estar zangada. A questão é que até parecia muito calma, é estranho.
— Pois é, muito estranho — disse Austen.
— Mas, sabes, isso torna tudo ainda mais esquisito. Começou a dizer coisas muito estranhas ali sentada no chão, fria que nem uma pedra a dizer aquilo tudo.
— Hum — disse Austen. Ela não gostava muito de Frank, não gostou dele logo quando se conheceram e ele lhe disse que ela tinha um nome esquisito.
— Ela não está a viver no apartamento, sabes — disse Frank.
— Sei, olha, Frank, tenho mesmo de desligar.
— Sabes onde ela está?
— Não, não sei, mas se ela me telefonar eu digo-lhe para te ligar. Olha, deixei uma coisa ao lume e…
— Não há maneira de saber e também já não posso entrar no apartamento. E no emprego ninguém sabe onde ela está, telefonei a perguntar se tinha metido baixa, mas disseram-me que não. Achas que devo ir à polícia?
— Bem, não, acho que não, mas se te faz sentir melhor… — disse Austen, algo ausente.
Mais tarde, nessa mesma noite, Melissa telefonou a Austen e a Frank de uma cabina. A ligação não era boa e a voz dela ouvia-se ao longe, muito fraca, no meio de uma confusão de ruídos.
— Não devias ter ido lá arrumar nada, Austen. Bem, foi simpático da tua parte, mas… sim, fui buscar algumas coisas. Não, ouve, não posso voltar atrás, e só tenho vinte pence… ouve… usa o apartamento se quiseres. Fica com o apartamento, aproveita-o e olha, Austen, também podes utilizar o carro. Vou mandar-te… não sei… talvez um postal (a voz dela estava a ficar cada vez mais fraca), tenho de desligar…
— Sim, Frank? Sou eu, a Melissa. Oh, meu Deus, não me chames isso… sim… não é isso, será que estás a ouvir? Estou, sim, o mais alto que… Não, não é preciso, é óbvio que não estou desaparecida. Eu disse é óbvio que… Olha, só telefonei para dizer, não, só telefonei para dizer adeus. Adeus. Percebeste? Sim? Não, não é preciso… adeus…
Frank pousou o auscultador, depois pegou nele outra vez e ligou para a polícia. Quanto a Austen, deu consigo de repente a olhar no vazio e pousou o auscultador. Imaginou a porta da cabina a baloiçar e a fechar-se e Melissa a sair do cheiro a urina para o frio límpido da noite.

Melissa estava sentada à luz ténue do luar, enroscada como um animal. Escalara o portão, fechado a cadeado, passara sobre os espigões no cimo depois de ter atirado a mochila, que caiu com um barulho surdo do lado de lá do empedrado, e ela própria também se lançou praticamente sem ruído. O vapor de água embaciava as janelas da casa junto ao portão. Invisível, silenciosa na escuridão, ao frio, dirigiu-se como pôde até ao outro lado do cemitério e deixou-se cair junto a uma das sepulturas. Encostou as costas à pedra tumular. Sob a silhueta de um anjo em pedra tirou os livros da mochila. Ao longo do dia já arrancara as páginas de Terna É a Noite, de F. Scott Fitzgerald (Penguin), Bliss, de Peter Carey (Faber and Faber), The Novel Today, organizado por Malcolm Bradbury (Fontana), Madame Bovary, de Gustave Flaubert (Penguin), Selected Dramas and Lyrics of Ben Jonson (editor Walter Scott, 24 Warwick Lane, Paternoster Row, Londres, em 1886, um dos favoritos), Memórias de Uma Rapariga Bem-Comportada, de Simone de Beauvoir (Penguin, outro dos favoritos, e depois de um breve momento de nostalgia, apenas e só alívio), e finalmente Gente de Dublin, de James Joyce (Penguin). Quanto a Gente de Dublin, voltara a lê-lo, apreciando-o imenso, e arrancara cada página à medida que ia acabando de ler, deixando-a cair ao acaso se ia a andar ou se estava num lugar qualquer sentada. Nunca tinha gostado tanto de ler «Os Mortos», pensou ela, quase em lágrimas, enquanto arrancava a última página, a página que fala da neve, e a deixava cair.
Este era um sítio em que ninguém ficava a olhar, fazia comentários ou gritava zangado. Tirou o primeiro livro da pilha, The Sunday Missal and Prayer Book (Collins). E de lá extraiu a lista dos feriados móveis, os preâmbulos, a ordem da Missa; nem precisava de luz para saber que estava a arrancar o primeiro domingo do Advento, o segundo domingo do Advento, o terceiro domingo do Advento, o quarto domingo do Advento, o Natal, a Páscoa, o ano todo. À sua volta caíam as folhas finas, viravam-se na relva por entre as sepulturas e restolhavam levemente no empedrado.

A polícia ficou preocupada. A mulher desaparecida ou alguém fazendo-se passar por ela esvaziara a conta bancária. Elementos da polícia deslocaram-se a casa de Austen, a casa de Frank e à seguradora onde Melissa trabalhava. Encontraram o livro de endereços de Melissa debaixo da cama e contactaram toda a gente que lá estava. Austen disse-lhes em que estado encontrara o apartamento e o que Melissa lhe tinha dito ao telefone e eles levaram o carro e vários livros rasgados para exame forense, instauraram um processo em nome de Melissa e puseram o seu telefone sob escuta. Fizeram o mesmo em relação a Frank, que também lhes falou do telefonema que recebera, do telefonema que por sua vez fizera a Austen, da forma estranha como, enfim, Melissa tinha agido e do que ela lhe dissera na noite em que saíra de casa.
Efetuaram um inquérito a cada um dos empregados da empresa em que Melissa era Transferidora de Informação, o que significava que passava os dias a passar para o computador os números das contas que lhe chegavam em cartas e formulários a fim de que as consultas e toda a gestão das contas se fizesse através de um número e não pelo nome.
Entretanto, Melissa desaparecera mesmo. Parecia haver quem a tivesse vislumbrado, e essas ténues imagens iam chegando a Austen através de Frank, através de amigos comuns, através de pessoas que iam à livraria e ali permaneciam à conversa. Eram imagens que adquiriam uma qualidade quase mitológica. Austen falou disto a Melissa na carta que juntou a uma caixa com livros que lhe mandou para a posta-restante de uma localidade perto da fronteira entre os Estados Unidos e o México. O postal que Melissa lhe enviou tinha uma fotografia a cores com um daqueles carros americanos muito compridos de pernas para o ar numa fenda glaciar e mais acima, à beira da fenda, uma casa e um jardim, intactos. Na parte de trás a caligrafia emaranhada de Melissa, em tinta que parecia comida pelo sol, dizia que estava bem, que no sítio onde estava a escrever o postal cheirava a cravos e a café, como no livro Mornings in Mexico and Etruscan Places, de Lawrence, que andava a ler, e por favor lhe mandasse os livros, uns quaisquer que Austen escolhesse no apartamento. E lhe fosse mandando se possível uma caixa cheia de livros todos os anos na mesma altura até não haver mais livros. Estou agora a reler quase tudo, escreveu ela. Estou a reler Emily Dickinson aqui, em pleno deserto. É magnífica. Beijos, M. Austen entregou o postal à polícia e empacotou os livros. Não consigo deixar de me perguntar, escreveu ela na carta, sobre o que vais fazer quando já não houver livros. Não teve resposta.

Uma rapariga encostada à secção das aves no supermercado a ler um livro arrancou uma página e deixou-a cair no sítio onde estava. Uma senhora de idade ficou chocada ao vê-la rasgar o livro junto à secção dos congelados; sem palavras, ia-a vendo deixar cair poemas nos corredores por onde passava, perto da padaria, junto dos produtos para a casa, na fila para pagar. A mulher, pálida de raiva, seguiu a rapariga para apanhar os poemas que ela ia deixando cair. Já do lado exterior da porta automática, ficou à chuva a ver a rapariga ir-se embora. Olhem o que ela está a fazer!, gritava ela para as pessoas que iam a entrar. Nunca na minha vida vi uma coisa tão fútil, tão ofensiva, tão feita de propósito para provocar. Quando eu era nova, sabíamos dar valor às coisas. Voltou-se, captou o olhar de alguém que ia a sair e ergueu no ar um punho de poesia amarrotada. Olhe, suplicava ela; e havia desespero nos seus olhos.
Numa viagem noturna de autocarro para Londres um homem observava, curioso, uma mulher jovem sentada de lado no corredor a ler e a rasgar com cuidado cada página depois de a ler. Vestia de forma descuidada, o cabelo parecia precisar de uma boa lavagem e colocava delicadamente cada página ao lado dela no lugar vazio, depois de acabar de a ler. No final da viagem o homem deixou que a mulher saísse do autocarro antes dele, recolheu as páginas, levou-as para o seu quarto no hotel e leu-as. Ficou a interrogar-se quem seria ela, onde estaria instalada, como poderia contactá-la para poder ler o resto.
Uma mulher que está de pé numa paragem de autocarro numa grande cidade encontra um pedaço de papel colado ao salto do seu sapato. Num dos lados diz qualquer coisa acerca de pragas e ressurreições, algo que fazia pouco sentido para ela. Mas no outro lado as palavras estavam espaçadas como nos poemas que lera na escola, e viu escrito:

Retornos celestiais,
O dia em que as flores chegam
E os pássaros partem.

Quando chegou a casa, a mulher foi à procura do que queria dizer celestiais no dicionário do marido. Achou as palavras que se lhe tinham agarrado ao salto muito belas, dobrou o pedaço de papel e escondeu-o no seu lugar secreto dentro do forro da gaveta dos produtos de maquilhagem. Não disse do seu achado a ninguém.

Austen trabalha de pé na livraria a vender livros às pessoas, pressionando as teclas da máquina registadora com o conhecimento mecânico de um autómato enquanto as capas multicoloridas dos livros, centenas de livros por dia, novos e excitantes livros de capa brilhante, cintilam quando por eles passa os olhos e os põe nos pequenos sacos de plástico. Distribui o dinheiro pelos vários compartimentos. Barnes e Byatt estão a vender bem agora, tal como a nova biografia dos Kennedys, que saiu pelo Natal. A livraria em que ela trabalha é agradável, arejada, está decorada com bom gosto e fica aberta até tarde. Durante o dia há música clássica a tocar e mais para o fim da tarde é a vez do jazz e sons afins, as pessoas gostam e estão sempre a dizer a Austen que é um prazer fazer compras ali. Há um escaparate dedicado às escritoras canadianas Atwood e Munro num dos lados da entrada e do outro está exposta a nova ficção narrativa da Europa do Leste, o destaque do mês em edição de capa dura. As prateleiras são amplas, bem organizadas e bem fornecidas. De onde se encontra, Austen pode ver toda a extensão da secção de ficção estendendo-se ao longo de uma parede inteira, centenas e centenas de livros, um mero eco de centenas de outros que lá estiveram antes. Austen sabe que as prateleiras não são suficientes, já quase não cabe nelas mais nada, mas não sabe o que se pode fazer. Quando as pessoas perguntam por poesia, indica-lhes o piso de baixo. No apartamento já a cheirar a mofo de Melissa as prateleiras vão-se esvaziando gradualmente; e cada vez é mais raro encontrar alguém que tenha visto Melissa. Austen dá uma vista de olhos por toda a livraria, olha para o relógio, suspira.
Toda a Margaret Atwood já se foi, bem como todo o James Joyce, a Virginia Woolf, o Hardy, o Lawrence, o Forster. Toda a Carter e o Rushdie, o Puig e o Marquez, o Klima e o Levi e o Calvino e o Milosz, toda a Spark e o Gunn e o MacDiarmid, todo o Shakespeare, todo o Coleridge e o Keats, o Whitman e o Ginsberg, o Proust, o Eliot, o Scott, os livros mais grossos, os livros mais finos, todos os mais obscuros poetas e romancistas reunidos em edições de um só volume, todos os nomes mais ou menos conhecidos, mais ou menos perdidos ou esquecidos, a voar à toa pelos ares, caindo depois no chão como sementes ou folhas largadas pelas árvores, desfazendo-se em pequenos pedaços num sopro de fragmentos de sentido. Páginas flutuam sobre autoestradas e campos cultivados, páginas desgarradas dissolvendo-se em rios ou em mares, a embaterem nas sebes das zonas suburbanas, a agarrarem-se às suas raízes. Fragmentos juncam no chão um rasto que depois se espalha em várias direções, deslizando por entre ruas de cidades estrangeiras, amolecendo na água à entrada de pequenas lojas, arremessados pelos caprichos do clima para terras verdejantes e pradarias.
Há poemas em algerozes e em canos de esgoto, debaixo dos carris dos comboios, páginas de romances nos passeios, nos supermercados, agarrados aos pés das pessoas ou às rodas dos carros e das bicicletas; há poemas no deserto. Lá onde não há casas, nem pessoas, apenas céu, vento, um mundo aberto de par em par, um poema acerca de um vulcão adormecido, todo coberto de ervas, está semienterrado na areia, esmorecendo à luz e ao calor como o pequeno crânio de um pássaro.»

[Amor Livre e outras histórias, de Ali Smith, editado pela Quetzal, com tradução de Helder Moura Pereira, chega às livrarias a 12 de Agosto]

O que ela andou a ler

«Este livro é uma grande ideia – e uma das coisas mais interessantes e frustrantes que alguma vez fiz», explica Ali Smith, logo no início da introdução a The Book Lover (Anchor Books, 467 páginas, 2006). Para sermos mais precisos, a «grande ideia» partiu de uma amiga, Becky Hardie, editora experiente com quem Smith trabalhou numa colecção de ficção breve da Granta Books. «E se agarrássemos nas leituras preferidas de alguns escritores, não só as leituras actuais mas de toda uma vida, e fizéssemos uma antologia com isso?»
Ali Smith ofereceu-se logo como cobaia. A princípio com o entusiasmo infantil de quem abre a porta do sótão, há muito fechado à chave. Depois com o pânico da escolha e da necessidade de preterir textos, autores, épocas inteiras. Porquê este e não aquele? O clássico dilema do antologiador. «Veja-se o caso de [Virgínia] Woolf, por exemplo, e todos os seus livros ali na estante, à minha frente. Como poderia eu escolher entre a sua ficção e os seus textos críticos, entre os seus diários e as suas cartas?» Mesmo imaginando que optava pela ficção, a dúvida permaneceria: qual dos romances? Ou qual dos contos? «Nunca deixaria de ser um compromisso.»
Para dificultar ainda mais as coisas, Smith decidiu seleccionar, com uma ou duas excepções, apenas textos editados pela primeira vez no século XX, o que levantou o sempre delicado problema dos direitos autorais. A negociação com os detentores destes direitos equivale muitas vezes a um labirinto burocrático, demorado e dispendioso, razão pela qual não encontramos nesta antologia uma só palavra de James Joyce, Raymond Carver, Alice Munro, Susan Sontag ou Flannery O’Connor. «Este livro acaba por ser uma liturgia de ausências», assume a autora de Hotel Mundo, mas isso deve servir apenas como um desafio para o leitor «pôr mãos à obra e reler os escritores que não estão aqui».
Dito isto, os autores presentes chegam e sobram para as encomendas. Durante dois dias, Smith fechou-se em casa e espalhou livros no chão da sala da frente, recriando o puzzle dos momentos essenciais da sua vida de leitora, um percurso que começou precocemente (aos três anos) e conheceu vários momentos de autêntico frenesi bibliófilo. Depois, encaixou os 89 textos seleccionados em seis categorias: “Raparigas” (de Jane Austen a Virginia Woolf, passando por Angela Carter, Marina Tsvetayeva, Marilynne Robinson e Margaret Atwood), “Diálogos” (que inclui poemas de John Keats, Czeslaw Milosz, Margaret Tait, W. G. Sebald), “Viagens” (secção tão heterogénea que junta John Donne, Katherine Mansfield, Joseph Roth, Kate Atkinson, W. B. Yeats e Louise Brooks; sim, a actriz), “O Mundo” (Wallace Stevens, Sylvia Plath, William Carlos Williams, Philip Larkin, Gertrude Stein, Jeanette Winterson), “Histórias” (William Blake, Joyce Carol Oates, Anne Frank) e “Crenças” (Shakespeare, Simone de Beauvoir, e. e. cummings, Italo Calvino, Rainer Maria Rilke).
O principal mérito desta antologia é a sua imprevisibilidade. Ou seja, mesmo quando os escritores escolhidos são canónicos, os textos citados geralmente não o são. De Katherine Mansfield, por exemplo, podemos ler uma entrada do seu diário (15 de Dezembro de 1919), de Shakespeare uma passagem do quarto acto de Cymbeline e de Sebald uns versos sobre o rosto desconhecido do pintor Grünewald, que dialogam com um texto de John Berger sobre a Crucificação de Cristo, feita pelo artista germânico num retábulo em Colmar.

Como se vê pela amostra, a escocesa Ali Smith é capaz de misturar tudo e mais alguma coisa. Lado a lado, perfilam-se clássicos absolutos e compatriotas obscuros, um excerto biográfico da cantora Billie Holiday e uma crónica de Clarice Lispector (Estado de Graça), nomes quase esquecidos (J.M. Synge) e autores de outras latitudes (Dubravka Ugresic, Amos Tutuola). O resultado não podia ser mais idiossincrático. Se cada escritor é também o somatório das leituras que foi fazendo ao longo da vida, então este The Book Lover oferece-nos um mapa possível para aceder ao território literário de Smith. Um mapa estranho, cheio de curvas inesperadas e acidentes na paisagem, mas por isso mesmo desafiador e fascinante.

[Texto publicado no n.º 79 da revista Ler]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges