A mãe dela

Durante muito tempo, tive tendência a olhar de lado para as novelas gráficas. Algures entre a literatura e a BD, nem carne nem peixe, pareciam-me apenas romances ilustrados, feitos para leitores preguiçosos. Como todos os preconceitos idiotas, este também ruiu assim que dediquei ao género a atenção que ele merece. Quando vi emergir, das páginas de Persépolis, a vida quotidiana no Irão de Khomeini, entendi duas coisas: 1) que Marjane Satrapi é uma artista invulgarmente subtil e talentosa; 2) que afinal isto das novelas gráficas tem muito que se lhe diga. Ou seja, elas não estão a meio caminho de coisa nenhuma, valem por si mesmas, e transformaram-se num dos mais interessantes territórios de experimentação ficcional da actualidade (à semelhança do que acontece com as melhores séries de TV dos canais de cabo americanos).
Aos poucos, fui descobrindo vários autores, mas nenhum me entusiasmou tanto como Alison Bechdel. Há uns meses, veio parar-me às mãos Fun Home – Uma Tragicomédia Familiar (edição portuguesa da Contraponto) e fiquei pasmado. Bechdel começou por se afirmar como cartoonista, assinando durante mais de vinte anos, em vários jornais, a tira cómica Dykes to Watch Out For, que acompanhava a vida e as opiniões de um grupo de personagens femininas, na sua maioria lésbicas como ela. A questão da identidade sexual é justamente uma das linhas narrativas principais de Fun Home. Bechdel fez o coming out aos 19 anos, uns meses antes do acidente que vitimou o pai, atropelado por um camião – uma tragédia em que a filha, mesmo sem ter provas, pressentiu a possibilidade de um suicídio. A comunicação difícil com esse pai enigmático e emocionalmente desligado da família – ele próprio um homossexual, mas incapaz de se assumir – salta para o primeiro plano desde cedo. É em torno dessa relação que o livro se organiza, numa estrutura complexa e graficamente muito inventiva, feita de avanços e recuos no tempo, desenhos minuciosos, planos que se sobrepõem, e uma escrita poderosa, muito precisa e saturada de referências literárias.
A figura do pai, esse mistério que a filha continua a tentar resolver muitos anos depois da sua morte, é tão intensa que ofusca o resto da família. A mãe e os irmãos mais novos estão quase sempre fora de campo, como se fossem meros figurantes numa tragédia que os ultrapassa. Que mãe era aquela?, pergunta-se o leitor, perplexo. A resposta chegou em 2012, após quase dez anos de trabalho obsessivo, no volume Are You My Mother? (Jonathan Cape, 290 páginas), um comic drama ainda mais brilhante do que Fun Home.

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Na essência, trata-se de um «meta-livro», um livro que narra a sua própria construção, uma obra que nos deixa espreitar a arquitectura interna (o modo como se vai fazendo, desfazendo, refazendo) e exibe, sem pudor, todas as dúvidas, dilemas, angústias, crises e soluções com que Bechdel se deparou durante o processo criativo. No início de cada um dos sete capítulos, entramos na história através de um dos sonhos de Alison, o que faz todo o sentido, já que a relação complexa entre mãe e filha é sempre explorada (e teorizada) a partir dos trabalhos abundantemente citados do psicanalista inglês Donald Winnicott, que têm nos diários e romances de Virginia Woolf (sobretudo To the Lighthouse) o seu contraponto literário.
Algumas das pranchas de Are You My Mother? são graficamente assombrosas, mas a sua força nasce da absoluta liberdade formal com que Bechdel vai intercalando materiais biográficos sensíveis (mostrados em toda a sua crueza), elaboradas digressões ensaísticas (sempre oportunas, embora por vezes fastidiosas) e verdadeiros achados visuais (grandes planos, ângulos inesperados, uma obsessiva atenção aos detalhes). Compreensivelmente, a mãe, que já ficara incomodada com o livro sobre o pai, teme o pior do sofisticado jogo de exposição pessoal da filha. Mas as páginas finais, em que Alison resolve de forma exemplar as várias tensões que atravessam o livro, não a deixam ficar mal. A mãe duríssima, que deixou de beijar a filha aos sete anos, obrigou-a a inventar um outro espaço, uma saída. E essa saída, para nossa felicidade, foi a arte, foi a escrita.

[Texto publicado no n.º 123 da revista Ler]

Jogos de Ícaro

Fun Home – Uma Tragicomédia Familiar
Autora: Alison Bechdel
Título original: Fun Home – A Family Tragicomic
Tradução: Duarte Sousa Tavares
Editora: Contraponto
N.º de páginas: 239
ISBN: 978-989-666-084-0
Ano de publicação: 2012

Publicada em 2006, após sete anos de um minucioso trabalho de escrita e ilustração, a «tragicomédia familiar» de Alison Bechdel integra-se num subgénero das novelas gráficas: o que faz da autobiografia um exercício de investigação sobre o lugar do autor no mundo. Exemplos maiores são o monumental Blankets, de Craig Thompson (Biblioteca de Alice, 2011), e Persépolis, a obra-prima de Marjane Satrapi (Contraponto, 2012). Em qualquer destes casos, o relato da própria vida e das suas incidências, muito focadas na transição problemática para a idade adulta, permitia uma visão panorâmica de realidades sociais concretas. Thompson mergulha-nos na asfixiante atmosfera religiosa da América profunda (Wisconsin), difícil para um adolescente em crise de fé; enquanto Satrapi traça um memorável fresco da sociedade iraniana na década de 80, quando o fundamentalismo islâmico instaurou a sua lei (posta em causa pela rebeldia da jovem Marjane, num registo que oscila entre o humor corrosivo e a denúncia crua dos factos). Ao narrarem os seus processos de crescimento e libertação, tanto Thompson como Satrapi descrevem um movimento centrífugo (Craig perde o primeiro amor e sai de casa dos pais; Marjane instala-se na Europa, falha a adaptação, regressa à pátria, desilude-se, e parte de vez para França). Pelo contrário, o movimento descrito por Alison Bechdel em Fun Home é centrípeto, virado para dentro, fixando-se na procura de um sentido para a relação complexa entre a autora e o pai.
A cena inicial determina desde logo os termos desta relação. Deitado num tapete da sala, Bruce Bechdel sustém o peso da filha pequena com os pés, uma acrobacia a que se convencionou chamar «jogos de Ícaro». Ao equilíbrio precário e desconfortável, Alison contrapõe a alegria pelo «raro contacto físico» e estabelece a primeira de muitas inversões simbólicas que atravessam o livro: ao replicarem o mito de Dédalo e Ícaro, «não fui eu mas sim o meu pai quem se despenhou do céu». Esta queda consubstancia-se num acontecimento trágico: a morte de Bruce, atropelado por um camião. Sem ter elementos que o provem, Alison suspeita de suicídio. Havia duas semanas que a mãe lhe pedira o divórcio. E meses antes fora ela a fazer o coming out, anunciando por carta a sua homossexualidade. Um anúncio ofuscado pela revelação de que o pai sempre fora gay, mantendo relações secretas com alunos e outros rapazes. Enquanto ela afirma a sua identidade, mesmo antes de experimentar o sexo com mulheres, Bruce mostra-se incapaz de sair do armário – e Alison vê na tensão entre estas duas atitudes, tão díspares, um gatilho possível para o gesto fatal.
De certa forma, é em volta deste nó, desta dúvida, que o livro se organiza. Tanto a mãe como os irmãos ficam em segundo plano, são figuras apagadas, difusas, dando todo o espaço a Bruce e às suas idiossincrasias. Professor de inglês que herda uma agência funerária, obcecado pela decoração da casa vitoriana, ele cultiva uma «fria distância estética» que o desliga emocionalmente da família («tratava os móveis como se fossem filhos, e os filhos como se fossem móveis»), passando o tempo a ler, tal como Alison. É aliás nesse território comum, o da leitura, que a verdadeira comunicação entre os dois se dá, quer pela troca directa de livros, forma de expressar o que nos diálogos fica só implícito, quer pelo recurso a elaboradas referências literárias (Camus, Wallace Stevens, Proust, Scott Fitzgerald ou Joyce) que se entranham na estrutura do relato, iluminando-o.
Bechdel consegue uma coisa rara: o equilíbrio perfeito entre o texto – poderoso, de grande força evocativa, embora por vezes demasiado denso – e um trabalho gráfico que parece linear, mas na verdade é bastante complexo (repare-se na atenção maníaca aos detalhes, nos muitos planos que cabem numa mesma prancha, na integração orgânica de elementos reais: mapas, diários, fotografias). Sendo excelente o trabalho do tradutor, lamenta-se apenas que a aguada verde-cinza do original, com a sua «qualidade sombria e elegíaca» (nas palavras da autora), se tenha perdido pelo caminho.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges