Movimento contínuo

inercia

Inércia
Autor: André Carrilho
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 150
ISBN: 978-989-8688-07-1
Ano de publicação: 2014

André Carrilho (n. 1974) é um dos ilustradores portugueses mais premiados e reconhecidos internacionalmente, pelos trabalhos que publica amiúde em publicações de grande prestígio: New Yorker, The Independent on Sunday, Harper’s, Vanity Fair, New York Times, entre outras. Quem conheça o traço elegante das suas caricaturas e cartoons, ficará decerto surpreendido com as imagens que reuniu em Inércia, um belíssimo diário gráfico que cobre cerca de ano e meio de deambulações pelo mundo (Janeiro de 2012 a Agosto de 2013) – editado primorosamente pela Abysmo, em capa dura e com magníficas reproduções em papel couché mate.
Ao invés da sua produção para a imprensa, em que recorre aos mais sofisticados recursos tecnológicos, «os desenhos deste livro foram feitos presencialmente no local que retratam, à mão, com canetas, tintas acrílicas, grafite solúvel e aguarelas», nas páginas de um pequeno caderno, reproduzidas à escala real. O resultado é sempre deslumbrante, oscilando entre a abundância de detalhes (perspectivas urbanas) e uma apropriação difusa de atmosferas (paisagens rurais ou marinhas), servidas por uma paleta forte: vermelhos para as falésias da Costa Vicentina, amarelos para as margens do Douro, tons pastel para as praias de Moçambique, sombras e luzes para a noite de Macau.

A surpresa maior, porém, está na qualidade dos textos em que Carrilho descreve as suas derivas geográficas. Prosa atenta, desconcertante, por vezes irónica, mas sobretudo reflexiva – e saudavelmente avessa a lugares-comuns. A inércia a que o título alude não é a dos corpos que se mantêm estacionários, mas a dos que revelam tendência para «continuar em movimento». É sobre isso que o autor escreve, sobre o movimento contínuo a que se entrega, deslocando-se em permanência, de continente em continente, de voo em voo, de escala em escala, levando consigo o trabalho que envia por e-mail, fazendo questão de circular a «contra-ciclo» dos seus desenhos, numa espécie de «pendularidade simétrica». Precisa de se afastar de casa, onde fica «mais lento, mais ancorado», para ganhar «claridade e leveza». Mas dificilmente se encaixa na dicotomia clássica, a do turista versus viajante. «Ambos têm algo que eu não tenho: disponibilidade para o que encontram no caminho. A minha é limitada, continuo a trabalhar, muitas vezes não tenho tempo para olhar a paisagem.» Será talvez um nómada, alguém que se desloca mas não cria raízes.
Mesmo no outro lado do planeta, em cidades desconhecidas, Carrilho procura criar hábitos de familiaridade, «como se sempre lá tivesse estado». É capaz de passar dias inteiros na mesma esplanada, no mesmo beco, ignorando as dicas dos guias de viagem, até sentir que pertence àquele sítio, até ser capaz de o compreender na sua nudez quotidiana. E o instrumento dessa apropriação nunca deixa de ser o caderno: «Desenhar tem o poder de abrandar tudo, de me tornar mais imerso num canto particular da realidade. Não penso em mais nada a não ser no que estou a ver. Aliás não penso, olho. E é o desenho que encontra por mim.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges