O lápis na água

Ana Luísa Amaral pegou no copo e verteu água lá para dentro até meio. «Alguém tem um lápis que me empreste?» Estávamos, eu e ela, na Escola Básica 2/3 de Rates, perto da Póvoa de Varzim. À nossa frente, dezenas de alunos do oitavo e nono ano convocados para um encontro com autores, incluído na programação das Correntes d’Escritas. De uma das filas do meio, levantou-se um rapazinho tímido, lápis na mão. Ana Luísa agradeceu, pegou no pequeno cilindro de grafite e madeira, mergulhando-o na água. «Estão a ver?», perguntou, copo levantado no ar. «Reparem na percepção que têm agora do lápis. Ele não perdeu nenhuma das suas características, mas, devido ao fenómeno físico da refracção, parece maior. Parece outra coisa, parece diferente.» Onde está o copo com água até meio e lápis, leia-se poema e seu objecto. O poema não deve reflectir a realidade, deve refractá-la. Silenciosos, atentos, os miúdos perceberam a analogia, sem necessidade de grandes explicações.
«As Correntes d’Escritas são um lugar de resistência», lembrou Jaime Rocha, no final da sexta mesa. Resistência cultural. E resiliência. Numa altura em que os cortes orçamentais se tornaram regra e em que muitos projectos são suspensos, ou ficam congelados, ou pura e simplesmente desaparecem, porque não há dinheiro, porque as autarquias deixam de apoiar, porque os subsídios se eclipsaram (ou emagreceram tanto que deixam de ser suficientes), é admirável ver como as Correntes se mantêm de pé, firmes, com o auditório municipal ainda mais cheio do que em edições anteriores – aliás, a rebentar pelas costuras, mesmo em sessões habitualmente menos concorridas (quinta à tarde, sexta de manhã). Como sempre, os escritores foram subindo ao palco, respondendo aos motes nunca lineares que a organização sugere, desta vez versos retirados das obras finalistas do Prémio Casino da Póvoa, atribuído ao livro A Terceira Miséria, de Hélia Correia (Relógio d’Água).
Um dos aspectos mais marcantes da edição de 2013 foi a omnipresença da crise e do seu reverso: a revolta cada vez mais generalizada contra o sufoco da austeridade. Noutras edições das Correntes, já se tinham ouvido referências à situação económica e política do país, mas nunca como este ano. Volta não volta, quando algum orador se referia a um certo ministro com obscuras habilitações académicas, ou fazia uma piada sobre a obrigatoriedade de pedir factura, o público logo respondia com um burburinho cúmplice, bruáá, gargalhadas. «Já faltou mais para se ouvir a Grândola», dizia alguém na tarde de sexta-feira. E foi profético. Nessa mesma noite, Rui Zink precipitou o inevitável. No fim da sua intervenção, durante a qual se referiu à importância da acção cívica dos escritores e ao novo verbo que circula pelas redes sociais (grandolar; isto é, cantar a Grândola em sinal de protesto), lançou uma das suas provocações: «Eu não sou menos do que o ministro Relvas. Se ele, só com uma licenciatura, foi interrompido pela Grândola, eu, que sou doutorado, também quero ser. Vou continuar a falar durante mais três horas se vocês não me interromperem com a canção do Zeca.» O resultado foi o que se imagina. Apoteose, vozes ao alto e uma desculpável desafinação.
Logo no primeiro dia, ao reagir ao prémio para A Terceira Miséria, Hélia Correia dissera que os seus poemas cantam um país (a Grécia) massacrado pelo horror económico e devem ser lidos como o grito da «cantiga de alevantar», de José Mário Branco. Alevantemo-nos, então. Grandolemos. É extraordinário ver músicas quase esquecidas renascerem de um momento para o outro como instrumento de luta e mobilização. No hotel Axis Vermar, onde à noite os escritores, editores e jornalistas se juntam para conversas e copos, a Grândola teve direito a vários encores, ouviu-se ainda o Acordai, de Fernando Lopes-Graça, e até a Internacional. Na brincadeira, discutiu-se o que seria mais importante numa futura revolução: as palavras ou uma AK-47? Nas Correntes d’Escritas, o ar do tempo não fica à porta. Entra nos debates e nos momentos de lazer. É como o poema da Ana Luísa Amaral, o lápis dentro de água, refracção à espera de quem lhe dê um novo sentido.

[Texto publicado no n.º 122 da revista Ler, em Março de 2013]

Os mil degraus do verso

Vozes
Autora: Ana Luísa Amaral
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 117
ISBN: 978-972-20-4781-4
Ano de publicação: 2011

No ano passado, Ana Luísa Amaral reuniu a sua obra poética completa num só volume (Inversos. Poesia 1990-2010, D. Quixote); coordenou uma edição anotada das Novas Cartas Portuguesas (na mesma editora); e traduziu, para a Relógio d’Água, Cem Poemas da norte-americana Emily Dickinson. Hiperactividade ou mera coincidência de projectos autónomos? Provavelmente coincidência. O certo é que ALA mal deixou que a poeira assentasse sobre Inversos e temos já nova obra original, Vozes, mais um exemplo da pujança criativa da autora.
Muitos dos poemas deste livro circulam por paisagens reconhecíveis: os ritmos do quotidiano, as epifanias domésticas, o rasto de coisas «evanescentes» que se guardam «por comovidas gavetas e memórias». Mas há também outras atmosferas. Por exemplo, o lirismo sossegado dos oito fragmentos sobre os Açores, como que a pairar sobre a geologia das ilhas, intuindo a criação do mundo na beleza agreste do basalto. Ou os «apontamentos» aéreos, escritos num avião, mais alto do que as nuvens («como exércitos / pintados»), por entre referências ao triste fim de Ícaro.
A escrita de ALA tem quase sempre uma dimensão lúdica, de experimentação e prazer no trabalho da linguagem, que neste livro se cruza com uma espécie de ventriloquismo, uma vontade de se aproximar (e, nalguns casos, de se apropriar) de outras «vozes», sejam elas estritamente poéticas (Rilke, Camões, Bocage) sejam históricas (Galileu na sua torre; D. Dinis e os navegadores que abriram caminho para novos mundos; ou Pedro e Inês imaginados na velhice, num delicioso exercício de ironia em que o desejo carnal do rei se reduz ao «bom bife / de javali macio», tendo ficado há muito para trás a «fantasia peregrina» de «ver Inês em esquife»).
Muitas vezes, esta desarmante ironia, espécie de antídoto para a solenidade, começa logo nos títulos (Junto a um levíssimo pormenor de estilo ou Gato em apontamento quase barroco e de manhã de sábado). Tudo se joga, afinal, «no avesso / das palavras // que não chegam / – mas cegam». Tudo se resume a «subir a pulso / os mil degraus do verso, / e não voltar / atrás», sem perder de vista que os «estados da matéria» são ambíguos: «Mas nem isto é balada nem estão certas as sílabas / em poema que agora nem sólido, nem líquido.» Indeterminados ou não, os poemas nunca deixam de exibir um certo requinte no acabamento. Como no «quase soneto» onírico que termina assim: «E esse corpo adormece ao nosso lado, / depois de tudo o resto acontecido // – que nunca acontecera, se acordado.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]

Lançamento de ‘Vozes’

O novo livro de Ana Luísa Amaral, Vozes (Dom Quixote), vai ser apresentado por Joana Matos Frias amanhã, dia 11, no auditório do Planetário do Porto, a partir das 18h30. Haverá leitura de poemas por Teresa Coutinho, Pedro Lamares e pela autora. Tendo em conta o lugar em que o lançamento decorrerá, espera-se que no recital seja incluída a belíssima sequência sobre Galileu na sua torre.

Três poemas de Ana Luísa Amaral

A IMPOSSÍVEL SARÇA

Que mais fazer
se as palavras queimam
e tanta coisa em fumo em tanta coisa
sarças ardentes do avesso
o fogo em labaredas que mais
fazer

Que mais fazer
se nem a água tantas vezes
descrita abençoada
mas de mais e cristã
também castigo

Mas como nem castigo
nem as nuvens de fumo na sarça
do avesso
se tudo no avesso
das palavras

que não chegam
– mas cegam

***

PALIMPSESTO

Limpa o cesto bem limpo,
mas deixa lá ficar sombra ligeira:
essa primeira sílaba.
Sobre ela
podes encher o cesto com mais sílabas,
e até outras palavras.

Terás assim um cesto
que aos olhos de quem vê
é um cesto só teu,
onde escondeste as coisas
do costume dos cestos: flores, solidões,
rastilhos, bombas.

Foi limpo o cesto
aos olhos de quem vê,
mas tu sabes que não.
Que houve ali um momento de ladrão,
quando nele ficou
a sombra dessa sílaba.

E agora mostras
a toda a gente o cesto,
e não há sombra.
Há só a mão que surge
e pega no teu cesto,
o toma devagar.

E o olha com olhos de quem lê,
e o limpa muito limpo,
ao teu antigo cesto,
deixando lá no fundo,
disfarçada,
uma segunda sílaba.

***

GATO EM APONTAMENTO QUASE BARROCO E DE MANHÃ DE SÁBADO

Gentilmente curvado sobre a flor,
Percorre devagar nervura e centro.
E em tantos delicados argumentos
Vai avançando lentamente as folhas.

A cabeça pondera e repondera
Defronte a haste fácil, rente a terra,
E uma pedra minúscula e serena
Sobe no ar, acesa como fera.

Não conhece os segredos do soneto,
Sendo de ofício muito ignorado
A sua arte. E em curto minuete:

Uma garra afiada em pé de valsa,
Um dente a desdenhar a flor e a folha
E a cravar-se, feroz, na minha salsa.

[in Vozes, D. Quixote, 2011]

Lançamento de ‘Inversos’

Logo à tarde, pelas 18h30, na Biblioteca Almeida Garrett (Porto), o livro Inversos – Poesia 1990-2010, de Ana Luísa Amaral (Dom Quixote), vai ser apresentado por Maria Irene Ramalho. Haverá ainda leitura de poemas por Paulo Eduardo Carvalho e pela autora.

Três poemas de Ana Luísa Amaral

CONSTELAÇÕES

Usamos todos a ilusão
de fabricar a vida:
história, constelações
de sons e gestos

Usamos todos a suprema glória
do amor: por generosidade
ou fantasia, ou nada, que de nada se fazem
universos

Usamos todos mil chapéus de bicos
mal recortados e de encontro
ao sol:
o nosso mais perfeito em franja e bico
e um arremedo tal e seicentista
que ofuscando-se: o sol

Usamos todos esta condição
de pó de vento, ou de rio
sem pé: único dom de fabricar o tempo
em raiz de palmeira
ou de cipreste


ENCENAÇÕES E QUASE VOOS

Uma luz construída
ilumina
esses santos,
cada um sem o halo,
mas pombo circundante
na cabeça

São quatro santos no cimo
da igreja,
e cada um dos pombos escolheu
a face mais marcada,
os caracóis de pedra
que fossem mais macios

Talvez não sejam santos,
mas apóstolos, tão de barroco,
e o seu gosto a vestir:
um excesso de desvio
quase pecado

Apóstolos ou santos,
os pombos circundantes na cabeça
são halos delicados
que, julgando-se em céu,
vêem quase metade da cidade,
a meio: o rio e os telhados
de casas

Fingindo-se de mão a abençoar,
são adereço de um teatro
inteiro:
caos encenado
ou um perfil egípcio

E os caracóis solenes e sombrios
convidam ao pecado
e convocam-me aqui: noite de verão,
a liquidez do olhar:

Eu não poder,
em pedra,

abrir as asas

UMA COISA SEM TÍTULO E APÓCRIFA

Um Moisés
decepado
segurando nos dentes
bordão curto demais
para nascente

Um arbusto tão curto
que o seu fumo crescesse
para logo morrer
e nunca mais

Luminosas partículas de pó,
Abraão sem sequer
a dádiva de
sonho

Espaços de projecção como em cinema,
partículas de pó iluminadas:
o invisível pó que se respira em vão
em desertos de fé,
salas vazias

E uma coisa sem título
e apócrifa
nem sequer hora sexta
mas uma
(tão prosaica)
da manhã

[in Se fosse um intervalo, Dom Quixote, 2009; um livro que chega às livrarias na segunda-feira, dia 14]

Grande Prémio de Poesia da APE para Ana Luísa Amaral

A Associação Portuguesa de Escritores atribuíu o seu Grande Prémio de Poesia, no valor de 5000 euros, ao livro Entre dois rios e outras noites, de Ana Luísa Amaral. O júri, que decidiu por unanimidade, foi constituído por Ana Paula Arnaut, José Cândido Martins e Nuno Júdice.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges