Impasse terminal

Como Carne em Pedra Quente
Autora: Ana Sofia Fonseca
Editora: Clube do Autor
N.º de páginas: 156
ISBN: 978-989-7240-01-0
Ano de publicação: 2012
Avaliação: 6,5/10

Aos 45 anos, Laura – a protagonista de Como Carne em Pedra Quente, primeiro romance de Ana Sofia Fonseca – regressa à vertigem da mortalidade. Depois de resistir a um cancro, às sessões de quimioterapia, à queda do cabelo, à traumática ablação de uma das mamas, ouve de outro médico a sentença que é como espada de Dâmocles: SIDA. Mais do que o aguilhão da injustiça («porquê eu?») ou a perplexidade (não sabe ao certo como foi infectada pelo HIV, logo ela que trabalhava como recepcionista numa clínica), o que faz sofrer Laura é a ideia de ter sobrevivido uma vez à morte, à proximidade do fim, para lhe virem tirar de novo o tapete debaixo dos pés. A «verdade» brutal empurra-a então para uma série de ajustes de contas consigo mesma, com as várias mulheres que foi sendo ao longo do tempo, com a vida, com as memórias, com as suas origens e com uma história de amor que descarrilou dez anos antes, entre o leite fervido e as torradas queimadas do quotidiano. Reclusa dentro de casa, sujeita ao progressivo cerco da angústia mas incapaz de escrever, grava cassetes para a filha que vive em Nova Iorque – testemunhos que hão-de tentar, postumamente, dizer o indizível, explicar o inexplicável.
Laura está «fundeada no passado», com a consciência em roda livre, procurando indícios e factos que dêem sentido à sua existência, do regresso a Portugal após o fim do império às histórias de família em que pairam segredos. Com a doença, o pensamento «desarticula-se» e o mesmo acontece à escrita de Ana Sofia Fonseca, que nem sempre revela o arcaboiço necessário para aguentar o ritmo sincopado do monólogo, a sofreguidão das frases curtas, o pathos de uma situação-limite. Curiosamente, as passagens mais conseguidas são as que se afastam do inferno de Laura: narrativas dentro da narrativa, sobre as reminiscências africanas dos antepassados ou o grande amor de Teão, o vizinho que ficou preso toda a vida a um tango de Carlos Gardel. E é nelas que intuímos a boa ficcionista que Ana Sofia Fonseca pode vir a ser.

[Texto publicado no n.º 113 da revista Ler]

Primeiros parágrafos

«A primeira vez aconteceu depois de todas as outras, numa tarde que parecia vulgar. Foi há uns meses, a cidade afastava-se do frio. Havia um certo torpor, meu e dela. Eu caminhava ao sol, devagar, ela acolhia, confiante. Avenida da Liberdade, sétima esquina a contar do rio. No semáforo, verde e vermelho. Um autocarro a travar, mulher a cruzar a passadeira, os canteiros na meninice. Uma pastilha elástica em voo picado, pombo aterrado em pata manca, as primeiras flores. A avenida inteira, gente a viver-se.»

[in Como Carne em Pedra Quente, de Ana Sofia Fonseca, Clube do Autor, 2012]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges