Carne e voragem

Adornos
Autora: Ana Marques Gastão
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 79
ISBN: 978-972-20-4699-2
Ano de publicação: 2011

Neste livro de poesia, o seu sexto, Ana Marques Gastão fez corresponder a cada uma das partes um dos cinco sentidos: visão (Antevisão), tacto (O rapto), audição (Ondulações), olfacto (Inflorescências) e paladar (Confeitos). Esta é uma poesia sensorial, ágil e depuradíssima. Em vez de meros efeitos sinestésicos, porém, o que se busca é justamente o que os sentidos não conseguem apreender, a «invisível presença», o «indeterminado» que «se determina / pelo correr do tempo».
Para o sujeito poético, a escrita é «uma valsa, / blusa sem alça, / fractura d’um salmo / que amacio no papel». Aqui, imperam os ritmos puros e os movimentos aéreos (como passos de dança), a sintaxe elástica, as aliterações e rimas bruscas, a esquiva beleza que nasce do entrelaçar de elementos opostos. O mundo «não é senão / sonho, íris, degrau»; a vida «véu ou tocha», «tafetá ou monstro». À poesia – lunar, espectral, «neptúnica», feita de ressonâncias, turbilhões e quedas – cabe estabelecer a «sinapse sinopse / dum saturado real». Saturado ao ponto de exigir uma transubstanciação, o deslocamento do sujeito para outro plano, a manifestação de um desejo «corporeamente espiritual» («quando o rosto se expõe de tão oculto»).
Estas complexas metamorfoses simbólicas tornam por vezes os poemas algo crípticos, atravessados por imagens bizarras, barrocas, como que caídas neste nosso tempo vindas de outro século. Mas nunca Ana Marques Gastão esteve tão perto da exactidão formal a que todos os poetas aspiram: «Anda, suporta teu corpo de ferida / cicatriz ou nome, és esqueleto bravio / carne e voragem, sino que ressoa, / te ensurdece e desmorona».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Quatro poemas de Ana Marques Gastão

PREGADEIRA

Coso o botão
a linha de sangue,
prego-o à página,
cedo à seda.
Semeio outro nó.

Lesto, embalo-o
ao peito, digo:
meu anjo e anseio,
sou uma pregadeira
de aço e pó.

***

CASTELO COM CAUDA

Hoje hiberno, ondulo
como as serpentes,
visto a blusa,
rodo a cintura.
Cinjo-a à coroa
de meu corpo.

Deixo de ver, vejo,
toco, entrelaço.
A cabeça solta-se
do pescoço,
desenha um castelo
com cauda.

Mais do que espesso,
meu invólucro é lunar.
Avanço não sem lastro,
suporto o vestígio,
amasso o linho,
como se chão fosse.

***

INTUIÇÕES D’UVA

Das uvas o cacho, os braços,
do vinho os rios, ínfimos caudais;
do livro, a citação; do amor
a renúncia ou quase nada querer;
da pele o xisto, do corpo o mel
em texto de boca, do lápis
a rosa-louca, imóvel de se mover
em ponto fixo, pois quando
nasce, único, o fruto, deixa a flor
de ser perplexa em seus espinhos.

***

ALIMENTO IMPERFEITO

Possa eu tornar-me pedra,
da pedra areia, da rocha
grão, do diamante brilho.

Endureça eu como concha
de água matricial, minério
de cobre, coração cristalino.

Seja eu alimento imperfeito
de clareza perfeita, mar denso,
condensado, astral e puro.

Seja eu mel coagulado
d’orvalho e ouro vivo.

[in Adornos, Dom Quixote, 2011]

Quatro ‘mínimas ficções’ de Ana Marques Gastão

bala

Cada batida do coração arrasta mais sangue. Não adianta descalçar os sapatos nem o gemido os abriga desse líquido espesso escorrendo pelas pernas. Nem mesmo. Nem mesmo vivemos algo semelhante a um romance vitoriano. Somente este não-sono profundo e forçado, o medo pisando folhas caídas sob o céu azul.

lírio

És uma lonjura sem nome, um lírio numa sebe de cactos.

clarão

A luz é poeirenta, magra. Vejo-te, vacilante, num voo rasante sobre as águas. Ao entrar em casa, detenho-me num clarão de contorno nítido. No quarto, vivem, silenciosas, estrelas-cadentes; no exterior o céu não se desmantela, vela por mim. Quando acordo, verifico que interior e exterior são afinal o mesmo tecto.

cintura

Deixo-te ir, dizendo palavras inabitadas, tenebrosas. Sou caruma, vento violento, borboleta esvaziada pela malignidade. Procuro, em minha perplexidade de asa, um outro coração. Na avidez do golpe, caminho com água pela cintura. Desapareço.

[in lápis mínimo, Oceanos, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges