Lá no alto do Paul da Serra

estalagem

A Estalagem do Nevoeiro
Autora: Ana Teresa Pereira
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 74
ISBN: 978-989-641-424-5
Ano de publicação: 2014

Em paralelo com as suas novelas e contos – atravessados por obsessões, zonas de sombra, formas do desassossego –, Ana Teresa Pereira tem escrito livros para um público juvenil. A simplicidade muito trabalhada da prosa é a mesma, mas posta ao serviço de histórias reconfortantes e amenas, sem qualquer tipo de angústias, estremecimentos ou ameaças. Serão, talvez, um contraponto solar ao negrume habitual da autora. Mas são sobretudo uma homenagem às atmosferas típicas das aventuras de Enid Blyton, transpostas para a ilha da Madeira. «Parece que estamos numa aventura dos Cinco», diz-se a certa altura. E parece mesmo. Há crianças, há um cão, há passeios ao ar livre com farnel, há até um arremedo de mistério policial (em torno do desaparecimento de um colar de pérolas).
Tal como em muitos livros da escritora britânica, e como no anterior A Porta Secreta (2013), os irmãos protagonistas não têm pai. A mãe, omnipresente, leva-os de visita a uma estalagem no Paul da Serra, lugar com «qualquer coisa de encantatório». O clima é de despedida, porque o negócio já conheceu melhores dias e as proprietárias ponderam a venda da estalagem a um casal que fará – temem os hóspedes habituais – alterações drásticas.
Durante o tempo da estadia, os gémeos Hugo e Daniela ficam a conhecer a Lagoa da Bruma e os seus segredos; o fascínio da neve; mais a difícil amizade de Íris, a pouco sociável sobrinha das donas. Tudo é contado devagar e com uma certa volúpia na descrição dos detalhes. O arco narrativo não podia ser mais suave. As arestas desaparecem, como a paisagem dentro do nevoeiro. Afinal, lembra-nos o último capítulo, «nem todos os epílogos são tristes».

Avaliação: 7/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Ao fundo do jardim

a porta secreta

A Porta Secreta
Autora: Ana Teresa Pereira
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 101
ISBN: 978-989-641-383-5
Ano de publicação: 2013

Nos seus romances e novelas, Ana Teresa Pereira nunca escondeu o fascínio pelos livros de aventuras juvenis de Enid Blyton. Muitas das personagens os mencionam, chegando a procurar edições antigas em alfarrabistas. Esse suave encantamento britânico paira em cada uma das páginas de A Porta Secreta, história escrita a pensar num segmento etário específico (algures entre o fim da infância e o início da adolescência), mas que pode ser lida com proveito em qualquer idade.
Nos arredores do Funchal, Ema aluga, para si e para os dois filhos, Sara e Miguel, uma casa que fica «praticamente no meio do campo» – o oposto do «bairro tão feio onde viviam antes». Nas traseiras há um belo jardim, a mãe deixa as crianças terem um cão e um gato, a família abalada em tempos pela morte do pai parece encontrar o equilíbrio. Mesmo ao lado, uma grande quinta e respectiva mansão, propriedade de uma família inglesa, alimentam as fantasias de Sara e Miguel. Descoberto um acesso escondido, eles fazem amizade com um pintor de passagem e especulam sobre as luzes que se acendem, à noite, no torreão. Como em Blyton, os estremecimentos e receios não correspondem a um perigo efectivo e os heróis estão de volta à hora do lanche.
Outonal e serena, a história reúne muitos elementos do universo da autora: flores, cinefilia, aparições no nevoeiro, pintura (a chave é uma aguarela que pode ser de Turner e representa o princípio do mundo). A escrita é despojada, precisa, acessível, mas capaz de achados. Por exemplo, a velha casa, ao luar, surge como «uma concentração de silêncio». Mais do que para o mistério, a porta secreta ao fundo do jardim dá para a literatura.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Pigmalião na neve

O Lago
Autora: Ana Teresa Pereira
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 129
ISBN: 978-989-641-266-1
Ano de publicação: 2012

Nos últimos livros de Ana Teresa Pereira, o teatro vem ocupando um lugar cada vez mais importante na densa rede de referências simbólicas da autora. Mas é em O Lago que se esbate de vez a fronteira – porosa e vagamente assustadora – entre palco e vida. Se na novela anterior (A Pantera), uma escritora (Kate) transformava o actor com quem se envolvia (Tom) em personagem de ficção, desta vez há um dramaturgo e encenador (também chamado Tom, o mais recorrente dos nomes-fétiches de ATP) que pretende converter uma actriz na própria essência da fugidia protagonista da sua peça. «Há algum tempo que ela usava as palavras representar e escrever como se fossem exactamente a mesma coisa», diz-se a propósito de Kate em A Pantera. Essa quase equivalência torna-se agora absoluta, através de uma subtil reformulação da frase: «Não há qualquer diferença entre escrever e representar.»
Na primeira parte do livro, assistimos à aproximação entre Jane, uma actriz mediana, ex-bailarina que transporta a marca do seu falhanço (um dia caiu do palco e feriu o tornozelo; por isso coxeia ligeiramente quando se sente «perdida» ou «com medo»), e Tom, o dramaturgo/demiurgo à procura de transcendência: «Queria um mundo que fosse completo e perfeito em si mesmo. Como um buraco no universo.» Obsessivo, ele imaginou uma mulher na cabeça, no papel, e necessita de um corpo que se lhe adapte, «material para ser modelado». Os sinais estão todos à vista. A Tom, «sempre o seduzira a história de Pigmalião». Ou seja, só concebe amar um ser por si criado. E se escolhe Jane, apesar da sua inexperiência, é porque ela tem «alguma coisa de Audrey Hepburn» (a protagonista de My Fair Lady).
A peça de Tom decorre num só cenário (alpendre, paisagem de neve, lago ao fundo), com um homem e uma mulher a conversarem «em terreno familiar», e depois «mais fundo, onde fazia escuro, era perigoso, e não havia caminho de volta». Para que o enigmático texto liberte a sua corrente subterrânea de horror («mas talvez houvesse felicidade no horror»), é preciso que Jane seja «completamente» a personagem e passe «para o outro lado». Uma metamorfose que acontece no lugar onde a peça foi escrita: a única casa de um «vale maldito», isolada do mundo pelos rigores do Inverno. É ali que Tom esculpe tudo: um passado, memórias, gestos; um dia que se repete, sempre igual. Esta aproximação a «algo de abstracto» (talvez divino) exige uma «espécie de loucura», o fechamento num território assombrado. E na literatura portuguesa ninguém conhece melhor tais rarefeitas paragens do que Ana Teresa Pereira.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 110 da revista Ler]

Primeiros parágrafos

«Tom aprendera com José Quintero que não se deve roubar pão – o motivo é de ordem religiosa; e que dirigir uma peça ou um filme é procurar algo de tímido e de interior, escondido nos bosques do nosso ser.
Era o começo do Outono e as folhas desprendiam-se das árvores; à noite fazia frio. No teatro, fazia sempre frio. Tom tinha visto tantas raparigas a lerem o papel, que começava a sentir-se aborrecido. Uma das actrizes profissionais do primeiro dia…
A rapariga foi a última da tarde. Ele viu-a atravessar a sala e subir para o palco sem grande interesse. Era bonita, o cabelo louro comprido, o corpo magro, vestia um casaco preto de cabedal que tirou antes de sentar-se. Por baixo vestia uma T-shirt branca, sem mangas, e uma saia preta que lhe ficava alguns centímetros acima do joelho. Botas pretas. Parecia cansada.
Tom conhecia aquele cansaço. Não era o cansaço de quem trabalhara muito naquele dia, de quem trabalhara muito na véspera, mas a simples dor de estar vivo. Devia ter vinte e nove ou trinta anos. Ele conseguia ver a sua história nos olhos cor de avelã. O trabalho num bar para pagar os estudos, um ou dois bons papéis, inúmeras audições e depois nada. Pequenos papéis em peças que saíam de cartaz ao fim de umas semanas e nada.»

[in O Lago, de Ana Teresa Pereira, Relógio d’Água, 2011]

A ternura e o terrível

A Pantera
Autora: Ana Teresa Pereira
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 115
ISBN: 978-989-641-236-4
Ano de publicação: 2011

Para os leitores fiéis, o universo ficcional de Ana Teresa Pereira (ATP) é uma paisagem imediatamente reconhecível. Entra-se num livro da autora madeirense como não se entra em mais lado nenhum. De livro para livro, há personagens que regressam obsessivamente, circularidades, repetições, simetrias, imagens que funcionam como leitmotifs (o nevoeiro, o castelo, o lago, a neve, o colar de prata com um nó celta). Enfim, uma atmosfera romântica saturada de referências literárias e pictóricas (maioritariamente britânicas), cenário para relações impossíveis, quase sempre entre mulheres jovens e homens mais velhos. É como se houvesse um continuum narrativo que atravessa toda a obra de ATP, uma mesma história de «inquietante estranheza» que vai sendo contada em sucessivas variações.
À semelhança de Quando Atravessares o Rio (2007), a protagonista desta nova ficção é uma escritora (Kate) que transforma o actor com quem se envolve (Tom) em personagem do seu livro. Mas a obra anterior com que A Pantera dialoga mais explicitamente é Inverness (2010). Não só porque parte da acção decorre na mesma casa de campo (Owl Cottage) e seu jardim luxuriante, mas porque coincidem no tema central: a dificuldade de separar a realidade da imaginação quando os dois planos se confundem.
Num caso como no outro, o corolário desta ambiguidade é a tentação do artifício («Há algum tempo que ela usava as palavras representar e escrever como se fossem exactamente a mesma coisa»). O estilo «simples» esconde uma estrutura densa, complexa, onde coexistem «a ternura e o terrível», bem como o pânico de enlouquecer, de cair nesses «lugares escuros» onde nos defrontamos com os nossos «demónios». É um «jogo cruel», sim, mas cheio de beleza.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Numa noite de Setembro, na escuridão do Abbey Theatre em Dublin, Kate encontrou a sua personagem. Com os olhos fixos no palco, no corpo magro do actor, sentiu que o livro começava a tomar forma, as palavras e as imagens, a ternura e o terrível.»

[in A Pantera, de Ana Teresa Pereira, Relógio d’Água, 2011]

O ponto de vista do fantasma

A Outra
Autora: Ana Teresa Pereira
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 68
ISBN: 978-989-641-187-9
Ano de publicação: 2010

Em 2004, numa das suas crónicas no Público, Ana Teresa Pereira escreveu o seguinte: «No conto O Desenho no Tapete (…), Henry James fala do ‘segredo’ que o autor vai tecendo no próprio corpo do texto, o fio no qual estão enfiadas as pérolas, enfim, a verdadeira história que, se o romance ou conto tiver vida, está em todas as partes, e é contada por cada palavra, por cada sinal de pontuação. Claro que se existe um inconsciente do texto, e eu não tenho dúvidas de que existe, o autor pode ser o último a saber ou até nunca saber. Em A Volta no Parafuso, James deixou falar livremente o seu desejo e o seu medo. Mas é o nosso desejo e o nosso medo que vamos encontrar na novela.» Foi a partir desta projecção da escritora madeirense numa história alheia que nasceu o seu livro mais recente: A Outra, um conto perfeito, daqueles que apetece ler em voz alta, várias vezes – pecando apenas por ser demasiado breve e por apresentar uma estrutura narrativa tão elíptica, tão reduzida ao mínimo dos mínimos, que se torna opaca para quem não conheça a novela de James.
Publicada em 1898, A Volta no Parafuso é uma ghost story em que uma preceptora chega a um casarão na província para cuidar de duas crianças (Miles e Flora), cujos pais morreram e de quem o tio não se pode ocupar. Um dia, ela começa a ver o que aparentemente mais ninguém vê: um homem e uma mulher que correspondem às descrições de Miss Jessel, a anterior preceptora, e Peter Quint, o seu amante, ambos mortos. A narradora convence-se de que os meninos também reconhecem os fantasmas e que estes querem levar as crianças. O desenlace é trágico. Ainda hoje há controvérsia entre os leitores da novela sobre se os fantasmas eram reais ou apenas alucinações, fruto de um estado psicótico da protagonista. Depois de Freud, a história fantástica de James até pode ser reduzida a um caso clínico, mas não perde a sua capacidade de nos perturbar.
O que Ana Teresa Pereira faz não é apenas contar de novo esta história. É olhá-la de outra perspectiva. É virá-la do avesso, para nos mostrar o ponto de vista de Miss Jessel, o fantasma. É, no fundo, invadir o território de James com a sua própria linguagem. E onde um se demora, construindo lentamente a tempestade, a outra espalha relâmpagos, fragmentos curtos, súbitos clarões. Como sempre nos livros de ATP, há insistências, simetrias, circularidades, imagens que se repetem vindas de obras anteriores: as charnecas batidas pelo vento, as flores, ou o lago «assombrado», com uma «leve neblina» a nascer das águas.
No princípio, vemos como Miss Jessel se predispõe a desempenhar o papel principal, semelhante ao das heroínas dos romances que lia às escondidas do pai (Jane Eyre e O Monte dos Vendavais, com um Heathcliff capaz de lhe tirar o sono). Ela é bonita e tem consciência da sua beleza: cabelo cor de cobre pela cintura, olhos azuis, uma aura como a das mulheres etéreas e carnais pintadas por Dante Gabriel Rossetti. Já Quint parece uma «versão áspera e brutal» do seu patrão, o senhor de Bly, de cujas roupas e pose se apropria. Ele é o homem omnipresente, à janela ou no cimo da torre, o que tem «todo o conhecimento das coisas selvagens», o actor («quase como alguém», mas «só quase») que representará com Miss Jessel uma «peça diabólica», em que no limite usurpam as próprias crianças: «E Miles e Flora caminhavam num mundo criado por nós. E sentiam-se protegidos, e felizes.» Até que a morte os relega para o lugar de quem não encontra «o caminho para o Céu ou para o Inferno».
Quando por fim se reconhecem e enfrentam, as duas preceptoras tocam no tal «segredo» mais fundo do texto: «Por quem está apaixonada a preceptora de cabelo castanho?» A resposta óbvia seria Quint, mas Ana Teresa Pereira, na crónica de 2004, insinua que pode ser Miles. Na verdade, tanto faz. Porque «os fantasmas de Bly são os nossos» e, tal como em relação à história original de James, «é o nosso desejo e o nosso medo que vamos encontrar».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«A porta abriu-se sem que ninguém lhe tivesse tocado.
O vento trouxe as folhas para dentro de casa, num movimento suave, com algo de musical.»

[in A Outra, de Ana Teresa Pereira, Relógio d’Água, 2010]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges