Uma micronarrativa de Andréa Del Fuego

Intitula-se Tua coxa é lisa e pode ser lido no site PNETLiteratura, aqui.

O mecanismo do mistério

Os Malaquias
Autora: Andréa Del Fuego
Editora: Círculo de Leitores
N.º de páginas: 260
ISBN: 978-972-42-4747-2
Ano de publicação: 2011

Depois de ter consagrado alguns dos mais importantes ficcionistas portugueses surgidos na última década (Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto e João Tordo), o Prémio José Saramago distinguiu, em 2011, Andréa Del Fuego (n. 1975), uma escritora paulista até agora inédita em Portugal. Ao contrário de outros autores brasileiros da mesma geração, como João Paulo Cuenca ou Daniel Galera, mais interessados em mostrar a energia e a violência da sociedade contemporânea, num estilo seco, muito directo, Del Fuego retoma uma certa tradição do fantástico, assumidamente lírica e com marcas regionalistas (sobretudo nos diálogos). A sua força está no facto de abordar essa tradição reinventando-a, recriando-a, procurando nela caminhos novos e uma linguagem original.
Logo nas primeiras páginas, assistimos a uma cena arrancada à memória familiar da autora, cujos bisavós morreram fulminados por um raio. Na versão ficcionada, Adolfo e Donana sucumbem porque no momento fatal os seus corações faziam a sístole, fechando a aorta e a possibilidade de a energia se escoar até ao solo: «O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória.» Mais afortunados, os três filhos do casal – Nico, Júlia e Antônio – tinham o coração em diástole, as vias sanguíneas abertas, e por isso salvaram-se com «queimaduras ínfimas, imperceptíveis». O destino dos órfãos desamparados, com nove, seis e quatro anos de idade, diverge logo ali. Nico, o mais velho, fica a trabalhar para o dono de uma fazenda da Serra Morena. Os outros dois são entregues a diligentes freiras francesas, que os criam e educam, à espera de encontrar quem os adopte. E se isso acaba por acontecer com Júlia, menos sorte tem Antônio (por transportar o estigma de ser anão). Separados os três, o livro acompanha as respectivas trajectórias, as suas desilusões e tormentos, o sonho de um dia se voltarem a juntar como família.
Não é, contudo, pela matéria propriamente narrativa que este romance se distingue. O que o torna fascinante é a escrita de Andréa Del Fuego, o modo como ela desmonta à nossa frente o «mecanismo do mistério», o espanto diante das formas do mundo. Esta é uma prosa elementar, feita de elipses, de frases em que só sobra o essencial (tão no osso que até se prescinde dos artigos), uma forma de narrar que fixa os mínimos detalhes: os cheiros, as texturas, as cadeias moleculares invisíveis, o brilho que as coisas têm quando estamos suficientemente atentos para as ver. Numa festa rural, uma rapariga tímida olha para os rapazes «de frente para trás como quem recebe uma carta por debaixo da porta». Antônio «pouco se lembrava da fisionomia dos pais, ela reduziu-se a pontinhos sem a reta que os alinhavasse». E, muito depois do acidente, num dos órfãos «vestígios do raio ficaram nos olhos, cintilando».
Os Malaquias é atravessado por encontros e desencontros, grandes febres, mortes súbitas, segredos, heranças, elementos fantásticos (o espírito de uma mulher que transita entre os vários estados da matéria, o navio encalhado no cimo da serra), também por choques duros com a realidade palpável e paisagens agrestes onde os velhos permanecem, «terminando de se gastar». Andréa Del Fuego cose estes elementos uns aos outros numa vertigem de capítulos curtos, mas no final ficamos com a sensação de que há demasiadas costuras à vista, linhas soltas, pespontos previsíveis, bainhas desnecessárias. É uma sensação difusa, diga-se, porque as imperfeições e os desequilíbrios da história ficam como que ofuscados pela beleza desta prosa, uma das mais estimulantes de entre as que se escrevem em língua portuguesa hoje em dia.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Serra Morena é íngreme, úmida e fértil.
Aos pés dela vivem os Malaquias, janela com tamanho de porta, porta com autoridade de madeira escura.
— Corre, Adolfo!
Donana pedia ajuda ao marido, ele cravou o machado na lenha e foi acudir. A bacia brilhava no fundo da cisterna, Adolfo desceu a corda com o balde amarrado na ponta, o encaixou na bacia e foi arrastando-a de volta pela parede. A mulher não fazia mais o pesado, com osso quebradiço, passou a benzer espinha de criança e com reza ganhava fubá, café e leite. Branca rosada, lábio fino. Tirando os Malaquias, os habitantes eram pardos como ma- míferos silvestres.
As crianças fizeram um círculo em torno do poço, o lençol freático refletia três pares de mãos, cada par moldurando dois brilhos e um nariz: Nico tinha olho azul, nove anos. Antônio, miúdo, seis. Júlia, barriguda, quatro.»

[in Os Malaquias, de Andréa Del Fuego, Círculo de Leitores, 2011]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges