Houve aqui alguém que se enganou

A esta hora, os responsáveis do PNL devem estar a dizer: ups. Acontece aos melhores. Eu tive a honra de apresentar o livro da Alice Vieira em Maio de 2009, na livraria Ler Devagar, e não acho mesmo que aqueles poemas de amor (eis dois exemplos, dos menos explícitos) sejam adequados para a minha filha (também Alice), justamente uma aluna do segundo ano de escolaridade.

Alice Vieira premiada na Suécia

A edição sueca de Flor de Mel, uma obra de literatura juvenil de Alice Vieira (publicada pela Lusima Böcker, com o título Honungsblomma), acaba de ser distinguida com a Estrela de Prata do Prémio Peter Pan, instituído em 2000 pelo IBBY da Suécia e pela Feira do Livro de Gotemburgo. A entrega do prémio acontecerá no próximo mês de Setembro.

Dois poemas de Alice Vieira

Sempre amei por palavras muito mais
do que devia

são um perigo
as palavras

quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada

e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos

um perigo
as palavras

mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero

***

Aquele que o meu coração ama
não encontra em lado algum
o incenso que de meus olhos rompe
para ensinar a prender o corpo das mulheres
abandonadas fora de horas
às portas da cidade

mas sabe que para todas as distâncias
há uma ave enlouquecendo quem parte
do tempo
e a túnica que dispo entre os seus dedos
é a espada que os reis ungiram
para enfrentar a ameaça das manhãs
em que tudo acorda

[in O que Dói às Aves, Caminho, 2009]

Lançamento de ‘O que Dói às Aves’

Mais logo, a partir das 19h00, farei a apresentação do novo (e segundo) livro de poesia de Alice Vieira: O que Dói às Aves (Caminho). Será na nova (e segunda) livraria Ler Devagar, integrada no complexo cultural LX-Factory, em Alcântara (Rua Rodrigo Faria, 103).
Rosa Lobato Faria lerá alguns poemas.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges