Sociedade Columbófila

O Ano da Morte de José Saramago
Autor: Amadeu Baptista
Editora: &Etc
N.º de páginas: 45
ISBN: 978-989-8150-26-4
Ano de publicação: 2010

Autor prolífico, Amadeu Baptista é um poeta de passada larga, cheio de verve e ímpeto, cuja escrita dá a ideia de estar sempre em processo de expansão. Talvez por isso, ele vem sendo um dos raros cultores do poema longo, de que é exemplo o seu mais recente livro: O Ano da Morte de José Saramago (&Etc). A partir da «província exangue» (Viseu), a 125 quilómetros do Porto, o poeta «cosido de sombras» dá largas ao seu «cruel desconsolo» diante do «transe contemporâneo que se apropria de tudo». No plúmbeo 2010 de todas as crises (financeiras mas não só), fixam-se feridas abertas e desalentos, «esgarçado que foi o azul das interrogações do mundo».
As imagens recorrentes dos pombos que pairam sobre a cidade, em seus «pombais parados e vertiginosos», bem como a ameaça das lojas chinesas (emblema de uma globalização que torna tudo «avulso» e «repulsivo»), provocam no poeta uma reacção lírica, a partir do único exílio possível: esse «desusado rumor dos versos» que também pode ser um «inferno capital». O poema avança então em diálogo explícito com outro poeta (Nuno Dempster), companheiro da estirpe dos «homens calados que não podem estar calados», com quem deambula pela memória de uma infância mitificada e respectivas geografias sentimentais (tendo o Porto como epicentro). Além deste resgate de momentos, gestos e objectos desaparecidos, quase sempre em tom melancólico, assinalando as perdas, há duas figuras femininas que irrompem como arquétipos contrastantes: de um lado, Cacilda, objecto do seu «amor infantil», vendedora de hortaliças cuja morte violenta marcou a perda da inocência; do outro, uma rapariga idealizada («olhos azuis, / madeixas incandescentes no cabelo»), com a sua caixa de lápis de cor a ser metáfora do «mistério da arte», entendido como «o único predomínio que nos salva».
A unir as muitas pontas deste poema centrífugo, transbordante e sôfrego, está um acontecimento concreto: a morte de José Saramago, principal catalizador das reflexões do poeta, quando este se embrenha a fundo na complexa amálgama de tempos. O desaparecimento do escritor paira como os pombos, projectando uma sombra de negrume irredimível. As suas cinzas juntam-se às de outros (Gramsci, Pasolini, «não tardarão por aí as nossas»), embora «melhor seria que não houvesse cinzas, / que dos livros só restasse o volume das páginas, / mas todas em branco, / todas imaculadamente brancas, / sob a acção magnânima de um vento poderoso, / um vento que tudo varresse na pátria pesarosa, / amarga, / padecente, / hipócrita, / desolada».

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 97 da revista Ler]

Uma deriva controlada

Os selos da Lituânia
Autor: Amadeu Baptista
Editora: &Etc.
N.º de páginas: 76
ISBN: 978-989-8150-10-3
Ano de publicação: 2009

Amadeu Baptista é um caso singular na literatura portuguesa. Embora seja um autor prolixo, a sua obra tem mantido uma assinalável constância qualitativa, como se pode verificar em Antecedentes Criminais (Antologia Pessoal 1982-2007), que as Quasi editaram há menos de dois anos. De então para cá, Baptista lançou nove títulos (se não é recorde, anda lá perto), o que se explica em parte pela urgência expressiva de um poeta torrencial por natureza, e em parte pelas dificuldades económicas que o atormentam. Desempregado de longa duração, tem feito da vitória sistemática em concursos literários uma espécie de actividade profissional, ao ponto de poder dizer-se que vive literalmente da poesia (se não é caso único, anda lá perto).
Em Os selos da Lituânia, Baptista recorre ao poema longo como forma de organizar recordações dispersas da infância e da adolescência, num «ajuste de contas com o passado» que deixa atrás de si um denso rasto de melancolia. O ponto de partida é quase sempre um momento forte, traumático ou epifânico: uma ida à praia («para ver do mar o fundo»), o primeiro dia de aulas, o velório da avó que a cidade em breve eclipsará, uma carga policial vista de longe (apertando a mão da ama assustada), visões líricas do mundo natural (um bosque, um pomar de limoeiros), os castigos corporais, a descoberta do sexo, retratos vívidos de familiares próximos, etc.
À medida que avança através das sombras, tanto do espaço como do tempo, o discurso assume a forma de uma deriva controlada, em que o sujeito poético se entrega às marés da memória, mas sem nunca perder o pé. Esta é uma poesia da contemplação e do desamparo face às arestas cortantes do mundo, um mundo em que o «irreal mostrava-se, de súbito,/ a única custódia possível para os olhos». Baptista acredita no poder de resgate da poesia, esse «denso» e «inquestionável» mistério que, entre outras coisas, «ampliava/ os recantos do sótão», nessa casa de família em que agora se sobrepõem, coalescendo, outras casas – com os seus próprios instantes, e silhuetas, e gestos perdidos. A crença no poder da poesia, porém, não o cega para os aspectos mais brutais da realidade, antes lhe provoca a «angústia de quem sabe/ que nenhuma palavra é redentora/ e um verso ou uma frase não nos salva/ do que quer que seja». O último poema, com os seus «traços de leveza» vagamente erótica e juvenil, deixa ainda assim uma esperança na vertigem dos sentidos como uma forma possível de sobrevivência.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Um poema de Amadeu Baptista

escrever pode ser, naturalmente, ter três anos,
estar na praia num dia muito quente
e sentir que alguém nos apanha pela cintura
e mergulha nas ondas violentas
de um mar revolto, vendo num relance
a multidão em volta, toucas amarelas,
biquínis coloridos e o homem da bolacha
americana, de boné enfeitado com uma âncora,
a percorrer o areal em toda a extensão
que vai do paredão à casa do banheiro.
vir num soluço à tona de água e voltar
a submergir com um grito preso na garganta
para ver do mar o fundo, aquelas algas
ameaçadoras num bailado aquoso
que as lágrimas ainda mais adensam.
se não for isso, pode ser, exactamente,
ter um profundo conhecimento da palavra
garrotilho, ter estado de cama com sarampo
e a janela para a rua resguardada
por um pano vermelho que vai do chão ao tecto,
sentindo muita sede, sem poder
sequer molhar os lábios, ou, então, ouvir
a tarde toda os gemidos de alguém
a quem diagnosticaram esclerose múltipla, a regredir
na idade e a ir morrendo aos poucos
de drageias brancas. escrever pode ser, exactamente,
ter um medo mortal de ir à escola, e sofrer
os efeitos maiores da crueldade
que os mestres manifestam nas crianças,
as páginas à deriva entre a baba e o ranho,
as pernas aflitas por todo aquele pânico,
doridos nós dos dedos e o coração
aos saltos, não sendo isso,
escrever pode ser, provavelmente,
um ajuste de contas com o passado,
ou até mesmo a lembrança dessa noite
em que o vento varreu o nosso quarto
e destelhou as casas circundantes, vitimando
o garboso pundonor do gato que cruzou
a estrada e foi atropelado por um balde
amolgado. não sendo isso, pode ser o cavalo
inquieto que no prado, certa vez, se vislumbrou, ou animais
degolados, com as vísceras entrançadas
num novelo no alpendre, perto da roupa
pendurada na corda de secar. ou a noite,
imensa e perdurável, em que alguém
bateu à nossa porta e não entrou,
e nós com a lanterna tentámos ver
sob a chuva que vergasta ainda
as sebes que há em volta do cercado,
o cata-vento em forma de avião, os cardos
do baldio, se não foi isso, será, precisamente,
aprisionar o rosto a um lugar
para não ceder, ir com o corpo adiante procurar
o ritmo das paixões, as mais vorazes,
as que podem produzir assassinatos, estontear
as cabeças, irromper de um céu de sombras
verdadeiras, mesmo que não haja céu,
mesmo que não haja sombras
e nas letras resplandeça
pouca coisa.

[in Os selos da Lituânia, &Etc, 2009]

Dois lançamentos, três livros

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Em dois dias consecutivos, Amadeu Baptista vai lançar em Lisboa os seus três mais recentes livros de poesia, todos editados pela Cosmorama. Armandina Maia apresentará O Bosque Cintilante, Joana Ruas falará dos Poemas de Caravaggio e Inês Ramos de Sobre as Imagens.
A primeira sessão é já amanhã, na Fábrica Braço de Prata (20h00). A segunda está agendada para quinta-feira, dia 25, na FNAC do Chiado (18h30).

Mais um prémio de poesia para Amadeu Baptista

Desta vez foi em Espanha, na Galiza. A XVI edição do Prémio de Poesia Espiral Mayor, ao qual concorreram 206 obras, foi atribuída por unanimidade ao livro Açougue, de Amadeu Baptista, que receberá 15 mil euros. O júri, composto pelos poetas Xosé María Álvarez Cáccamo, Xavier Rodríguez Baixeras e Miguel Anxo Fernán Vello, destacou a originalidade da “estrutura do conjunto poético, com uma base autobiográfica”, assim como a sua “capacidade de evocação do passado”, que permite desenhar uma crónica pessoal que “ilumina” uma espécie de “crónica colectiva” do povo português.

Descida da cruz

Vi os homens do alto da cruz, mas não vi o demónio.
O demónio dir-me-ia que a morte é vital, mas nada ouvi, aqui,
nesta paixão, sendo que apurei o ouvido e nem o eco das montanhas
do Moab ouvi, só ouvi como é doce a paixão e como esta crucificação
rende preito à esperança dos homens, tal como, de mim para comigo,
disse tantas vezes, e à multidão dos homens repeti.

Há coisas que não ouço e que não vejo, o demónio não vi, eis o que sei,
ele, se me visse nesta cruz, por certo choraria, pelos seus mil olhos
eu sei que choraria, pelos seus mil demónios no olhar, enquanto
chega a morte para que tudo se perfaça sobre o sofrimento,
a esponja do vinagre, a lança no flanco, os gritos das mulheres,
o grave galope dos cavalos a reter a multidão na sua esperança aflita.

Vi os homens do alto da cruz, mas não vi o demónio, essa luz
tão diferente, esse asco assinalável, mas não menos amistoso
pela demoníaca presença se aqui tivesse vindo, sendo que não me negaria
como outros me negaram, ah, não, não me negaria o que me persegue,
diria quem eu sou e qual o meu nome, e como os maltrapilhos desta terra
exercem pelo seu nome o nome que eu tenho, todos quantos
só pela minha dor rejubilam e se podem salvar.

Não vi aqui o demónio, nem vi Deus, vi o cálice e vi o abandono,
e vi a terra toda ensanguentada e Adonai ausente, ausente em parte incerta,
enquanto as mulheres e os homens se enlaçavam,
e foi a manhã inicial,
e a coroa de espinhos perfurava as minhas têmporas,
e os homens e as mulheres se enlaçavam,
e foi a noite inicial,
e por amor se uniram e geraram filhos,
enquanto sobre o Gólgota ecoavam os oboés e as trompas.

[in Sobre as Imagens, de Amadeu Baptista, inédito]

Amadeu Baptista: “Se não tivesse ganho estes prémios, estaria na miséria”

Amadeu Baptista

Vencedor da edição portuguesa do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica, anunciado oficialmente ontem, Amadeu Baptista (n. 1953) começou a publicar em 1982 (As Passagens Secretas) e tem 20 livros editados em Portugal, além de poemas traduzidos para alemão, castelhano, catalão, francês, hebraico, italiano, inglês e romeno.
Em entrevista feita por e-mail, falou a este blogue da génese de Sobre as Imagens (o livro premiado), da escrita compulsiva, do seu “sistema” poético, do desemprego que vai enganando com o dinheiro dos vários prémios ganhos nos últimos meses e do “enxovalho” a que a maior parte dos autores estão sujeitos em Portugal.

A obra com que venceu o Prémio Palavra Ibérica tem como ponto de partida os 14 painéis do retábulo da capela-mor da Sé de Viseu, expostos no Museu Grão Vasco. O que é que o levou a este exercício de écfrase, aliás recorrente na sua obra?
Vi pela primeira vez os painéis do retábulo da capela-mor da Sé de Viseu na infância, além das obras de referência de Vasco Fernandes, designadamente o seu S. Pedro, que nunca mais esqueci. Há pouco tempo tive oportunidade de rever o conjunto (mas tinha-o vivo na memória, essa crença que sempre acompanha os poetas para o bem ou para o mal) e logo ficou a germinar a ideia de fazer uma série de poemas sobre eles, levando em linha de conta o seu esplendoroso poder, por um lado, e, por outro, o facto de, neste caso, como em tantos outros, serem obras-primas praticamente desconhecidas dos portugueses. Temos o grande defeito de desprezarmos o que é nosso e acontece que nos desarmamos por não amarmos o que nos pertence. Por isso, mais do que o mero intuito ecfrásico, de que por acaso até tenho algumas dúvidas ser assim tão evidente, pretendi, antes de mais, com a escrita de Sobre as Imagens, servir-me da minha natural apetência para a escrita para a realização de um prazer pessoal, pelo entrosamento dos poemas com estas obras em particular, e um modesto serviço público de divulgação da nossa arte, que também pode ser feito por esta via.

À agência Lusa, afirmou estar neste momento a escrever poemas inspirados em 500 obras de arte. Não 5 nem 50, mas 500. Repito por extenso: quinhentos. Isto é o quê? Uma obsessão ou um ataque de megalomania?
É um projecto, nada mais do que isso. Um projecto que está em fase de realização e que espero que o meu instinto consiga levar a bom porto. É, antes de mais, um trabalho, sem pretensões a ser mais do que isso mesmo. E nem estou preocupado em saber se conseguirei encontrar um editor para um volume tão extenso, quando, e se, o terminar. Isso é o que menos me preocupa durante o processo de criação, que lá terá as suas leis despóticas, embora nunca se saiba muito bem qual elas sejam. E isto para dizer que, antes de mais, escrevo para mim mesmo. E que me encoraja o desafio, sobretudo se está delineado à partida por um caminho a percorrer, seja ele de 5, de 50, ou 500 poemas. Importa é saber se ‘a tinta não está seca e se levanta as lebres’, como diz o meu amigo António Cabrita, a que este país ignaro empurrou estupidamente para o exílio, a propósito destas coisas.

Em pouco mais de seis meses, ganhou quatro prémios literários. Como é que explica esta prolixidade? Tinha os livros na gaveta?
Uns, sim. Outros, não. No caso específico de Sobre as Imagens o livro era, à data, o meu livro mais recente, tal como aconteceu com Poemas de Caravaggio (Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire, 2007) e Outros Domínios (Prémio Literário Florbela Espanca, 2007). O Bosque Cintilante (Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, 2007) esteve na gaveta uns dez anos, até que resolvi pô-lo a mexer, em direcção ao mundo. Mas a verdade é que, embora não saiba muito bem o que seja a prolixidade, sou capaz de preparar um livro em muito pouco tempo (alguns dias bastam, até porque corro o risco de perder a mão que dá unidade ao livro se não estiver atento ao ritmo da escrita), seja por acesso de raiva de escrevente em busca do que não existe, seja porque a tal satisfação pessoal me incita a perseverar no projecto do conjunto. Sei que haverá quem pense que é uma blasfémia confessar que escrevo poesia directamente no computador, mas escrever assim não só me garante uma tensão mais próxima e veloz no fio da escrita como também me permite não ter que me confrontar com os hieróglifos da minha caligrafia, que, cada vez mais, me são menos legíveis. Quanto a livros inéditos, já deixei de os contar. Devo ter mais de 25 livros inéditos, fruto, exactamente, da perseverança que quem escreve deve ter, sob pena de se afastar inexoravelmente do que pretende realizar.

Não teme ser visto como um papa-prémios, um caça-níqueis, um rival bastante sério de José Jorge Letria nestas lides?
Escrevo desde que me conheço e estou-me borrifando para o que os invejosos possam pensar do facto de concorrer a prémios literários e os ganhar. O Camões sabia muito bem o que estava a fazer quando pespegou como última palavra de Os Lusíadas a palavra inveja. Não tenho que defender o José Jorge Letria, cuja obra conheço mal, diga-se de passagem. Tal como, no caso, não tenho que me defender dos ciumentos da obra alheia, que não têm estatura senão para a cobiça, a preguiça e a desonestidade intelectual. Não frequento capelas, tenham elas a marca que tiverem. Quem me conhece sabe como facilmente me nauseia o panorama ‘literário’ da paróquia e que quem está a meu favor está, sem rebuços, a meio do caminho do meu desfavor, sendo que não me faltam os inimigos de estimação — que não passam disso mesmo, porque não têm talento para mais. Acontece é que um desempregado deve usar a enxada que tem à mão para se defender das vicissitudes da vida. Mal de mim senão tivesse ganho os prémios que ganhei nestes últimos meses: não estaria no limiar da miséria, mas no seu centro geográfico, sem outra solução do que morrer à fome. No caso, sou como os dois milhões de portugueses a quem, com muita humildade, presto a minha reverência, com lágrimas nos olhos.

Que importância é que estas distinções acabam por ter na sua actividade poética? São um incentivo? Abrem portas? Aceleram o processo de publicação?
Eu mesmo me incentivo à criação, esse paradoxo salvífico, de que muito me orgulho porque é fruto do meu trabalho e da minha teimosia. Quanto a saber se as portas se abrem, penso que a questão é demasiado redutora. A questão é saber se, neste país, aqui e agora, há portas — e a que abismos de fome e desencanto elas vão dar. E se há pachorra para sequer delas nos querermos aproximar, tendo em vista a indigência mental que vai nos corredores e as práticas fascistas da democracia vigente. Logo se verá a questão da publicação — e em que termos. Publicar livros em Portugal é outro enxovalho a que os autores podem estar sujeitos senão estiverem atentos e crispados. Já não falo do roubo sistemático dos direitos de autor, que raramente são pagos (há, é claro, as excepções honrosas), mais a mais tratando-se de poesia, mas da falta de consideração pelo resultado de um trabalho aturado e efectivo, que duas penadas de um qualquer plumitivo de serviço pode condenar às calendas do ostracismo ou da condenação soez, tão do agrado da mesquinha gente. E nem sequer falo por mim, que até nem me posso queixar de alguma fortuna crítica, mas pelo que se vê, se se olhar com atenção e cuidada vigilância. Ponha-se nisto mais a tendência para o assassinato dos que, com talento e trabalho, dão voz, testemunho e defesa da nossa cultura e está tudo, mais ou menos, dito.

Se lhe pedisse para escolher um poema central de Sobre as Imagens, qual seria?
Um poema central de Sobre as Imagens? É difícil escolher, porque, como se sabe, um autor está sempre apegado aos seus pertences, como o musgo à pedra — e magoam-lhe as escolhas. Mas pronto, a ter de destacar um, destaco Descida da Cruz.

Em 2007, editou Antecedentes Criminais (Quasi), uma “antologia pessoal” da sua obra publicada desde 1982. De que modo é que os novos livros se aproximam e afastam desse corpus?
Os novos livros são uma parte do meu ‘sistema’ poético, que só se completará quando eu morrer — ou se deixasse de escrever, coisa que, nem por sombras, está no meu horizonte de curto, médio ou longo prazo. Se deixasse de escrever, mesmo entendendo a escrita como coisa tão compulsiva a que não me é possível escapar jamais, estaria a vedar a mim mesmo toda a capacidade de respiração, toda a minha aptidão para resistir, na luta quotidiana. É certo que escrever é um suicídio permanente, que, a prazo, terá consequências inultrapassáveis. Mas aqui, digamos, para sintetizar, que o que faço tem o estigma das rectas paralelas, que, como se sabe, acabam sempre por se encontrar no infinito, que nada mais é que um dos outros nomes que tem o esquecimento.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges