Mestre (e está tudo dito)

A Academia Sueca deixou as suas habituais justificações floreadas (e por vezes esdrúxulas), atribuindo o Nobel de Literatura a Alice Munro, por ser «master of the contemporary short story». Só seis palavras. E basta. Porque é isso o que ela é: mestre contemporânea da arte do conto. Tal como Tchéckov, tal como Kafka, tal como Borges (escritores maiores que a Academia Sueca, hélas, nunca premiou).

Segundo telegrama para Alice Munro

Afinal não foi preciso esperar por 2015 STOP Desta vez a Academia Sueca foi mais lesta a fazer-me a vontade STOP Muitos parabéns por este Nobel justíssimo STOP Não deixe nunca, mas nunca, de escrever STOP Cumprimentos deste seu admirador português

E a minha aposta para o Nobel de Literatura 2013 é…

A mesma do ano passado:

munro

Alice Munro, canadiana, 82 anos.

Dentro da casa

amada vida

Amada Vida
Autora: Alice Munro
Título original: Dear Life
Tradução: José Miguel Silva
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 267
ISBN: 978-989-641-355-2
Ano de publicação: 2013

Na página 213, depois de dez histórias que voltam a revelar, em todo o seu esplendor, a mestria narrativa de Alice Munro, o leitor de Amada Vida depara com a seguinte nota: «Os últimos quatro trabalhos deste livro não são propriamente contos. Formam um conjunto à parte, autobiográfico no sentimento, embora nem sempre no que concerne aos factos. Penso que são as primeiras e últimas – e mais íntimas – coisas que tenho a dizer sobre a minha vida.» O que mais surpreende nestes fragmentos biográficos, construídos a partir das memórias de infância, é a afinidade evidente com os temas, situações e personagens da sua escrita ficcional, por muito que a autora procure estabelecer uma barreira entre os dois domínios.
Ao evocar uma prostituta muito vistosa que viu certo dia num baile, Munro acrescenta: «Penso que se estivesse a escrever ficção em vez de recordar algo, eu nunca lhe teria dado aquele vestido.» Mais à frente, ao referir os primeiros sintomas de Parkinson na mãe, coincidentes com o falhanço profissional do pai, assume uma certa inverosimilhança na acumulação de infortúnios: «Talvez pensem que isto era excessivo. O negócio arruinado, a saúde da minha mãe arruinada. Em ficção não daria resultado.» A ironia é que os contos de Munro fazem questão de desmentir esta última frase. Os pais da escritora não são assim tão diferentes das personagens que sofrem, se perdem ou se agigantam nos seus textos. Ela própria, ao escrever sobre os conflitos surdos com a mãe, sobre insolências e respectivos castigos, sobre demónios inconfessáveis (houve uma altura em que sentiu o impulso de estrangular a irmã mais nova), coloca-se num lugar de espanto e desalento, fúria de seguir em frente e melancolia, que é o lugar ocupado por quase todas as suas protagonistas. Muitas delas transportam uma «falha», uma «falta», ou então um «peso» que se desloca «à volta do coração». São «peritas em perdas» e conhecem demasiado bem o vazio «espantoso» de quando subitamente tudo acaba, mas a vida continua. Umas superam-se, outras afundam-se, outras nunca saem do «buraco» em que se meteram na infância – e «continuam a cavar».
Quando uma destas mulheres explica ao amante a verdadeira razão da morte do pai (atirou-se para debaixo de um comboio, depois de contemplar a nudez da filha e não saber lidar com isso), há uma súbita leveza associada à partilha do segredo e à eliminação da culpa: «Sinto um alívio tão grande. Não é que tenha deixado de sentir a tragédia, mas é como se a visse de fora. São simplesmente os erros da natureza humana.» Os erros inevitáveis da natureza humana: eis a matéria-prima de Alice Munro. Nas suas histórias, há como que uma cartografia dos abalos que transfiguram a existência das pessoas comuns, criando inesperadas zonas de luz ou de sombra. De repente, algo acontece que não era suposto acontecer e duas pessoas ligam-se, envolvem-se, separam-se, partem para nunca mais voltar, regressam quando já ninguém as espera. Ou então, muitos anos depois, reencontram-se a atravessar uma rua cheia de gente, descobrindo no outro a verdade dos seus «rostos deteriorados pelo tempo» e a forma como se foram fechando, uma a uma, «as possibilidades da vida».
Na introdução a Selected Stories (Vintage, 1996), Munro explicou que uma história não é tanto um caminho que se segue. É antes uma casa: «Entramos e ficamos ali um bocado, a deambular, descobrindo como as salas e corredores se relacionam, como o mundo exterior fica diferente se contemplado daquelas janelas. (…) Podemos voltar muitas vezes, mas a casa, a história, conterá sempre mais do que vimos da última vez.» As casas de Amada Vida – talvez o derradeiro, e belíssimo, livro da escritora canadiana (n. 1931) – são inesgotáveis.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Telegrama para Alice Munro

Desta vez, apostei em si para o Nobel STOP O prémio foi para o Oriente STOP Não desanime STOP Durante três anos, apostei no poeta Tranströmer STOP Na vez seguinte, disse que não apostava mais nele STOP Foi nesse ano que ele ganhou STOP Esperemos então por 2015 STOP Cumprimentos de um admirador

Quem ganhará amanhã o Prémio Nobel de Literatura?

Eis a minha aposta:

Alice Munro (Canadá)

Epifanias familiares

O Progresso do Amor
Autora: Alice Munro
Título original: The Progress of Love
Tradução: José Miguel Silva
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 307
ISBN: 978-989-641-235-7
Ano de publicação: 2011

O mais recente conto de Alice Munro foi publicado a 27 de Junho, na revista New Yorker. Intitula-se Gravel (Gravilha) e começa por descrever uma cova não muito funda, junto à caravana onde o narrador, então criança, vivia com a irmã mais velha, a mãe grávida, o amante desta e uma cadela chamada Blitzee. A mãe saíra de casa, levando consigo as crianças, depois de confessar ao marido que o filho não fora gerado por ele, mas pelo outro, um actor de uma companhia teatral recentemente chegada à cidade. Segundo Cynthia Ozick, a octogenária Munro (completou 80 anos a 10 de Julho) é «o nosso Tchéckhov». O mestre russo dizia que se no primeiro acto de uma peça vemos uma espingarda pendurada na parede, no último acto ela tem forçosamente de ser disparada. Com a cova de Gravel acontece o mesmo. No Inverno, a neve derretida transforma-a num pequeno lago. É aí que se desenrola a tragédia. Agarrada a Blitzee, a irmã lança-se à água. Nunca perceberemos porquê. Mas o narrador, incapaz de reagir na altura, arrastará toda a vida o fardo dessa súbita paralisia, o peso de não ter evitado aquele afogamento e o respectivo rasto de dor.
Embora escrito um quarto de século mais tarde, este conto podia perfeitamente juntar-se aos 11 textos que compõem O Progresso do Amor, uma colectânea de 1986, agora disponibilizada aos leitores portugueses numa excelente tradução de José Miguel Silva. Neste volume, há mesmo dois contos que representam uma espécie de variação, em negativo, da história de Gravel. Em Miles City, Montana, um casal canadiano viaja de carro nos EUA, com as duas filhas. Num dia particularmente quente, param numa piscina municipal para as miúdas se refrescarem. Por ser hora de almoço, a piscina está fechada mas a nadadora-salvadora deixa-as entrar. Os pais ficam de fora, no automóvel. Talvez guiada por um sexto sentido, a mãe inquieta-se no preciso momento em que a mais pequena desaparece nas águas, longe do olhar da primogénita, distraída com os beijos trocados entre a nadadora-salvadora e o namorado. Milagrosamente, o pior não chega a acontecer. Mas a possibilidade da «mais banal das tragédias» fica a pairar: «E se eu não tivesse tido naquele instante o impulso de ver onde estavam as crianças? E se tivéssemos ido à cidade buscar bebidas, como chegáramos a pensar?» A mera possibilidade da morte iminente de quem amamos, um golpe capaz de nos destruir (e não tão improvável quanto isso), deixa inevitavelmente as suas marcas.
O outro conto é Monsieur les Deux Chapeaux, exemplo perfeito da mestria narrativa de Munro. Colin e Ross são irmãos bastante parecidos, embora o segundo, mais novo, tenha aura de falhado. Na escola em que Colin dá aulas de ginástica, cabe a Ross aparar a relva e outros trabalhos menores. Nos últimos tempos, ele anda obcecado em artilhar o seu carro com um motor muito potente, talvez até potente demais para a fragilidade da carroçaria. Este risco, de que Colin toma consciência durante uma festa, reacende no irmão mais velho um instinto de protecção. Mas de onde vem esse instinto quase físico? Vem lá muito de trás. Depois de ter estabelecido habilmente a teia de relações entre as várias personagens, Munro desenterra, pela voz da mãe dos rapazes, Sylvia, a história fundadora dos equilíbrios familiares. Um dia, durante uma brincadeira perigosa, Colin disparou uma arma, sem querer, contra Ross. Por momentos, julgou que o irmão fora atingido mortalmente e fugiu para o topo de uma ponte, talvez com intenções suicidas. Só depois de ver Ross ileso, embora «não verdadeiramente arrependido» da partida estúpida que lhe quis pregar, é que «tudo começou a regressar ao que sempre fora». Mais uma vez, «o que por pouco não acontecera» condiciona para sempre aquelas pessoas e os seus actos.
Em quase todos os contos assistimos a um trabalho de escavação semelhante. Há sempre uma verdade das personagens que está escondida — por vezes delas próprias (através de complexos mecanismos de defesa) — e o trabalho da ficcionista é trazer essa verdade à superfície. Com extraordinária precisão, Munro cruza os vários tempos de cada história, organizando-os em torno de uma epifania, de uma revelação, momentos que tornam tudo mais claro (ou mais insondável), reverberando depois através da existência de quem os presenciou, em muitos casos fixando um sentimento que é levado ao extremo (desespero, compaixão, amor). São «clareiras na vida», sugere Munro. Lugares onde as coisas ganham sentido. E em que nós, leitores, entramos siderados.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Man Booker International para Alice Munro

A escritora canadiana Alice Munro venceu a edição deste ano do prémio Man Booker International (que é atribuído de dois em dois anos, pelo conjunto da sua obra, a escritores de qualquer nacionalidade, desde que os seus trabalhos estejam disponíveis em inglês), e não do prémio Man Booker (que distingue anualmente um livro concreto, «o melhor romance publicado [nesse ano] por um cidadão da Commonwealth ou da República da Irlanda»), como anunciou o Público na sua edição de hoje, em papel.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges