Memórias do inferno tropical

Que Importa a Fúria do Mar
Autora: Ana Margarida de Carvalho
Editora: Teorema
N.º de páginas: 239
ISBN: 978-972-47-4639-5
Ano de publicação: 2013

Há ficções que vão direitas ao assunto, sem rodeios, contando logo o que têm para contar, e há outras que precisam de prolegómenos, circunlóquios e outras procrastinações narrativas. Para não deixar dúvidas ao leitor de que pertence a esta última categoria, o primeiro romance de Ana Margarida de Carvalho, jornalista da Visão, abre com uma personagem marginal que se alonga em queixumes sobre o seu estatuto. Embora lhe caiba o gesto que fecha o círculo maior da narrativa, ele sabe que vai ser rapidamente posto de parte, «como um figurante dispensado, que ainda permanece no set, à cata dos restos do catering». Por isso recusa dizer o que o levou a passear junto à linha do comboio, «numa madrugada húmida e mal amanhecida», descobrindo no meio do mato, embrulhado em meias de seda, um pacote de cartas que um homem insubmisso enviou à mulher amada.
Esse homem insubmisso chama-se Joaquim e naquele dia de 1934 está a caminho do campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, então ainda por estrear. Com ele seguem outros resistentes que participaram na revolta da Marinha Grande, onde por algumas horas existiu, nas barbas do Estado Novo, um soviete. Mas se os camaradas pensam na revolução, Joaquim só pensa em Luísa, a destinatária das cartas lançadas pela janela, a mulher que prometeu esperar por ele e que servirá de bálsamo mental para todas as provações que o esperam: os espancamentos da polícia (que na altura se chamava PVDE e não PIDE, como o texto sugere); a tormentosa viagem de barco; o «inferno tropical», com nuvens de pó amarelo, insectos, malária, fome e tortura; a crueldade dos algozes; o sofrimento inimaginável da «frigideira» (uma caixa de cimento rectangular, exposta ao sol, onde os prisioneiros enlouqueciam de calor extremo e solidão).
Lá mais para a frente, esta «infâmia do passado» acaba por ser evocada, em toda sua brutalidade, mas a autora coloca esse centro negro no final de um labirinto que é preciso percorrer. Quem ergue o labirinto é Eugénia, uma jornalista televisiva que entrevista Joaquim, na sua qualidade de sobrevivente do Tarrafal, e depois se deixa fascinar pela figura de um velho que tem, além de uma história de amor por resolver, uma farpa no coração desde os cinco anos (um sentimento de culpa terrível, associado a uma tragédia familiar). A narrativa avança então aos saltos, aos tombos, entre a caótica «tecedura dos pensamentos» de Eugénia, «em que a malha de um logo se cose com a de outro», numa vertigem que chega a ser cansativa, e a memória precária do idoso, narrador lento, lacunar, obsessivo. A jornalista atribui-se o papel de uma «Ariadne ao contrário», na missão de retomar «os vários fios das várias meadas que Joaquim ia desatando».
Entre verdade e verosimilhança, Eugénia escolhe a verosimilhança, porque «nunca sabemos o que sabemos, onde começa a nossa recordação e acaba a dos outros», nem até que ponto somos traídos pelo que julgamos ter acontecido. A memória é uma esponja, «cheia de lapsos e interstícios, e às vezes quando se espreme sai uma gota a custo, outras, um jorro torrencial». Aos poucos, porém, os dois acabam por acertar os seus ritmos, partilhando o tempo, os silêncios, até um gato. E a história de amor interrompida, com Luísa, é transfigurada pela improvável cumplicidade entre Joaquim e Eugénia, onde se projectam e entrelaçam as histórias e traumas dos dois.
Se a primeira parte do livro é marcada por um excesso de artifícios literários e de referências culturais, a segunda revela uma escrita muito mais despojada – o que só beneficia um romance que é tanto mais inteligente quanto menos exibe a sua inteligência.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges